Não vale responder que se encontram no Senado. Por lá eles são perigosos. Dia desses, um deles até quis fazer o outro engolir palavras. E, ainda por cima, digeri-las completamente. Nem cuspi-las de volta poderia. Tudo em nome da (i)moralidade deles. Mas isto é outra história...
Os loucos em questão viveram aqui mesmo. Eram portadores de um inocente e inofensivo arrebatamento. O palco para a atuação deles era a área central da cidade. Um morava próximo ao Centro. Os outros viviam em locais mais afastados. Mas até parece que combinavam de se encontrar todos os dias na Praça Barão, na Nove de Julho ou nas proximidades.
O grupo não pedia dinheiro para ninguém. Mesmo assim, as pessoas lhes davam comida e bebida. Menos para o Geraldo. Esse não precisava de ajuda financeira. Ele morava pelos lados do Cubatão. Chegava cedo à praça. De início, muito calmo. Cheio de ternura. Não podia ver uma mulher com uma criança no colo, que pedia para pegá-la. Na maioria das vezes, diante da negativa da mãe, só conversava com a pequena criatura, cheio de mimos, até fazia carinhos.
O furor só começava com a chegada dos marmanjos. Ao ouvir o apelido, Geraldo Pelotão transtornava-se. De imediato, retirava pedras dos bolsos e as jogava em quem mexia com ele. Os idiotas desviavam-se e quase nunca eram acertados. O mais comum era um desavisado levar uma pedrada ou que o vidro de alguma vitrine fosse quebrado.
Após o primeiro ataque de bestialidade, não do Geraldo, mas dos desocupados, o bondoso homem se desalinhava. Apoplético (essa vale uma ida ao dicionário!), catava as pedras e voltava a jogá-las nos agressores verbais. Corria sem parar de um lado para outro da praça. Suava-se todo. Vociferava. Por volta do meio-dia, vermelho e cansado, ia para casa almoçar.
Nesse mesmo horário, a Luzia Doida saia da Vila Raycos rumo ao Centro. De ônibus. Ela não gostava de andar a pé. E muito menos de pagar a passagem. Mas os motoristas a deixavam entrar e sair pela porta da frente. Já o Toinzinho Beiçudo fazia a sua gingada e baixa caminhada diária, desde os fundos do Jardim Francano até a Praça Barão ou Nossa Senhora da Conceição.
Antes das 14 horas o trio estaria a postos. Geraldo, de novo alinhado, com roupas limpas e passadas. Toinzinho, que já tomara umas pelo caminho, meio amarrotado.
A Luzia, com seu vestido ramado e usando blusa de frio, em qualquer época do ano. Tudo ia bem até soar os codinomes: Pelotão, Beiçudo ou Doida. Daí para frente, chovia pedras, palavrões ou sombrinhadas nos passantes.
Esses loucos mansos (no bom sentido!) não tiveram substitutos à altura. Agora, pelas ruas ou praças, só pessoas molambentas. Não apresentam aquela loucura branda de antigamente. Via de regra, são dependentes de drogas lícitas ou ilícitas. Pedem dinheiro para os transeuntes. Praticam pequenos furtos.
Na maioria das vezes, os atuais loucos mansos estão por toda parte. Moram na rua. Ninguém acha graça nesse pessoal. Muito pelo contrário! A presença do contingente, cada vez mais crescente, desagrada a toda gente. E o pior é que ninguém sabe o que fazer frente a este entrave social.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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