`Antes que seja tarde`


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Meu telefone tocou. Do outro lado, um médico da rede básica de saúde. Conheço-o. Sei de sua competência e equilíbrio profissional. A princípio, não reconheci sua voz. Estava tensa, soava preocupada. Pedi-lhe calma. Como lhe foi possível, começou a falar. "Li sua coluna de sábado passado (disponível em http://www.comerciodafranca.com.br/ materia.php? id=46106). Entendi que não podia me calar. Estamos todos os que trabalham na rede municipal de saúde, tensos, extremamente preocupados. Não sei como agir se receber um paciente potencialmente atingido pela gripe suína". Fiquei estarrecido. Sei da segurança com que este profissional exercita seu trabalho médico. Percebi que ele precisava falar. Permiti. "Não recebemos, até hoje (falamos na quinta-feira, dia 6), nenhuma orientação sobre protocolos de atendimento a pacientes. Os dirigentes da saúde municipal não procuraram médicos, enfermeiros ou atendentes para darem a conhecer as formas corretas de receber, consultar e tomar medidas. Não nos informaram nada, nem se deveríamos usar máscaras para evitar problemas. Não nos indicaram uma escala de perigo. Havia apenas uma ordem, repassada entre companheiros de trabalho: se houver suspeita, remeter o paciente para sua própria casa". Redobrei a atenção. Percebia uma misto de angústia, preocupação e... medo na voz do profissional experiente, calejado por muitos anos de experiência clínica. Fiz o contraponto: "você, então, me afirma que apesar da seriedade da pandemia reconhecida por autoridades médicas de todos os continentes, em Franca não se pratica o Protocolo de Procedimentos do Ministério da Saúde?". Ele confirmou. "Ninguém nos preparou para nada. Apenas na quinta-feira desta semana tivemos acesso ao Protocolo de Procedimentos do Ministério da Saúde, assim mesmo, sem qualquer orientação extra. Continuo sem saber se devo administrar remédios, em que quantidade, ou se não devo administrar nada a quem nos procura". Disse saber que em hospitais estão sendo cumpridos protocolos adequados, com realização de exames e internação para casos suspeitos, mas afirma que, na rede municipal de saúde, “trabalha-se no escuro”. “Quem atua em UBS`s, no NGA, tem temores pessoais e preocupações quanto a não atender devidamente quem procura ajuda. Não sabemos, na verdade, sobre estratégias municipais de prevenção e combate à doença que, se existem, não nos foram passadas oficialmente". Não escrevo mais este texto sobre a gripe suína para alarmar ou institucionalizar o medo na população, mas o caso faz pensar. E pensar com seriedade. Uma leitora deste Comércio, Ana Maria Matos de Andrade, de Pedregulho (SP), escreveu à coluna Cartas, expressando exatamente o que eu pensaria após conversa com o médico que me procurou: "Fico pensando até onde vai a gravidade dessa gripe. Será que o caso é para alarmar, ou não? Medidas como a suspensão de aulas, até onde sei, só são tomadas quando o caso é muito grave. E, se for este o caso, porque a população em geral está sendo poupada? Será que estão subestimando o povo? Será que o caso é muito grave e as autoridades estão com medo de causar pânico? A população está confusa. Não sabemos se devemos, ou não, nos apavorar. Meu medo é que a coisa se torne incontrolável e, quem sabe, já ser tarde demais. Sinceramente, eu gostaria de saber até onde vai o perigo!". Este Comércio, ao reportar o que investiga, cumpre seu papel de informar adequadamente. Saber que até esta semana, depois de alguns casos de mortes suspeitas ocorridos, não havia ainda conhecimento da classe médica municipal sobre o Protocolo de Procedimentos do Ministério da Saúde, que descreve sintomas, normatiza ações, recomenda cuidados (caso das máscaras, por exemplo); e, nem encontros dos quadros profissionais que atuam na rede municipal de saúde, para trocar impressões e receber orientação quanto a procedimentos recomendados, sugere que o município não esteja trabalhando com a eficiência e responsabilidade necessárias, frente a uma pandemia consumada. Estamos todos nos mesmo barco. Seria bom e recomendável que isto mudasse. E imediatamente, "antes que seja tarde", como disse a leitora Ana Maria. SANTA CASA Recebi a informação que o médico Homero Antônio Rosa Júnior, da Vigilância Epidemiológica, foi convidado, aceitou e fez palestra para funcionários, médicos e pessoal clínico da Santa Casa de Misericórdia, quanto à real gravidade da gripe suína. Parabéns à instituição. Os quadros clínicos da rede municipal de saúde também precisam ser lembrados, urgentemente, "antes que seja tarde". PILOTO AUTOMÁTICO A rede de saúde pública de Franca tem números grandiosos. Milhares passam pelas unidades básicas de saúde e prontos socorros, diariamente. Os números impressionam mas, pelo jeito, não basta. O problema, segundo uma de minhas fontes, "é que o sistema funciona em piloto automático. Tudo é levado de forma a não gerar problemas para os administradores municipais. O sistema só será colocado em xeque se uma epidemia se abater sobre a cidade". A possibilidade de gripe suína, a exemplo. EM CURITIBA A pandemia é séria, está em território brasileiro e não há redutos livres do perigo. Com esta filosofia, Curitiba criou um call center para manter a população informada e cuidada, 24 horas por dia. O secretário municipal de Saúde, Luciano Ducci, tomou a decisão na quinta-feira, depois de reunir representantes das secretarias municipais da Saúde e da Educação, entidades hospitalares e médicos infectologistas. Disse também que "não há motivo para pânico, pois os médicos estão instruídos para avaliar cada caso individualmente e prescrever, se necessário, medicamento". Para ele, "o call center será muito útil, porque vai acompanhar o paciente que esteve em consulta e foi para casa". Será orientado, à distância, sobre como agir se os sintomas não desaparecerem com o tratamento prescrito (os grifos são meus). Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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