Depois de dez minutos de ser avisada pela atendente do hotel que a reportagem do Comércio a aguardava na recepção, Carla Machado, 37, recebeu os jornalistas. Vestia uma calça jeans justa, blusa roxa, sandálias e brincos de argola brancos. Além de rímel preto, o batom rosa coloria sua boca. Escuro, o cabelo é comprido e quase chega à cintura. Quem vê Carla Machado com feições tão femininas não imagina o caminho que percorreu para se livrar do corpo de homem.
Carla, que mora em São Paulo, é uma das poucas pessoas que fizeram a cirurgia para mudança de sexo no Brasil. Ela está em Franca nesta semana para compartilhar sua história com o público LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) da cidade. Participará das comemorações de dez anos do Grupo Fênix, que trabalha com essas pessoas (leia no apoio).
Ela não gosta de falar que nasceu com o “sexo masculino”. Em nenhum momento citou a palavra pênis. Só se referiu ao órgão como “genital”. Ela diz que sempre se sentiu mulher. Durante anos, viveu excluída. Se vestia com camiseta e calça jeans e era difícil para as pessoas definirem se era homem ou mulher.
“Me fechei no meu mundo. Era uma pessoa andrógina, ou seja, eu não tinha nem um sexo nem outro. Mas fui me sentindo muito prejudicada com isso. Não podia ter um relacionamento amoroso e fui sentindo falta disso”. Aos 25 anos, resolveu assumir sua identidade. Pediu demissão da multinacional em que trabalhava e começou a tomar hormônios femininos para se transformar em mulher. “Não tinha como continuar trabalhando. O preconceito é grande”, disse ela, que também colocou próteses de silicone nos seios.
Até alguns anos atrás o pênis não a incomodava. Segundo ela, chegou a namorar e os homens aceitavam seu corpo. Mas a história começou a mudar. “Não tinha uma aversão à genitália masculina em mim. Mas depois de terminar um namoro de seis anos me envolvi com outras pessoas e o órgão começou a atrapalhar. Eles não aceitavam porque a partir do momento que eu não tinha uma vagina, não era uma mulher. Comecei a viver uma negação”. Carla também teve depressão. Diante do sofrimento, decidiu enfrentar a cirurgia para mudar de sexo.
Ficou seis anos na fila de espera pela cirurgia na rede pública. Cansou de esperar. Vendeu seu carro e pagou R$ 25 mil em janeiro de 2009 para se transformar em mulher. O processo é complexo. O pênis é transformado em vagina, com clitóris, parede do canal vaginal, pequenos e grandes lábios. Segundo Carla, os testículos foram extraídos.
A professora está satisfeita. “Me sinto muito, muito feliz. De repente eu acordei e vi que aquilo que me atravancava já não existia mais. Fiquei emocionada e chorei um mês seguido”. Para ela, ter nascido homem é algo do passado.
“Sou uma mulher que tinha uma diferença biológica. Nasci com o sexo biológico errado”, disse ela, que está solteira. Quando lhe perguntam do resultado, assegura que não há diferenças. “Sinto prazer da mesma forma. A vagina é construída de forma a ficar esteticamente perfeita e funcional. Minhas amigas e minha irmã viram e disseram que é perfeita, mais bonita que a delas”.
De família religiosa, Carla só revelou aos pais que era transexual - e não homossexual, como pensavam - aos 30 anos. Hoje, com a ideia mais amadurecida, encontra apoio dos parentes. A próxima luta da professora é alterar seu nome. O de batismo, ela se recusa a revelar, embora ainda o mantenha no RG e cartões de crédito.
Carla participará do encontro do Grupo Fênix hoje, às 18h30, no Centro de Prevenção, na Rua General Osório, 1417.
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