Ela tem 42 anos e nem sabe dizer quando seus sonhos acabaram. Sabe apenas que um dia eles existiram. Na infância, claro, tempo de descobertas, sabia que tinha algo diferente em relação às meninas com quem convivia. Mas a percepção logo fugia após a primeira rodada de amarelinha ou a troca de roupa da boneca. Queria no fundo ser igual a todo mundo.
Na pré-adolescência começou a sentir os incômodos do preconceito e da rejeição. Era época de quinta série, quando todas as meninas de sua idade, aos 12, 13 anos, já tinham pelo menos uns seis garotos em quem prestar atenção. Novos tempos de descoberta, ainda mais marcantes para Walquíria. Mas nela ninguém prestava atenção.
Em tempos de primeiros namoricos, revolução do corpo e dúvidas existenciais, era inexplicável que os rapazes passassem por ela como quem passa por algo invisível. Porque ainda que esbarrassem nela como quem encontra rapidamente uma novidade, aqueles meninos que já haviam mandado recadinhos para as suas colegas, também olhariam para ela. Mas não olhavam. Nunca. Não entendia por que razão nasceu diferente das colegas da escola e de sua rua, onde cresceu e vive até hoje. Sem respostas, a moça com nome de guerreira entregou-se.
O que lhe tirou do convívio com as pessoas da mesma idade e fez com que sua casa se transformasse mais em clausura e menos em refúgio, atende pelo nome de neurofibromatose, uma doença hereditária e progressiva que altera o desenvolvimento das células do sistema nervoso, músculos, ossos e pele e que pode chamar doença neural de Recklinghausen ou doença de Recklinghausen, neurofibromatose periférica, doença nervosa de Recklinghausen, doença de von Recklinghausen.
Cinco nomes para denominar a mancha que lhe toma boa parte do lado direito do rosto, pescoço e peito, pequenos caroços pelo corpo e uma pele excedente que desce pelo maxilar, desfigurando em parte suas feições.
Aos 14 anos alguém diz que sua sorte poderia mudar e lá foi ela com o pai inaugurar a série de cirurgias que só terminaria em 2004. Quase sempre sem resultado satisfatório algum. Foram 14 operações ao todo, acompanhada de Genésio, o pai, presente à maior parte delas, até morrer em 1998. No caso dos dois, pai e filha estavam unidos muito mais que pela simples afeição normalmente aproximadora, mais ou menos como o que une mãe e filho. Genésio era literalmente o espelho de Walquíria, tendo desenvolvido pelo corpo as mesmas alterações que ela.
No caminho de ida das 14 cirurgias reparadoras que fez levava esperança de sobra. No de volta, desapontamentos que pareciam não ter fim. “Eu ia cheia de vontade, acreditando que voltaria curada. Mas que nada. Não mudava nada”, disse ela na pequena cozinha de sua casa, no bairro Exposição.
Pois a mulher com prenome alemão e sobrenome italiano, que pouco conhece além de Franca, situação minimizada pela única vez que foi à praia, no Guarujá, primeiro desistiu da escola, depois desistiu de resistir, porque os atos todos de resistência custavam caro e eram doloridos. Entrou dentro de si mesma e de lá não saiu por um bom tempo. “Quer saber? Chega uma hora que você cansa. Deixei na mão de Deus, porque parece que é uma dívida que eu tenho que pagar. Sei lá, quando você é mais nova fica mais incomodada. Hoje já me acostumei. Não ligo mais”.
Quando voltou de sua última cirurgia em São Sebastião do Paraíso (MG), há cinco anos, com a mesma sensação que a acompanhara na volta para a casa nas outras 13, jurou que não ia mais se preocupar. Andava de cabelo preso, tomava suas biritas no boteco, o que a leva a fumar muito entre um copo e outro, e decidiu que queria ser feliz como desse.
Mas eis que o namorado rompe o relacionamento depois de um ano e dois meses e ela pensa em suicidar, porque dava como certo que o problema no rosto era o responsável pelo fim do namoro. Mais tarde, diz rindo, viu que, para a sua sorte, tinha se livrado de um traste.
<b>ELA QUER O IVO</b>
No final, quase em tom de desabafo, diz que ainda vai procurar mais algum médico, algum cirurgião plástico que diga a ela que pode fazer a cirurgia que precisa pelo dinheiro que tem - cerca de R$ 7 mil que conseguiu ao rifar seu fusca (leia mais no texto ao lado). Sabe que a neurofibromatose não desacelera nunca e que as chances de a pele voltar a crescer são grandes. Mas quer fazer a décima quinta operação da sua vida por um simples motivo: “quero viver a vida, quero me sentir bem”, falou Walquíria, a mulher vaidosa que se arruma aos domingo para preparar o almoço.
Como são tantas as coisas que não entende desde que era criança, também não sabe como algumas mulheres gastam seus R$ 15 mil, R$ 20 mil para corrigir o nariz em um milímetro, mesmo sem precisar. “Ouvi dizer que o Ivo Pitanguy faz umas caridades de vez em quando. E já que ele coloca a mão em tanta gente que precisa menos que eu, por que não coloca a mão em mim que preciso tanto?”.
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