Patrimônio


| Tempo de leitura: 2 min
Mudou a noção de patrimônio. Num circuito global em que imagens, mensagens e vozes atravessam o mundo em fração de segundos e quando se apela cada vez mais às relações de poder brando, já não podemos perpetuar a crença em que o que nosso País tem de patrimônio se limita a um monumento ou um edifício histórico que se expõe diariamente ao sol, enquanto os transeuntes o contemplam com desdém. Patrimônio é uma categoria que se tornou mais abrangente infelizmente tarde e não por todos os que deveriam lidar com a questão a ponto de incluir o intangível ou o imaterial ao conjunto de objetos de museu e prédios que remontam ao período colonial. Por que ainda há um anacronismo para propor formas de proteger e divulgar os idiomas, os sotaques, as técnicas, os costumes e os saberes locais? O que define o patrimônio é a capacidade de representar simbolicamente a identidade, que se promove por alguma instituição social e se legitima pelo restante da sociedade. Os traços identitários brasileiros têm sido criados oficialmente em função da nossa maneira de ser, o futebol, o carnaval, as belezas naturais. A identidade nacional caminha junto com o que se soma como patrimônio intangível. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) entende que o patrimônio cultural transcende prédios oficiais, igrejas e palácios para incluir imóveis particulares, segmentos urbanos e ambientes naturais de valor paisagístico. Ademais o instituto reconhece a existência de "patrimônio imaterial". A partir daí, constrói-se um argumento em torno da incorporação de novos elementos para o conceito. No Brasil, objetos são vendidos em lugares turísticos: chaveiros, bonés, camisetas e cartões-postais com alguma referência ao patrimônio. O material tem uma facilidade maior para manifestar-se como patrimonial, enquanto o intangível demanda ações mais cuidadosas pelos governos e iniciativas privadas que promovam, respectivamente, a defesa das diversidades culturais e o desenvolvimento econômico. Falta calibrar a estratégia para que o Brasil seja efetivamente um ator de importância cultural e econômica no mundo enquanto se desperdiça o nosso dinheiro para fazer o "ano da França no Brasil" em vez de divulgar as nossas culturas naquele país. Mais um absurdo. Nossas canções, danças, filmes e costumes merecem ser conhecidos e compartilhados além das fronteiras, assim como alguns outros países difundem seu patrimônio intangível pelas facilidades dos recursos comunicacionais e eletrônicos. O Brasil precisa, ao mesmo tempo, consolidar a proteção e a promoção do patrimônio intangível dentro de seu território sem abandonar as políticas a favor daquele entendido como material. Pensar numa reconceituação do patrimônio implica supor que as visitas aos museus brasileiros se farão não só com canções estadunidenses nos falantes, ou que o descanso nos lares não se dará só em frente a um televisor japonês, ou que o francês não será um idioma mais importante que o português. A noção atual de patrimônio ultrapassa a materialidade e rediscute o cerne da brasilidade. Bruno Peron Loureiro Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários