Exatos 3.032 atestados de óbito foram registrados em Franca durante 18 meses, período compreendido entre 1º de janeiro do ano passado e fim de junho de 2009. Desse total, 11,84% foram firmados com causa indeterminada. Se a análise for referente apenas aos documentos constantes no cartório da Rua Voluntários da Franca, esse número é cerca de 28%. São 279 atestados por parada cardiorrespiratória e sem causa determinada em meio aos 989 emitidos.
Os dois médicos legistas do município, que são também legistas do Estado, atuando junto ao IML, são, disparados, os que mais assinaram documentos sem que a causa básica da morte fosse apontada. Mauro Tosi Maniglia, um dos dois profissionais, assinou 199 dos 279 atestados encontrados nos livros do cartório da “Estação”. Apenas cinco atestados com sua assinatura tinham causa definida. Todos os demais vinham com as expressões “causa indeterminada” e “parada cardiorrespiratória”. Adriano de Moura Denubila, o outro profissional, emitiu 75 atestados. Para se chegar a esse número, foi conferida folha por folha no livro de registros.
A explicação para tal discrepância pode ser sugerida pelas conversas mantidas com proprietários e gerentes de funerárias. No caminho que dá fim à vida de uma pessoa e inicia a angústia de muitas outras, os corpos deveriam ser examinados independente da condição econômica, idade ou posição social. Mas isso não acontece. Nas funerárias, os corpos recebem os primeiros cuidados pelas mãos dos funcionários das empresas.
Três empresários, de quatro consultados, afirmaram que os médicos legistas não colocam as mãos nos corpos. O que deveria ser uma necropsia, não passa de um documento feito a partir do olhômetro. “Se não houver marcas evidentes de violência, o médico não chega perto”, disse um proprietário, que pediu para não ter o nome divulgado.
Na opinião de um profissional ligado à área, somente aberto é que o corpo vai “falar”. “Sem abrir o cadáver, nunca será descoberto o que o matou. Você tem que ‘conversar’ com ele, tocar, examinar. De parada cardiorrespiratória todos nós morremos”.
Aproximadamente 85% dos atestados assinados pelo médico Mauro Tosi Maniglia apontavam que as pessoas não possuíam bens a declarar. Maniglia foi procurado durante três dias (16, 17 e 18).
Na quinta-feira, dia de seu plantão no IML, ele não foi encontrado. No dia seguinte, um atendente chamado Danilo disse que não poderia fornecer telefones particulares do médico. A reportagem ainda ligou no Pronto-socorro “Doutor Janjão” e Santa Casa, sem sucesso. Seu nome não consta da lista telefônica. Adriano Denubila também foi procurado. Ontem, seu filho informou que estava em um curso em Ribeirão Preto. Em seu celular as ligações não foram atendidas.
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