Cada pessoa tem seu perfil, e de acordo com ele, estabelece sua rotina. Pode, porém, ocorrer de a pessoa precisar alterar o seu ritmo para adequar-se a uma rotina que lhe é imposta; como nem sempre é possível ditar as regras, às vezes se devem acatar normas criadas por outros. A necessidade de nadar, dizem, aumenta na medida em que a água sobe.
Conquanto faça lembrar monotonia, marasmo, etc., rotina não significa isso. Pode haver rotina monótona (e não tem pleonasmo na expressão), mas também rotina agitada, rotina leve, rotina pesada, e por aí vai. O que faz a rotina boa ou ruim é a própria pessoa, o estado de espírito com que encara e realiza as atividades que lhe tomam a maior parte do tempo.
Dizem que a rotina estraga o casamento, o que a meu ver é um equívoco. Na vida a dois, assim como na profissão, tem rotina. O mesmo homem com a mesma mulher, todos os dias, na mesma casa, é uma rotina, que pode ser feliz se há benquerença recíproca. O que acaba com o casamento é indiferença, o desrespeito. No trabalho é a mesma coisa; por mais repetitivo que seja, pode ser agradável.
O médico que chega cedinho ao consultório e atende até o anoitecer, por exemplo, tem uma rotina cansativa, mas pode sentir-se bem fazendo isso se gosta da profissão, se tem apreço pelos pacientes e interesse pelo bem-estar deles. O caixa de banco pode fazer o trabalho com mais leveza se tratar com simpatia as pessoas e tiver vontade de atendê-las bem. O rotineiro não precisa ser maçante. Quem gosta da vida que leva não deve alterar sua rotina para fazer algo que não lhe apraz apenas para adequar-se ou integrar-se a determinado padrão. Não somos ovelhas. Certas coisas, não é porque meio mundo faz que eu vou fazer também.
Não se foge da rotina, por mais ativa que seja a pessoa. A vida já vem com uma sequência determinada: a gente nasce, cresce, envelhece e morre. Nada muda isso, a não ser a possibilidade de morrer antes de ficar velho, seja por uma doença incurável, por um acidente ou mesmo de `morte matada`. O dia-a-dia pode ser muito diferente de uma pessoa para outra, mas num caso e noutro há rotina. Após a noite vem o dia, e depois do dia vem a noite, e assim dia e noite, noite e dia... É saudável fazer certas coisas sempre na mesma hora, como comer, dormir, etc. Mas a rotina muda e a gente tem de ser flexível e adequar-se.
No imprevisível da vida, às vezes a rotina é quebrada por fatos indesejados (doenças, tragédias), e aí tudo que se deseja é superá-los para retomar o cotidiano. A mãe com o filho enfermo sonha vê-lo voltar à rotina das traquinagens que a deixam maluca.
Melhor arteiro, mas sadio, do que doente. Pode-se sair da rotina por vontade própria, tirando férias do trabalho, fazendo viagens, visitando parentes e amigos. O que se faz fora da rotina deve servir para melhorá-la. O real encanto da vida está no corriqueiro, nas coisas comuns e habituais. Assim, penso que não se deve tentar fugir da rotina, mas sim fazê-la melhor, viver verdadeiramente, sentir prazer nas ações mais banais e rotineiras.
Nada de apavorar-se por qualquer motivo, pois quem faz isso pode morrer afogado com a água abaixo do joelho. E creia, é bom ir mais devagar; na estrada da vida tem curvas fechadas, inesperadas, não sinalizadas, nas quais há o risco de perder-se e passar pela vida sem ter descoberto o verdadeiro prazer de viver.
Paulo Pereira da Costa
Promotor de Justiça e autor do livro `Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br
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