Museus históricos são espaços normalmente destinados à preservação da memória e por meio de um acervo o mais diverso possível deve dar ao visitante uma noção abrangente do processo histórico de formação de uma comunidade. O museu de Franca, no Centro da cidade, cumpre em parte com essa função, mas, aos 50 anos, completados nesta semana, passa por problemas que limitam sua expansão, restringem o acesso e o colocam numa espécie de síndrome de Tostines: não é visitado porque não é divulgado e não é divulgado porque não é visitado.
Criado por lei municipal em 1957, mas instalado oficialmente em 1959, em uma residência na Rua Júlio Cardoso, transferiu-se definitivamente para o atual endereço em 1970. Em 1972, com a morte de seu idealizador, passou à denominação de Museu Histórico "José Chiachiri".
Antes de falar sobre o prédio que serve de sede ao museu, é preciso entender como o balaio de gato em que se transformou o acervo do órgão começou a se formar. Na intenção de conseguir objetos para o futuro museu, foi o próprio Chiachiri quem saiu à procura de doadores de objetos que pudessem contar o passado da cidade. O resultado da cruzada por fazendas em Franca e cidades da região está distribuído nos dois andares do edifício com peças de importância duvidosa, mas que foram incorporadas ao patrimônio do museu. São cabeças empalhadas de boi, jogos de louça, utensílios de cozinha, um púlpito gigantesco em madeira, entre tantos outros objetos que pouco justificam sua existência, a não ser pelo fato de serem antigos.
Mas isso hoje já não serve de argumento. Só entram no museu de Franca peças que não encontrem correspondentes entre as já existentes e catalogadas ou que sejam representativas de um período ou importantes dentro do contexto histórico da cidade.
A medida foi tomada para evitar que o edifício, construído em 1896, cuja planta teria sido projetada pelo francês Victor Dubugras, e que já foi, nesta ordem, cadeia, fórum, prefeitura e câmara, se transformasse em um pequeno museu particular, como, aliás, é em parte.
Não é raro aparecer pessoas que queiram se desfazer de objetos pessoais com a condição de que o bem doado seja devidamente identificado como pertencente a tal família, a esse ou aquele benfeitor.
<b>Vale conferir</b>
Fora os equívocos vistos, o visitante pode passar horas agradáveis percorrendo as salas que guardam relíquias para todos os gostos. Dá, por exemplo, para se ter uma breve noção da evolução que marcou a fotografia com câmeras de várias épocas.
Se não resistir em parar na seção de taxidermia, a preferida das crianças, preste atenção depois em uma estante no primeiro andar onde estão guardados objetos de farmácia, como frascos de medicamentos e bisturis de um tempo em que a palavra descartável não fazia o menor sentido e quando os remédios acabavam e os frascos eram novamente enchidos.
No segundo andar, depois de se deparar com bustos horríveis e desinteressantes, coisas inimagináveis para o nosso tempo podem ser encontradas, como a escarradeira e a cadeira sanitária, que ficavam religiosamente ao lado da cama das famílias mais abastadas. A primeira é auto-explicável. A segunda servia às necessidades incontroláveis da madrugada, que eram limpas, pelos empregados da casa, logo de manhã. Olhando para elas, impossível não notar como a sociedade evoluiu.
Além dos objetos que estão à vista, outros podem ser consultados e copiados. São documentos históricos manuscritos ou impressos, livros, jornais e fotografias que pela raridade e importância não são manuseados, servindo mais para pesquisas acadêmicas em formato digital.
<b>O desinteresse</b>
A Prefeitura de Franca não reserva um único centavo de verba para o Museu Histórico. Não há material publicitário ou qualquer coisa que sirva à sua divulgação. A maior parte dos equipamentos de informática, assim como a estante deslizante e climatizada, fundamental para conservar documentos antigos, veio de convênios com órgãos estaduais, como Unesp e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo).
Além de problemas de manutenção do espaço, a acessibilidade é desprezada pela Fundação de Esportes, Artes e Cultura, a Feac, responsável pelo museu. Pessoas em cadeiras de rodas não passam do jardim. Não há projetos para educação em braile. Nos fundos do prédio uma escada está prestes a ruir, o que deveria ser a reserve técnica virou um amontoado de peças inservíveis, e um Ford de 1920 de Angelo Presotto, doado pela família, vive escondido por não ter lugar melhor para ficar.
Como se não bastasse, o museu não funciona aos domingos e feriados. Aos sábados vai até as 12h30.
Segundo Sérgio Menezes, 57, diretor de cultura da Feac, a falta de verba específica para o museu não inviabiliza seu funcionamento, já que a liberação é feita à medida das necessidades. Menezes também justificou que o horário incomum deve-se à falta de funcionários para ampliá-lo e que projetos estão no gabinete do prefeito Sidnei Rocha para análise. "Mesmo quando abríamos aos sábado até 18 horas, os funcionários acabavam ficando ociosos. A população não tem o hábito de ir ao lugar após deixar o trabalho ou nos dias de descanso", disse ele. E emendou: "Sobre o prédio, nossa maior dificuldade é um espaço para a reserva técnica. Projetos de acessibilidade também estão sendo estudados".
Segundo Menezes, 1.600 pessoas visitaram o museu no mês de julho.
Hoje, às 20 horas, no próprio Museu, está programada a palestra “A Vida, Obra e Atuação de José Chiachiri”, com o professor Chiachiri Filho, seguido de um sarau musical.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.