Na casa onde mora, herança dos avós, Walquíria cuida da mãe, Sônia. O remédio controlado tirou um pouco da habilidade na fala, mas não a memória: “Guardo qualquer número de telefone que você me falar”, diz ela, 63 anos de idade, um enfarto em 1990 e um diabetes perpétuo que levou dois dedos do seu pé esquerdo. “Tinha também meu irmão, mas está morando na rua e a gente nem tem notícia dele. Roubava tudo dentro de casa para trocar por droga. É melhor que fique na rua mesmo”, diz Walquíria. A mãe concorda e balança a cabeça, lembrando que enquanto o marido era velado, os alumínios eram rapelados na cozinha.
Walquíria insiste em apresentar a casa. Passa por um batente de porta ornado com Santo Antônio, Santo Expedito e nossas senhoras de Fátima e Aparecida. Quando precisava de emprego, foi o Expedito, o santo das causas impossíveis, “aquele de vermelho”, que a ajudou a conseguir trabalho na empresa de cartonagem, “de onde saiu o fusca”, diz orgulhosa.
Nos fundos, onde poucas orquídeas ainda não se parecem com orquídeas, a bicicleta dorme um sono eterno, esperando que a dona largue o cigarro para voltar a pedalar. Na casa ao lado, a tia bate alho para a janta e ainda não são nem cinco horas da tarde. Leva ao quarto com cama de casal e decoração simples, mas aponta para a telha de amianto, um horror nos dias quentes. Na volta, Sônia também aponta para o seu.
Na sala, mostra o home theater. Filmes de guerra e terror não entram. É para românticos e os capítulos de Lost, a série preferida, que ainda não buscou na locadora. Entre as últimas aquisições uma máquina de lavar, comprada só porque a geladeira ainda está aguentando bem. “Converso com ela todo dia. Ela não pode pifar, não”.
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