Não. Não é sobre pele para transplante. É sobre contato humano desarmado, capaz de se emocionar com o outro; chorar, até, se a compreensão indicar que se deva chorar; aquilo que a sabedoria popular chama de "contato de pele", é do que quero falar.
Amontoam-se comentários e reclamações sobre guerras entre pacientes e profissionais da medicina, em minha mesa. A Editoria de Opinião deste Comércio funciona como um catalisador, capaz de aproximar quem pode nada, de quem pode tudo; quem não tem poder de qualquer tipo com aqueles que detêm tanto poder, que até se engasgam.
Digo, com todas as letras: as pessoas simples, comuns, estão assustadas, muito assustadas. "Sabe, Luiz? Fui obrigada a procurar um médico, e fui a contragosto, porque não gosto de procurar médicos, mas precisava e fui. Ele nem me olhou. Estava sentado, escrevendo, quando entrei em sua sala. Sentado continuou. Não ergueu os olhos para mim. Perguntou-me o que é que eu tinha. Descrevi, da melhor maneira que pude. Eu tinha dores há semanas. Ele, sempre sem me olhar, disse que tomasse um analgésico e me dispensou. Senti-me um nada, um monte de m...".
Não é o caso de estender. Histórias assim são muitas trazidas ao conhecimento deste GCN por gente de todas as classes sociais, todos os credos, todas as raças. O desrespeito é democrático e, ao que parece, há quem se especialize em disseminar isso. As pessoas vêem nos meios de comunicação do Grupo Corrêa Neves, o jeito ideal de serem ouvidas. Contam. Não pedem para que condenemos ninguém. Pedem, isto sim, por um pouco de respeito.
Não vou, como disse, estender, mas confesso que, a exemplo dos que nos procuram, também estou assustado. Muito assustado.
Corri a ler de novo – há muitos anos fiz o mesmo, quando me procuraram um senhor e sua mulher, ela, carregando no abdômen um rolo de gaze "esquecido" lá pelo profissional que a havia operado – o juramento de Hipócrates, aquele que todo profissional da Medicina pronuncia quando se forma.
Pronuncia e se compromete a seguir à risca, já que a "matéria-prima" com que irá lidar, dali em diante, é a vida humana. Podia ser que, ao longos de décadas, o texto original tivesse sofrido modernizações...
Encontrei o texto completo no site do CREMESP – Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (disponível em http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Historia&esc=3). Li.
Era exatamente o mesmo texto original. Emocionei-me. Encontrei nas entrelinhas, de novo, a imagem, o jeito de ser e de agir de centenas de médicos que conheci, que conheço e de outros que não conheço, mas que, a exemplo daqueles, dignificam a profissão, vivendo-a em verdadeiro sacerdócio. Também percebi, na negativa do discurso, a faceta desses que, determinados pela busca da riqueza ou infernizados pela vocação errônea, desprezam, agridem, desrespeitam.
Resolvi publicar – quem sabe, não é? – a íntegra do verdadeiro código de ética que o Pai da Medicina produziu na época em que viveu (morreu em 377 A.C.). Ninguém pode redigir mensagem mais forte para chamar a atenção de profissionais que se distanciam da essência da missão quase divina que praticam. E, se não bastar, a tribuna dos meios de comunicação deste GCN continua à disposição daqueles que não têm voz suficiente forte para gritar.
JURAMENTO DE HIPÓCRATES
`Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Hígia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa (de) estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça`.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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