No canto da sala de TV vários porta-retratos são provas de uma família unida e festeira. Tanto que a última lembrança que as irmãs Flávia Maria de Assis Silva, 31, e Edna Aparecida de Assis Garcia, 39, têm do pai João Gabriel de Assis, 65, é dele cantando e festejando a chegada de 2009. Dois dias depois, Assis foi espancado a pauladas por um bando no Jardim Aeroporto III. O lavrador conhecido como “João Preto” morreu seis dias depois na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) da Santa Casa, deixando sete filhos, 12 netos e dois bisnetos.
Passado seis meses, a família está ainda mais unida, mas a alegria não é mais a mesma. Os filhos que moravam com o pai foram obrigados a mudar de casa e de bairro. Sua sanfona usada para os cantos na Folia de Reis, uma de suas paixões, virou objeto de decoração na casa de uma das filhas.
Para a família, o motivo da briga e a forma violenta da agressão provocam revolta e um sentimento de pena em relação aos integrantes do bando. O grupo foi identificado, mas seus membros ainda permanecem em liberdade. “Eles foram covardes, o nosso pai pediu desculpas e mesmo assim eles partiram para a pancadaria.
Quando vimos ele no Janjão, as costelas estavam quebradas e o rosto desfigurado”, disse Edna. João Gabriel foi espancado porque teria jogado - sem intenção - uma baqueta contra uma adolescente grávida. O objetivo era atingir sua namorada, 20 anos mais nova, com quem brigava dentro de um bar por conta de ciúmes. Os familiares discordavam do namoro. O lavrador era viúvo há cinco anos.
Sentadas lado a lado e dando conforto uma a outra, durante toda a entrevista, as irmãs disseram não ter ódio dos homens que consideram como assassinos do pai. A eles só desejam a prisão. “Queremos que a Justiça seja feita. Eles precisam pagar aqui pelo que fizeram. Gostaria de ver um a um para perguntar se eles sabem o que é perder um pai. Esse bando não tem amor e nem família”, disse Flávia, com lágrimas nos olhos. “A gente reza por eles porque nossos pais ensinaram que ter ódio faz mal”, disse a irmã.
Edna diz também que se sente inútil diante de tudo o que ocorreu com o pai e, principalmente, pelo fato dos acusados não estarem na cadeia. Mesmo tendo perdido a mãe vítima de câncer, para ela e a irmã a perda do pai foi ainda mais dolorosa. “A nossa mãe estava doente, a gente sabia das suas limitações. Já o nosso pai tinha uma saúde perfeita, não tomava remédios. Tinha trabalhado normalmente naquele sábado”. Além da mãe e do pai, a família também perdeu o irmão mais velho.
Atualmente quando os irmãos se reúnem para os almoços de domingo, todos tentam lembrar os momentos alegres que viveram ao lado do pai, mas a emoção fala mais alto quando ouvem a música Chalana. A canção foi última que o pai cantou antes de ir embora e dizer: “Minhas filhas que Deus abençoe”. Segundo Flávia e Edna, “parecia que ele estava se despedindo. Ele saiu e nunca mais o vimos com aquela alegria”.
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