Matando mosca com revólver


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Difícil contestar Rui Barbosa. A sabedoria desse baiano atravessou fronteiras. Seus ditos continuam atuais. Para ele, quem entra na vida pública passa a viver entre paredes de vidros. Só não explicou se transparentes ou opacos. Mas parece que no tempo dele havia somente o vidro simples, aquele que não oculta a imagem. Por isso, os governantes tinham mais cuidado... Mesmo na Casa Branca, sede do mais importante governo do mundo, tudo está ao alcance da visão externa. Nem que seja graças às câmeras. Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, matou uma mosca enquanto era entrevistado pelo canal CNBC. O presidente dos EUA foi rápido no gatilho, ou seja, no tapa. Uma persistente mosca voava ao redor de seu rosto. Por várias vezes, ele tentou espantá-la. Tarefa inócua. Não mais que de repente, entre um zumbido e outro, o inseto pousa na presidencial mão esquerda. A direita já estava à espera e não errou o alvo. Houve risos e palmas da equipe de reportagem. No entanto, o assassinato da mosca já provocou protestos de vários porta-vozes de organizações pró-animais. Um deles, Bruce Friedrich, criticou o ato do presidente e aproveitou para pregar a compaixão para com todos os seres vivos. Para o protetor da vida animal, as pessoas devem mostrar piedade em todas as circunstâncias vitais possíveis. Bonito! Muito bonito! Já imaginou se há 40 anos os ativistas pró-animais estivessem a postos? Por certo, o genial cineasta italiano Sergio Leoni teria tido muitas dificuldades para fazer o seu primeiro filme nos EUA. "Era Uma Vez no Oeste" apresenta cenas fortes de matança humana. Mas isso, não importa. O problema seria a forma como uma mosca foi sacrificada durante as filmagens. O início do filme mostra uma rústica estação de trem. Três homens mal-encarados chegam ao escritório ferroviário. Trancam o agente no banheiro e ficam esperando a locomotiva. Os pistoleiros tomam posição. Um vai para perto dos trilhos. Outro se posiciona embaixo da caixa d`água. O terceiro deles se senta ao lado do telégrafo. Até então o silêncio era total. A máquina telegráfica começa a funcionar. O ruído se transforma em trilha musical. Menos para o pistoleiro. Este arranca todos os papéis e fios. Na sequência, recosta-se na cadeira e puxa o chapéu sobre o rosto. Logo, o descanso tem interrupção. Uma mosca pousa em seu queixo. Ele a espanta. Ela zumbe no ar e volta a incomodá-lo. Dos 178 minutos originais do filme, a cena da mosca dura 11 minutos. Certa feita, numa entrevista, o diretor explicou o segredo para atrair o inseto. Passou mel em parte do rosto do ator durante a filmagem. Entre as idas e vindas, o zumbido ganha contornos de trilha musical. Isso enerva ainda mais o pistoleiro. À moda Obama (ou seria o contrário!) ele vai dando tapas, mas só acerta o ar. Até que, exasperado, o pistoleiro saca o revólver. O espectador fica esperando pelo tiroteio. Quando a mosca se assenta na parede, o facínora aponta a arma e a aproxima do inofensivo alvo. Não puxa o gatilho. Apenas prende o inseto no cano. Cuidadosamente, tapa o orifício com o dedo. Chacoalha bastante. Depois, joga a mosca morta no assoalho. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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