A leitura de classificados


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Sem dúvida nenhuma, a seção ou mesmo o caderno de classificados de um jornal representa um reflexo legítimo da sociedade. Seria mais ou menos como se colocasse a interação comercial das pessoas diante de um espelho. A leitura atenta dos classificados fornece ainda um aparato completo do meio social. Desejos e aspirações pessoais aparecem todos dentro de cada quadradinho mágico de oferta e de procura. Corrêa Neves ("Seu Corrêa", como era tratado por muita gente) aplicou a equação exata neste Comércio: maior volume de classificados por página = maior número de leitores por dia. Tudo começou lá na Rua Ouvidor Freire, quase esquina com a General Carneiro. Antes, no local, funcionava a antiga fábrica de Calçados Palermo. Quando a indústria se mudou para a Av. Champagnat, o Sesi montou o seu extinto supermercado (um dos pioneiros de Franca) em uma parte do imóvel. Depois que o supermercado se transferiu para a Av. Ismael Alonso, em frente à Casa do Diabético, é que o jornal chegou. Foi então aberta uma pequena porta, à direita de quem entrava no prédio. Transposto o portal, havia um balcão para recepção de anúncios. Tirando a sagrada saída para o café (e as conversas) na Praça Barão e uma rápida passagem pelo Correio, o resto do dia "Seu Corrêa" sempre estava ao lado do balcão, conferindo linha por linha dos classificados. Era ele, o dono do jornal, o primeiro a ler os anúncios ainda manuscritos. No outro dia, tinha também verdadeira paixão em conferir pessoalmente o shopping (na tradução exata significa comercial ou do comércio) impresso. Aos poucos, o Comércio foi se transformando em referência de negócios para a cidade. A população acostumou-se por completo com a eficiência dos classificados. Os anúncios aqui sempre deram e dão o retorno esperado. Outra máxima do "Seu Corrêa" era a de que quem anunciava nos classificados, com certeza, no outro dia leria também o Comércio. Daí o esforço diuturno para publicar notícias e matérias de interesse geral no jornal. Com pequenos anúncios, a pessoa física acaba por se aproximar da leitura. Todo anunciante se torna um leitor em potencial. Essa dupla dá vida à empresa jornalística. Em vista disso, este jornal valoriza tanto os classificados. Não bastassem as facilidades de captação de anúncios, como os três balcões próprios, a comodidade do classifone e agora as agências dos Correios, existe também toda uma política editorial para com os cadernos de classificados. Os anúncios seguem a ordem alfabética de oferta em todos os setores. Isso facilita a vida do leitor na procura. A edição de domingo circula com três cadernos de classificados. Empregos, Imóveis e Veículos formam um trio de retranca jornalística. Cada segmento traz uma matéria ilustrativa cheia de informações para o leitor. Em volume de anúncios, poucos jornais do Brasil conseguem a exuberância deste já quase centenário Comércio. Sim, o jornal chega hoje aos 94 anos, com muita lucidez e vigor redobrado. Além disso, dispõe de uma credibilidade ímpar. Faz também jus à sua denominação. O comércio de Franca passa por suas páginas. Em cidade nenhuma existe a leitura de classificados. Só aqui! Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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