Em minha conceituação não se verifica surpresa alguma quando leio na Folha de São Paulo a defesa escultural assinada pelo eminente jurista Saulo Ramos em Tendências e debates da edição de domingo, 12 de julho. A sabença no lidar com as palavras, a malícia picante do bom advogado, o jeito treinado do escritor, entre outras coisas, a obra Código da Vida, ao certo, jamais terá dificuldade de convencimento de pessoas menos avisadas.
Meu apreço por Saulo Ramos se restringe ao reconhecimento de sua qualidade de jurista e seu caminhar de sucesso na vida profissional, seu assessoramento político desde Jânio Quadros até os dias da maior inflação vivida pelo Brasil – 84% ao mês – ao final do governo Sarney. O orgulho maior que nutro pelo jurista se prende no fato de sua origem no território da alta Mogiana, cidade de Brodówski, nome concebido em homenagem ao engenheiro polonês Aleksander. A mesma cidade ufana-se com alegria por outro filho ilustre: Cândido Portinari.
Não posso, no entanto, deixar de externar minha discordância com a afirmação textual de Saulo Ramos em defesa de José Sarney, governante a quem serviu como Procurador da República e Ministro da Justiça. Meu entendimento político, minha consciência democrática e meu apego à liberdade de expressão, obrigam-me a defender seu direito de fazê-lo, porém, no entanto, asseguram-me a liberdade para contestar.
Não há que se falar ou enaltecer a boa biografia do José ou mesmo do clã Sarney em pleno tiroteio de acusações, existente por largos anos como péssima, todavia, calada pelo amordaçamento do poder.
Da farta carga de acusações atingindo Sarney com alto grau de veracidade, não se pode ter dúvidas, mas, no mar de lama em que mergulhou o Senado, concordamos com Saulo, uma miríade de mazelas, tem outros culpados, o que não torna beatificado o maranhense. Defesa primeira do senador foi assumida por Lula, com vistas ao seu projeto 2010, incluindo instrução à bancada do PT para poupá-lo do afastamento. Se assim ordena o cacique, que cumpram os índios.
O histórico de Saulo Ramos registra em pronunciamento sobre o mensalão: "foi praticado com a permissão clara do governo. A história de Lula dizer que não sabe nada é uma agressão a inteligência dos brasileiros". E os atos praticados por Sarney, o que representam para nossa inteligência? Também são da lavra de Ramos, o jurista, o primor a seguir: "Sarney deveria ter parado no momento de glória. Mas ele continuou na política, e a política tem dessas coisas. A campanha que ele faz para o Senado, no Amapá, é no mato, nos mangues, regiões inóspitas. Ele toma cachaça em botequim e anda de canoa em rios e igarapés. Para quem está acostumado com isso, não custa nada entrar na canoa furada que é o governo Lula".
É oportuno inquirir a sabedoria do Doutor Saulo Ramos: a lei 7.474, de 1986, alterada pela lei 10.609, de 2002, consagrou os ex-presidentes com benefício e regalias vitalícias de dois carros de luxo e seus motoristas, quatro seguranças e dois assessores especiais por eles indicados, combustíveis e, outros regalos, importando o consumo de aproximadamente R$ 65 mil mensais dos recursos auferidos do patamar de baixo: o povo. Multiplique-se o valor por quatro – Sarney, Collor, Itamar e FHC – por doze meses e constate nosso dispêndio anual.
Menino de Brodówski. Os dois senadores em exercício parlamentar estão acumulando benefícios de ambas as funções?
Garcia Netto
Jornalista
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