O tempo comum da liturgia da Igreja chega ao 17º domingo e o tema principal das nossas celebrações eucarísticas relata o "sonho" dos pobres da terra de Israel e de muitos pobres dos nossos tempos.
Os pobres em Israel conseguiam comer somente uma vez por dia, ao entardecer, depois do pôr-do-sol, quando terminava o trabalho do campo.
Os ricos comiam três vezes por dia.
O "sonho dos pobres" era ter fartura de alimentos podendo comer como os ricos. A primeira leitura descreve o gesto generoso de um homem de Baalsalisa que, durante uma carestia provocada pela escassez de chuvas, oferece a Eliseu, 20 pães de cevada.
O profeta não guarda para si o precioso alimento, mas convida o homem a distribuí-lo para as 100 pessoas que se encontram perto dele, dizendo: "todos comerão e ainda sobrará".
Esta "multiplicação dos pães" é uma das inúmeras narrativas de milagres operados por Eliseu.
Em nome de Javé ele multiplica os vasos de óleo de uma viúva, comunica o poder de gerar a uma mulher estéril, cura um leproso, até mesmo ressuscita um morto. O autor sagrado narra todos esses episódios para que os israelitas compreendam que a vida do homem depende de Javé, não de Baal, o deus dos cananeus.
Este trecho da palavra de Deus realça o nosso compromisso de cristãos em olhar o que podemos fazer para "aliviar" as dificuldades das pessoas. Quando ajudamos alguém que passa por um período difícil na vida, estamos sendo cristãos de verdade. Toda pessoa que consegue enxergar o sofrimento de alguém e o ajuda, nunca estará na miséria. Esses gestos expressam que temos fé. O demônio vai sempre tentar retirar esse desejo do nosso coração, mas, a quem pertencemos? A Deus ou ao demônio?
Se você quiser ser feliz de verdade "ajude" a solucionar os problemas que existem em outras pessoas que aparecem no caminho da sua vida. Nada acontece por acaso.
A segunda leitura da carta aos Efésios traz exortações que dizem respeito à vida dos cristãos. Os cristãos são estimulados a ser "humildes", ou seja, devem ser pessoas dispostas a se colocarem "a serviço" dos irmãos. Devem comportar-se com "mansidão e paciência", renunciando a qualquer forma de agressividade e de violência. Devem "viver unidos".
Como todos os outros homens, os cristãos poderiam ter mil razões para permanecer desunidos e viver em discórdias. Deus nos ensina que não podemos ter inveja e nem competir com os outros. O que traz "paz para a alma" é o exercício da ajuda recíproca, do saber acolher os outros nos momentos difíceis que enfrentam, saber colaborar e ajudar com amor. Formamos a única família dos filhos de Deus, animados pelo mesmo Espírito.
O evangelho foi escrito por São João. No trecho deste domingo, é descrito o milagre da multiplicação dos pães. De poucos pães e peixes Jesus sacia a fome de uma multidão e ainda há sobra. A passagem faz alusão da meta da vinda de Jesus a este mundo: dar o Reino de Deus a todos.
O pão multiplicado é de cevada: era o alimento dos pobres, os ricos comiam pão de trigo. Os pobres são os convidados ao banquete do Reino. Os pobres "esperam, confiam em Deus". Os discípulos de Jesus queriam despedir a multidão que estava com fome; parece que diziam: que cada um se vire".
Jesus não combina com essa solução. O egoísmo é exatamente o contrário da proposta cristã. Ele encontrou nas mãos de um menino a quantidade de alimento necessária para saciar a fome da multidão. O menino simboliza o "desprendimento", a "inocência".
Mais uma vez, percebemos: não vire as costas aos outros, não "negue" o que você pode fazer aos outros. A vida é a melhor e mais clara escola que temos, pois ela se encarrega de nos mostrar que já passamos por situações difíceis e sempre apareceu um modo de Deus dizer: "estou aqui", através de um coração generoso que abriu suas portas e lhe deu mais do que você pensava necessitar, pois a ajuda lhe trouxe Paz.
Participar da missa neste domingo é a grande oportunidade para reconhecer que posso ajudar alguém diante do muito que já recebi de Deus e assim pedir a Deus: não deixe, Senhor, meu coração fechado diante das dificuldades do próximo. Senhor, ajuda-me a entender que o sentido da vida não está em pensar em mim somente, e sim quando estendo minhas mãos para aliviar a tristeza, a fome, a aflição, a angústia de um irmão ou irmã. Amém!
<B>José Geraldo Segantin</B>
<I>Pároco da Catedral de Franca</I>
segantin@comerciodafranca.com.br
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