‘Temos um mundo de coisas para fazer’


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<b>EXPERIÊNCIA SEM ACOMODAÇÃO</b> - Dulce Xavier, diretora administriva do GCN, está no grupo há 24 anos. Acompanhou as mudanças na história do Grupo e se prepara para ajudar a desenvolver ainda
<b>EXPERIÊNCIA SEM ACOMODAÇÃO</b> - Dulce Xavier, diretora administriva do GCN, está no grupo há 24 anos. Acompanhou as mudanças na história do Grupo e se prepara para ajudar a desenvolver ainda
<p align="justify">A sala espaçosa, com armários bem projetados e móveis modernos nem de longe lembra o ambiente encontrado quando foi bater às portas do Comércio da Franca, na Rua Ouvidor Freire, há 24 anos, atrás de uma vaga de escriturária. Contratada pelas mãos do jornalista Corrêa Neves, a diretora administrativa do Grupo Corrêa Neves de Comunicação, Dulce Xavier, testemunhou todas as mudanças, das menores às mais significativas, pelas quais a empresa passou nestas mais de duas décadas. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">Vieram as primeiras reformas, a aquisição das primeiras máquinas eletrônicas, muito antes dos computadores começarem a equipar a Redação, para inveja e desespero de quem trabalhava nos outros setores. Ao lado do ex-chefe e amigo, que morreu em agosto de 2005, Dulce viu a empresa crescer, mas não a ponto de começar a se sufocar pela estrutura precária, espremida pelas condições físicas do prédio no Centro da Cidade. Ao lado de Corrêa Neves opinou naquilo que julgava ser necessário para alavancar a empresa; viu a internet chegar e embasbacar Corrêa Neves, que volta e meia lhe pedia para procurar ainda na incipiente rede os poemas de seus escritores e poetas preferidos. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">Dividindo a primeira fila dos funcionários mais antigos do Comércio da Franca com o editor Sidnei Ribeiro (29 anos completados exatamente no dia 30 de junho, aniversário do jornal), Dulce lembra com um saudosismo comedido de quando a sala de quatro por quatro metros era dividida com mais três pessoas, o controle dos assinantes era feito por fichas escritas à mão e não havia assinaturas fora do mês de janeiro por impossibilidade de gerenciar novas contas. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">“Se for para comparar as duas épocas eu diria que prefiro hoje. Mesmo com todos os desafios que temos todos os dias, acho que estamos mais preparados para lidar com eles, com mais estrutura, mais profissionais”, disse ela, que, enquanto tecia elogios ao diretor-executivo do GCN, Corrêa Neves Júnior, lembrava que o pai passava a maior parte do tempo sentado em uma cadeira simples, na mesa que dividia com Dulce. “Ele até tinha a própria sala, mas como tinha mania de não jogar nada fora, chegou um momento em que não dava nem para entrar mais”.</p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio da Franca - Qual foi a realidade que você encontrou quando chegou para o seu primeiro dia de trabalho?<br />Dulce Xavier -</strong> Em 1985, o prédio da Ouvidor Freire era muito diferente de quando o deixamos, em 2007. Era muito antigo. Tínhamos, praticamente, um corredor, que era o balcão de recepção e onde funcionava o caixa, uma salinha muito pequena para receber os anúncios de classificados. Outras quatro pessoas trabalhavam em uma sala em assuntos administrativos. O Corrêa Neves não tinha sala privativa e despachava no meio do escritório. Era uma estrutura escassa. Tinha cara de uma empresa, mas com uma estrutura muito ruim. Depois de 10 anos veio a primeira reforma, que adequou o escritório com lugar para telefonista e Redação. Mais cinco anos e nova reforma. Foi quando ganhamos um balcão de classificados maior, estacionamento, Redação e um depósito maior. Ficamos assim até a mudança de prédio. As condições eram um pouco precárias, só que nunca foi um grande problema, porque, mesmo assim, todo mundo trabalhava. O que ajudava era o relacionamento, sempre muito bom. Fomos nos tornando uma família. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Em agosto de 2005, o jornalista Corrêa Neves morre após um período de internação, e o filho, Corrêa Neves Júnior, assume o controle da empresa. Nessa transição, quais as mudanças de cultura e modo de trabalho mais perceptíveis que você pode destacar?<br />Dulce -</strong> Com o senhor Corrêa doente, a questão da cultura administrativa muda completamente. Ele levou o jornal a um patamar muito alto, mas ele estava cansado e doente e não queria investir em mais nada. Ele mesmo declarava estar sem vontade. Em 2005, quando se afastou para tratamento de saúde, e depois não voltou mais, sentimos a diferença. O Júnior já tinha muito contato com o jornal e nós já conhecíamos sua dinâmica de trabalho, com muito empreendedorismo, aliado a uma energia muito grande. Mesmo assim, as coisas ficaram um pouco complicadas. Com o Corrêa Neves (pai) se não desse para fazer hoje ele deixava para amanhã ou para a semana que vem. Quando o Júnior assumiu, a cultura mudou completamente, não apenas no tocante às exigências, mas na forma de querer fazer, de empreendedorismo, de alavancar, de mudar uma empresa que tinha um potencial grande, mas que estava parada. Havia todo um mercado para crescer na assinatura, na publicidade, mas estávamos parados. Ele colocou um gás muito grande nisso tudo e o resultado está aí hoje. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - É verdade que quando as assinaturas venciam se o assinante não fosse ao jornal, a empresa não fazia o menor esforço para renová-las? Também é fato que elas só podiam ser feitas em um determinado mês?<br />Dulce -</strong> É fato. Mas irresponsabilidade nunca houve. O que faltou foi investimento em tecnologia, estrutura e pessoas. Para se ter uma idéia, não tínhamos opção de assinatura fora do mês de janeiro. Todas venciam em dezembro. Assim, se o cliente assinasse o jornal no segundo semestre, ele receberia somente por alguns meses, até dezembro. Se ele não tivesse problema em fazer uma assinatura que fosse valer alguns meses, nós fazíamos. Caso contrário, não. O que acontecia, por incrível que pareça, era que muita gente queria assim mesmo. Era tão grande o amor e interesse pelo jornal, que muitos assinantes não se importavam em pagar por um ano e receber alguns meses. Ao chegar em dezembro havia um trabalho de renovação. Todo o “controle” era feito em máquina de escrever e cada assinante tinha uma ficha. Era assim. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Houve um período em que os classificados deram um salto nas publicações. Como isso se deu?<br />Dulce -</strong> Foi quando adquirimos um programa da Argentina que fazia a paginação eletrônica dos classificados. Isso em meados de 1996, 97. No começo eram os composers, máquinas de escrever eletrônicas. Depois vieram os composers mais sofisticados, com memória. E foi um avanço. Antes, com a estrutura muito pequena, acho que as pessoas até evitavam ir ao jornal. Era quando os clientes ditavam os classificados no balcão, para, depois, serem todos digitados. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como, em sua opinião, poderia estar o jornal atualmente, se o jornalista Corrêa Neves Júnior, por qualquer motivo, não tivesse despontado como sucessor do pai?<br />Dulce -</strong> Eu já pensei não na ausência do Júnior, mas na continuidade do senhor Corrêa. Talvez ainda estivéssemos lá no Centro com aquela estrutura arcaica. Acho que ainda estaríamos lá. O Corrêa Neves não era imediatista, mas no começo da história eu não tenho dúvida de que ele foi um grande empreendedor. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Tendo trabalhado com um e com o outro, no que os dois mais se assemelham e em quais características mais se distanciam?<br />Dulce -</strong> A distância maior é só a idade mesmo. A época do senhor Corrêa foi uma. Ele era extremamente centralizador e conservador; o filho é ousado. O Júnior tem uma facilidade maior e aceita opiniões. Os dois são igualmente empreendedores. O pai veio para Franca com mais de 40 anos, compra uma empresa e toca essa empresa, transformando o jornal e o colocando em um patamar muito alto ao longo de muitos anos. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Para muitos analistas de recursos humanos, 24 anos é um período longo demais para passar em um único emprego. O que prendeu você durante todo esse tempo?<br />Dulce -</strong> Se uma parte de especialistas pensa assim, outra pensa exatamente ao contrário. Além do mais, se um relacionamento profissional é duradouro é porque está havendo vantagens e resultados de ambas as partes. E no meu caso, foi sempre assim. O relacionamento interno foi fundamental. Desde o começo eu, Corrêa Neves e Sônia Machiavelli nos relacionamos muito bem. Vim para cá cedo, sem experiência, fui aprendendo, tomei gosto e fiquei. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você falou das qualidades de cada um, mas há um elemento feminino importante nessa história.<br />Dulce -</strong> Sim. A dona Sônia (Machiavelli, presidente do conselho administrativo do GCN) sempre esteve presente e foi uma companheira de todas as horas. Por motivos profissionais, eu me aproximei mais do senhor Corrêa, mas em momento algum poderia deixar de destacar o papel dela na empresa. Quando a Redação quase não tinha repórteres, era ela quem escrevia e redigia textos. Desde sempre cuidou de assuntos culturais e colocava muito de sua cultura e profissionalismo em tudo o que fazia. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - A transição, após tantos anos acostumada ao ritmo de uma pessoa, não deve ter sido fácil.<br />Dulce -</strong> Com a saída do Corrêa, em 2005, e a chegada de Júnior, eu senti uma dificuldade muito grande para lidar com a administração, com as tomadas de decisão. Foi quando eu me propus a um preparo e fui fazer meu curso de administração de empresas. É o que está me ajudando. Sem ele creio que seria impossível continuar. Administrar uma empresa é muito mais fácil quando se tem o conhecimento necessário. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como ficou a gestão da empresa após a compra da Rádio Difusora, uma empresa diferente em sua essência?<br />Dulce -</strong> A compra da rádio tumultuou um pouco, mas o pior é que não tínhamos estrutura para controlar nem mesmo o Comércio quanto mais uma nova empresa. Por isso estamos lutando para finalizar a profissionalização de todos os setores. Temos muito o que descobrir e fazer. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - De qual momento mais difícil você se recorda nesses anos todos?<br />Dulce -</strong> Vivemos muitos momentos difíceis, nenhum que tenha marcado por falta de solução ou algum prejuízo. Acho que o pior foi a morte do senhor Corrêa. Primeiro pela ausência dele. Depois, porque nos deparamos com situações delicadas. Foi um período complicado. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você acha que o leitor mais fiel percebe as transformações pelas quais o jornal passou nos últimos 20 anos?<br />Dulce -</strong> O leitor tem essa percepção e declara isso. Os mais antigos afirmam que acompanham a nossa história. E agora, com o Conselho de Leitores, isso fica muito mais evidente. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você dá palpite em todas as áreas da empresa ou de algumas você se afasta?<br />Dulce -</strong> Eu me relaciono bem até o limite do meu conhecimento sobre determinado assunto. Por conhecer bastante, normalmente fica mais fácil saber se uma coisa pode ou não dar certo. Não tenho medo de dar palpite. Além disso, a empresa nos dá total abertura para que nos manifestemos a respeito de qualquer assunto. A reunião de Grupo Estratégico, que acontece semanalmente, é o melhor exem plo disso. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você preferia aquela empresa pequena de 20 anos atrás, ainda que com toda a sua precariedade, ou a empresa hoje, bem estruturada, mas dez vezes maior?<br />Dulce -</strong> Eu prefiro hoje, porque temos estímulo em procurar o desenvolvimento e ferramentas para nos desenvolver. Temos um mundo de coisas para fazer, mas temos mais pessoas e os braços de que a gente precisava e não tinha naquela época. Por isso digo que estávamos parados no tempo. Desenvolvíamos as tarefas de maneira difícil e isso prejudicava a empresa porque perdíamos tempo com tarefas manuais. Por outro lado isso nos forçava a ser criativos. Hoje estamos com uma estrutura excelente. É outro momento. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como você imagina o Comércio da Franca e o Grupo Corrêa Neves para os próximos anos? <br />Dulce -</strong> Acho que será uma grande empresa. Há planos muito ousados para ela. A perspectiva é muito boa. O Júnior deve ir se preparando para isso, cercando-se de pessoas cada vez mais profissionais, para a ajuda de que ele certamente vai precisar. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Você vê essas moças que chegam para trabalhar ainda muito novas e se enxerga nelas? Dá conselhos?<br />Dulce -</strong> Eu converso bastante e dou conselhos a elas. Com certeza me vejo nelas e, por isso, digo para que elas sempre busquem aprimoramento e se comprometam com o trabalho. Não há receita melhor para se manter no mercado. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como você acha que as pessoas a veem aqui ?<br />Dulce -</strong> Algumas pessoas declaram e vou dizer o que eu ouço: “cara de brava, séria”. Outras dizem que me acham uma profissional razoável (risos). Mas como é que as pessoas me veem? Você é que pode falar!</p>

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