Fim do mundo...


| Tempo de leitura: 5 min
Nos debates que se estabelecem em feedback às notícias, os leitores, quase sempre, começam seus textos por <i><b>Fim do mundo!</i></b>
Nos debates que se estabelecem em feedback às notícias, os leitores, quase sempre, começam seus textos por <i><b>Fim do mundo!</i></b>
Esta expressão está cravada em boa quantidade de e-mails que processo diariamente, enviados pelo leitores deste Comércio como comentário a matérias que chocam. Chocam porque falam de fatos que contrariam o bom senso, qualquer capacidade de dar respostas coerentes a perguntas simples, a exemplo de "o que motiva alguém, minimamente dotado de inteligência, a praticar coisas tão inconcebíveis?". Falemos um pouco sobre loucura. A sociedade moderna considera louco quem age quebrando as regras que definem o conceito de normalidade. Em outras palavras, contrariar o status quo e pretender ser aceito pelo restante do grupo social, pode não dar certo. Se saíamos nus para um passeio, poderemos ser considerados loucos. Não seremos – ou, pelo menos, teremos uma chance de não sermos tachados assim – se resolvermos fazer o mesmo em uma aldeia indígena onde todos andam nus. O conceito tem ressalvas. Onde se reúnem os que pensam igual e definem as regras de seus próprios jogos sociais, não há loucura. Estou certo de que concorda comigo o presidente da Fundação Allan Kardec, Wanderley Cintra Ferreira, que reúne no hospital psiquiátrico que dirige quem quebra regras consideradas normais, seja lá pelo motivo que for. Lá, Wanderley e seus companheiros tentam produzir uma comunidade onde as regras sejam ideais para garantir um mínimo de organização e para que seus internos não se sintam ameaçados como se sentiam na sociedade dita "normal", cá de fora. A novela Caminho das Índias tem Wanderley representado na figura do Dr. Castanho, personagem de Stênio Garcia, administrador de hospital psiquiátrico. Seu personagem oferece dicas sobre esquizofrênicos e psicóticos sempre que os personagens Tarso (Bruno Gagliasso) e Yvone (Letícia Sabatella) vivem surto (caso dele) ou enganam sem remorso (caso dela). A gente aprende. E se põe a pensar. Cá em Franca, vivemos casos que muitos leitores consideram sinais do "fim do mundo": senhora é encontrada morta em casa, onde vivia com um filho que já havia estuprado a própria irmã. Tinha o rosto deformado por agressões, a calça arriada e a calcinha presa a uma das pernas. O rapaz, suspeitado pela Polícia porque a casa não tinha marcas de arrombamento, desapareceu. Vejamos: tratava-se de cidadão que já havia contrariado a “normalidade” e, ainda assim – amor de mãe a tudo perdoa e a lei, idem(!) – continuava por aí... Mais um: menina de 9 anos é estuprada em construção, por morador de seu próprio bairro. O fato, divulgado pelo Comércio, chamou a atenção de outras pessoas e essas se lembraram que era o mesmo "cara" que exibia as "partes" a quem tinha o dissabor de se encontrar com ele. Pensando por viés: era um "normal", convivendo com "anormais"? Como??? Outra: pai leva o filho de 15 anos à boate. Na madrugada, saem, recolhem um revólver que "tinham deixado em uma moita na frente" do estabelecimento e matam, a tiros, alguém que tinha esbarrado em um deles, dentro da casa noturna. O filho confessa: "fui eu". O pai, que fugiu com o menor depois do crime, desaparece. Perguntas? Meu “filhão" – ou meu "paizão" – não é o máximo? Nos debates que se estabelecem em feedback às notícias, os leitores, quase sempre, começam seus textos por "Fim do mundo!". Depois, emitem opiniões interessantes sobre a velhice do Código Penal, a inexistência de fiscalização rigorosa, a falta de segurança pública; outras, nem tanto, sobre a Lei do Talião ("olho por olho..."), façam com que os estupradores passem, sim, pelos presos do Guanabara e não os remetam para cadeias onde poderão ficar sós, etc. No contexto desta discussão sobre razão e emoção, loucura e inconsequência para com regras, teimo em pensar que já seja muito tarde para começar de novo. O ser humano que anda por aí, nestes tempos estranhos, dá valor nenhum à vida, acaba com a sua e com a do semelhante como se fosse nada, não é mais capaz de viver valores morais, éticos ou de cidadania. Regras de convivência se foram. Vale a "lei" do mais forte, aquele que está armado ou "muito doido". Ando com medo de aconselhar. Não saberia que tipo de conselho poderia ditar minha consciência sobre filhos que esvaziam os bens das casas dos pais para comprar droga e nem sobre traficantes que os conduziram a tal grau de decrepitude emocional e dependência física. Nem sobre o tipo de amor(?) que alguns pais dedicam a trastes que chamam de filhos, impedindo que sejam penalizados por não cumprirem regras. Dito isso, me calo. <b>OS ÚNICOS</b> Por muitos anos, no muro do Hospital Allan Kardec na Rua José Marques Garcia, esteve escrito "Os únicos sãos estão aqui", pichado por alguém que também contrariava leis. Durante bom tempo, ri, da tentativa de gracejo. Mais velho, compreendi diferente. Afaste quem não aprova regras daqueles que as praticam e teríamos, em tese, a sociedade quase perfeita. Quase, porque a alma do ser humano tem mistérios insondáveis, capazes de desnortear qualquer observador, seja do lado de lá ou de cá, de muros. <b>AINDA A NOVELA</b> Volto à novela. Zeca, aquele adolescente endiabrado vivido pelo ator Duda Nagle, cujos pais "moderninhos" César e Ilana (personagens de Antônio Calloni e Ana Beatriz Nogueira) aplaudem e incentivam todas as "cacas" do "filhão", não deve ser entendido como retrato caricato. Zecas estão sendo fabricados cada vez em escala maior, produtos de lares onde os pais preferem dar "um dinheiro" ao invés de conversar e resolver problemas como gente grande. De brincadeiras divertidas a revólveres de verdade, é só uma questão de tempo. <b>DEPRESSIVO?</b> Não sou especialista em Psicologia. Sou um observador. Depois que você atinge uma certa idade, preocupa-se em compreender melhor o mundo em que vive. Fiz, conforme já contei nesta coluna, 40 anos de jornalismo. Convivi, como observador profissional, épocas distintas, onde pessoas tinham valores diferentes. Isso, que a maioria chama de modernidade, pelo menos quanto às relações humanas, chamo de involução. Não estamos nos tornando melhores. Assistimos, isto sim, a uma degradação de costumes sem igual, capaz de lançar o gênero humano – uma, no máximo duas gerações à frente? –, a uma condição que muito poucos poderiam imaginar. E, o que me preocupa ainda mais, é saber que não há nada sendo feito para mudar isso, em quaisquer instâncias do poder ou do querer humano. Depressivo? Não. Consciente! <b>Luiz Neto</b> <i>Jornalista, editor de Opinião do Comércio</i> luizneto@comerciodafranca.com.br <B>VOTE NA NOSSA ENQUETE</B> <iframe src="http://www.viaki.com/home/enquete/preview.php?bid=9233" width="175" height="262" marginwidth="0" marginheight="0" frameborder="0" align="center"></iframe>

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários