Na grande sala de um amplo apartamento no centro da cidade, as lembranças estão espalhadas por todos os cantos, mas principalmente na mesa de centro e em uma estreita estante na parede que dá para a bem conservada cristaleira. Bonequinhas russas, um galo representativo de Portugal, um faraó, cristais e até um suave busto da Virgem Maria, de lava vulcânica petrificada. Vieram de diferentes lugares, uns conhecidos, outros insuspeitos, de muitos, muitos países. “Veja que trabalho maravilhoso; é de Budapeste, na Hungria”, diz Amélia, uma das moradoras, mostrando na mesa de jantar uma delicada toalha branca, de renda finíssima, sobre a qual repousava uma fruteira de prata. “Mas essa é coisa nossa, aqui do Brasil”.
Amélia, 94, Ruth, 87, e Ivete, 80, são irmãs, professoras aposentadas que há muito deixaram as salas de aula. As duas primeiras moram juntas. Amélia, sem filhos, nunca mais se casou desde que ficou viúva há 63 anos. Ivete manteve-se solteira. Ruth, viúva, três filhos, vários netos e dois bisnetos, mora no mesmo prédio, alguns andares abaixo das duas. Não desgruda da muleta que usa para se recuperar de um atropelamento sofrido no ano passado.
Três semanas atrás, Ivete e Amélia estavam pisando os cascalhos seculares do interior da Grécia, numa viagem que durou perto de 20 dias. De Atenas, a capital, percorreram algumas centenas de quilômetros até o norte do país, na fronteira com a Bulgária, roteiro conhecido por “Caminhos de São Paulo”. Apontando para o mapa, Ivete fala dos mares Egeu, Jônico e Mediterrâneo com conhecimento muito maior que o adquirido nos anos todos de magistério.
Essas três senhoras receberam a reportagem do Comércio para falar da paixão que as une e as move há mais de 50 anos. Elas viajam. E viajam tanto, que durante a conversa de mais de três horas foi difícil encontrar um lugar a que já não tenham ido, um país que não tenham conhecido.
Percorrer as estradas, cidades e vilarejos que serviram de berço para a civilização foi apenas mais uma etapa de uma história que começou na década de 1950. De lá para cá, foram nada menos que 70 países visitados, alguns várias vezes. Começaram com esse negócio de cruzar oceanos e visitar lugares tão distantes quanto desconhecidos, quando viajar para Moscou ainda era mais coisa de exilado político que de turista.
Viram a capital russa, China, Tailândia, Japão, Romênia, Bulgária, países nórdicos, África do Sul, Quênia, Nova Zelândia e Austrália, entre tantos outros. Uma volta ao mundo em busca de cultura. “Nem tanto por turismo, mas mais por conhecimento”, disse Ruth que, pelo mesmo motivo, quis varar o Brasil primeiro. Foi para Brasília, Belém, para o Piauí, Amazonas, Ceará. Gostou de Fortaleza e de Natal, onde ficou amiga do poeta e escritor Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).
A entrevista ocorreu da forma mais direta possível. A cada país recordado, a cada região visitada que iam se lembrando, as palavras logo tomavam forma de imagem. Como não imaginar o trabalho de um funcionário de um hotel espantando macacos com um pedaço de pau para que as hóspedes pudessem dormir com tranquilidade? Foi na África ou na Tailândia? Já não se lembram com firmeza de algumas passagens tamanha a quantidade de situações que já viveram.
Para conversar com essas mulheres, elegantes, educadas e discretas, foi preciso vencer certa renitência inicial. Não queriam, como resumiu Ivete, expor algo que não passa de uma experiência muito pessoal. “Não viajamos para os outros. Viajamos para nós”, disse ela. Prova do que disse está na bagagem da volta. Poucas lembranças, quase nenhuma fotografia. Guardam na memória os melhores momentos de cada desembarque. Ainda assim, a casa está repleta de suvenires. Na sala de visita, na de jantar, na cozinha onde se penduram miniaturas chilenas de panelinhas e baldes de cobre. “Precisa ver como é caro isso aqui”, diz Ivete ao ajeitar um carrinho de mão comprado em Santiago, deixando claro que não ficou muito satisfeita com a relação custo-benefício dos penduricalhos.
Amélia, Ruth e Ivete são de um tempo em que repetir de ano na escola soava execração pública. “Tinha inglês, francês e latim. O ginásio era completo”, fez questão de frisar Ruth, que deu aulas de português e inglês.
As três viajantes, mais a irmã Ivone, que não é adepta do gosto das outras, têm uma situação financeira tranquila, embora só esse aspecto nem de longe possa explicar o tamanho gosto por terras estrangeiras. O gosto vem da curiosidade de entender outras culturas e civilizações.
<B>ORIGEM</B>
Os pais, italianos, vieram para São José da Bela Vista trabalhar nas plantações de café. Prosperaram. Emílio, o pai, morreu em 1971. Não gostava de se afastar de casa, mas incentivava as filhas a conhecerem o mundo. A mãe, Ana Belucci, morreu em 1997, com exatos 104 anos e meio. Ao lado das filhas conheceu os cinco continentes. Passou os últimos 16 anos de vida doente, sem poder se locomover sozinha, tempo em que, para cuidar dela, Amélia, Ruth e Ivete se aquietaram completamente e deixaram os passaportes na gaveta.
Retornando às viagens, tentaram estabelecer o mesmo critério de antes da interrupção. Janeiro era reservado para o Brasil; julho, para o exterior. Voltaram à carga com a mesma despretensão de antes. “Nunca quisemos comparar o Brasil com nenhum outro lugar. São situações diferentes aqui e lá, cada um com suas características”, falou Ivete. “Apesar de ter viajado tanto, não troco o Brasil por nenhum outro lugar”, contrapôs Ruth.
E como viajaram! Ruth queria conhecer Sofia, capital da Bulgária. Para lá foi. Na Rússia comunista chocou-se com o acinzentado da paisagem e das pessoas. Mas gostou quando voltou após a queda do regime soviético. “Hoje está mais alegre, mais colorida, vibrante, com mulheres muito bonitas”.
Lembrou de quando esteve em Moscou, Leningrado (hoje São Petersburgo), Minsk e Smolensk e foi obrigada a deixar o passaporte com a polícia. No museu de Lênin, o corpo embalsamado do líder da revolução de 1917 “parecia um deus”, como ela disse, com filas para vê-lo separadas para os soviéticos e para os estrangeiros.
“A Rússia não tinha estrutura nenhuma para o turismo naquela época”, lembra ela, que nos deslocamentos entre uma cidade e outra aproveitava para especular o guia Sergei, que falava português, sobre as condições de vida no país, como o baixo salário do pai, coisa de alguns punhados de dólares, e a casa sem sala para visitas, porque não se recebia ninguém em casa naqueles tempos de extremo controle do Estado. Ivete chegou a acreditar que o moço iria ser morto ou se revoltar com a diferença entre um lugar e outro.
Em São Petersburgo, com seus 68 canais navegáveis, como destacou Amélia, impressionaram-se com o Hermitage (hermitagemuseum.org), o museu tido como o concorrente mais direto do Louvre, em Paris. Abre-se aqui um parêntese: o Hermitage tem perto de 1.100 salas e 117 escadarias. Através delas, estima-se, seriam necessários 11 anos para visitá-lo inteiro, caso o interessado gastasse um minuto para observar cada obra exposta.
<B>VOLTA AO MUNDO</B>
Experimentava citar países ou regiões que, percebia, iam ficando de fora da conversa e não é que elas já tinham passado também! Na África do Sul maravilharam-se com as bromélias que nasciam no campo e que ninguém ousava arrancar. No Quênia fizeram safári. Até aos massais, guerreiros nômades altíssimos, foram apresentadas. Em Marrocos, passaram por Fez; Marrakesh e Casablanca ficaram para trás. Lá, o espanto foi com as habitações muito simples, quando vistas de fora, e verdadeiros palácios, quando olhados por dentro.
Em Bucareste, na Romênia, admiraram o prédio do parlamento, todo em mármore, mas não se deram bem com a culinária. “Só se comia tomate. Era tomate o dia inteiro”, disse Ivete. Na Polônia, passaram pelo campo de concentração de Auschwitz, soturno, fantasma, que ficou com os restos deixados pelos alemães após a chegada dos russos no fim da Segunda Guerra.
Foi Ivete a porta-voz das três quando levadas a escolher o lugar a que voltariam mais vezes, como de fato voltaram, sem que com isso fosse eleito o preferido. “Quanto dizíamos que estávamos indo para a Turquia, nos perguntavam o que íamos fazer lá. Mas a Turquia é fantástica. Banhada por quatro mares, suas regiões têm características completamente diferentes umas das outras”, disse ela sobre o país com 96% de seu território na Ásia e os outros 4% na Europa.
Sobre a Índia, muito antes da novela, cada uma deu sua impressão. Viram cerimônias religiosas de cremação no rio Ganges. Para Ivete, “não é bom ver um ser humano sendo queimado, não”. Ruth disse que não chegou a ver vacas na rua em Nova Delhi, mas macacos em abundância. Amélia achou estranho o hábito de não matar nem mesmo um inseto: “Eles acham que pode ser a alma de alguém”.
No Taiti, destino que recém-casados endinheirados escolhem para passar a lua-de-mel, dormiram em cabanas com palmeiras em Bora-Bora e Morea que pareciam hotéis cinco estrelas. “Era um pouco atrasado quando fomos e um dos lugares mais caros que já conhecemos”, reclamou Ivete.
E assim continuaram. Impossível falar de cada lugar e, principalmente, anotar tantos detalhes. Ficaram no caminho Alexandria, no Egito, Tóquio, Nova Zelândia e Austrália, as muralhas da China. A China, afinal, é para quem? Ruth acha que mudou muito da primeira para a segunda vez que visitou Pequim e Xangai, ostentando hoje aqueles arranha-céus todos. Ivete discorda e diz que não mudou nada. “Aquilo é para turista ver. O povo pobre continua sofrendo do mesmo jeito”.
No meio de tantos aeroportos, fica a dúvida se tudo ainda é visto com olhar de descoberta. Parece que não. A Europa tornou-se comum. Alemanha, Suíça, Áustria e França já enjoaram. Sim, Ivete disse estar enjoada de Paris a ponto de não saber o que as pessoas ainda vão fazer lá, como também não sabe por que Nova Iorque atrai tanto. “Aquela cidade de pedra, cinza”, sentenciou sem um pingo de esnobismo.
Gostaram do Canadá: “Muito frio e muito bonito”, pontuou Ruth. Mas não se entusiasmaram com os Estados Unidos: “Não vejo graça. Na fronteira ainda tem as cataratas do Niágara. São bonitas, mas as nossas são muito mais”, disse Ivete novamente. Arrisquei perguntar quais são os planos para este ano e ouvi um “não sei” coletivo, pois nunca planejaram uma viagem sequer que fosse. Esperam pela chegada do material publicitário da agência de São Paulo e só aí riscam o roteiro.
Ruth quer ir para Dubai, nos Emirados Árabes. Amélia questiona a decisão: “O que eu vou fazer lá? Ver prédios em construção?”.
Vamos encerrando a conversa na cozinha depois de quatro horas, porque todas têm compromisso.
Ivete diz que ainda não conhece absolutamente nada. Amélia viaja, mas está sempre pensando na volta, em abrir a porta de casa. “Não há melhor lugar no mundo que nossa casa”.
Fiquei com inveja das três irmãs. Definitivamente, não é dinheiro, mas disposição e gosto pelo novo que as move mesmo na idade em que estão, mas que não fosse pelo recado dado pela pele, pelos cabelos e pelos movimentos mais lentos e cuidadosos, em nenhum momento demonstraram estar.
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