‘Saímos antes que o barco afundasse’


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<b>VENCIDOS PELA CONCORRÊNCIA</b> - Os irmãos Paulo e Geraldo Pedigoni posam para a foto na frente da loja Pedigoni Serv na Avenida Brasil. Empresários venderam os dois supermercados da rede para o Grupo Ricoy de São
<b>VENCIDOS PELA CONCORRÊNCIA</b> - Os irmãos Paulo e Geraldo Pedigoni posam para a foto na frente da loja Pedigoni Serv na Avenida Brasil. Empresários venderam os dois supermercados da rede para o Grupo Ricoy de São
<p align="justify">Foi na tarde da última segunda-feira, na loja da Avenida Brasil, na Vila Aparecida, que os irmãos Paulo Pedigoni, 60, e Geraldo Pedigoni, 51, receberam a reportagem do Comércio da Franca para falar sobre a venda dos supermercados da família que está há mais de 40 anos trabalhando no ramo. Sentados lado a lado numa sala pequena do escritório da loja, eles revelaram o porquê da venda das unidades para o Grupo Ricoy, de São Paulo. A mesma rede de supermercados comprou no mês passado 12 lojas do extinto Gimenes. A negociação aconteceu há 15 dias.</p><div align="justify"> </div><p align="justify">Com o olhar distante e a voz embargada, os Pedigoni disseram que a decisão da venda foi amadurecida ao longo dos últimos anos, analisaram a atual situação econômica da cidade e do País e tranquilizaram clientes, funcionários e fornecedores sobre o futuro das lojas. Para os empresários, a venda foi a melhor saída e evitou problemas futuros como os ocorridos com empresas calçadistas de renome da cidade. Eles também aproveitaram para agradecer a todos que acompanharam o crescimento da rede francana nas últimas quatro décadas.<br />Sem entrar em detalhes sobre o que farão quando deixarem a administração das lojas, o que deve ocorrer até a segunda quinzena de julho, os irmãos demonstraram o desejo de abrir um novo negócio e prosperar. </p><div align="justify"> </div><p align="justify">Paulo e Geraldo responderam a todas as perguntas e disseram, por mais de uma vez, que Franca não está estruturada para comportar um alto número de supermercados pequenos, médios e grandes. “Os médios desaparecerão”, sentenciaram.</p><div align="justify"> </div><p align="justify">Durante boa parte da entrevista, se mostraram preocupados com os clientes mais fiéis, mas ao mesmo tempo disseram ter esperança de que os novos administradores dos supermercados Pedigoni não decepcionarão) e poderão oferecer até preços menores. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio da Franca - Como nasceram os Supermercados Pedigoni?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo Pedigoni -</strong> Começamos em meados de 1964, no bairro da Estação, na Rua Carlos de Vilhena, ao lado dos Laticínios Jussara. Na época, funcionávamos como um armazém. Durante uns dez anos, foi assim. Depois fomos crescendo e montando as lojas. O armazém era administrado pela família. Éramos seis irmãos e meu pai, todos vindos da agricultura. Depois montamos a primeira loja e, mais tarde, a unidade da Avenida Brasil. Com o tempo, os outros irmãos se desinteressaram e foram trabalhar em outros ramos. Eu e o Geraldo assumimos as duas lojas.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo Pedigoni -</strong> Só nesta loja da Avenida Brasil são 36 anos de trabalho e dedicação. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Depois de tantos anos neste negócio, vocês resolveram vender os dois supermercados. Por quê?<br />Paulo -</strong> A gente resolveu vender por causa da concorrência que está muito acirrada em Franca. É uma cidade relativamente pequena, com salários baixos... (silêncio)<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Como a concorrência aumentou muito, começamos a enfrentar vários problemas de ordem financeira e um pouco da parte fiscal. Agora nós resolvemos tomar essa atitude. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Quando vocês começaram a pensar na ideia de se desfazer dos negócios?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> Começamos a pensar há quatro anos. Houve um racha muito grande com a chegada das grandes redes varejistas. Elas dividiram a clientela. Franca ainda não comporta isso tudo. Talvez daqui a dez anos, quando tivermos algo em torno de 450 mil habitantes, a cidade consiga lidar com tanta concorrência. Como falta muito tempo, a gente não quis arriscar. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como a chegada das multinacionais varejistas em Franca afetou o negócio de vocês?<br />Paulo -</strong> As nossas vendas não caíram, mas deixaram de apresentar o aumento que a gente esperava.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> A gente tinha a expectativa de ter um crescimento de 50% nas vendas nas duas lojas. Investimos nisso, preparamos as lojas, mas as vendas não mostraram mudanças, se mantiveram. Gastamos R$ 5 milhões e não tivemos o retorno esperado. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Ao ter que dividir a clientela e não conseguir o aumento de vendas, vocês acumularam prejuízos?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> Nós perdemos nesses últimos quatro anos em torno de R$ 2 milhões. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Além do aumento da concorrência, a crise instaurada em meados de outubro do ano passado também afetou a Rede Pedigoni?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> O nosso maior problema foi com o cheque pré-datado, que teve muita devolução. Quando há desemprego na indústria, a gente também sofre, embora ninguém perceba. Os sapateiros são os nossos clientes.<br /><strong>Geraldo -</strong> Todos os segmentos da cidade sofrem dificuldades, não só o sapato. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Vocês acham que, se os grandes supermercados não tivessem sido abertos, a Rede Pedigoni ainda estaria no mercado?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Estaria. Estamos saindo para evitar problemas mais graves.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> Queremos sair pela porta da frente. Não queremos que aconteça com a gente o que aconteceu com o Samello, com a Agabê (duas tradicionais indústrias calçadistas que ingressaram com pedidos de recuperação judicial e declararam milhões em dívidas). A gente precisa saber a hora de parar, igual a jogador de bola. Antes da barca afundar, nós estamos pulando.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Se continuássemos mais um tempo, a situação poderia ficar pior. Acho que aguentaríamos só mais um ano. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Com mais de 40 anos de funcionamento e após ter tomado a decisão da venda, como vocês avaliam a situação dos varejistas de porte médio em Franca?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> A gente não pode falar pelos outros, mas penso que vai ficar aquele pequenininho, de autosserviço, onde trabalham o filho, o marido e a mulher. Vamos ter os grandes supermercados e os mercados de bairro. Os de médio porte não vão existir mais. Nos Estados Unidos, é assim. Só a Itália tem uma lei específica que segura essas redes. No Brasil, os médios vão desaparecer.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> O poder de compra deles (grandes redes varejistas) é muito grande. Os juros deles são muito irrisórios. Nós pagamos 3% de juros ao mês e eles pagam 3% ao ano. A diferença é muito grande. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como foi a negociação com o Grupo Ricoy para a venda dos dois supermercados?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Foi uma negociação tranquila. A compra  será paga de forma parcelada e o valor vai depender do que eles levantarem em nossos estoques no último dia. Não compraram os pontos comerciais, apenas os estoques. O que recebermos será suficiente para pagar todo mundo e não ficar nada para trás. Estamos torcendo para isso.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> Não existem valores já acertados. Tudo será levantado em balancetes. Eles (Grupo Ricoy) vão ter um saldo de estoque e a loja abastecida. O aluguel - os prédios continuarão como propriedade da família Pedigoni - será em cima do faturamento. Se vender paga, se não vender não paga. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - A Rede Pedigoni chegou a consultar outros grupos para realizar a venda?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Não. Na verdade, não procuramos ninguém. Nós fomos procurados pelo Grupo Ricoy diretamente. Não houve intermediários. O contato aconteceu há cerca de 30 dias. Após duas reuniões, uma aqui em Franca e outra em São Paulo, nós concretizamos a venda. Faz uns 15 dias. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Vocês trabalham em família. Com a venda, qual vai ser o destino dos Pedigoni?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> A gente pretende trabalhar com outro ramo, mas não temos nada decidido. Até porque a razão social Pedigoni continua. Só estamos saindo do segmento de supermercados. Além disso, também temos uma empresa de beneficiamento de arroz. A respeito dos nossos familiares, dos 15 funcionários da família Pedigoni que trabalham nas lojas, cinco sairão e os demais vão continuar trabalhando nos supermercados.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Eles (o Grupo Ricoy) podem usar a bandeira “Pedigoni Serv” por cinco anos, depois a gente decide com quem fica. A princípio, os supermercados não vão mudar. Quanto a gente, sempre trabalhamos e vamos continuar trabalhando, querendo dar mais empregos e continuidade na nossa vida. Não vamos ficar parados. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Até quando os Pedigoni ficam no comando dos supermercados?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Vamos ficar até o dia 19 de julho. Vamos acertar com todos os funcionários e liquidar com os fornecedores. Depois o Ricoy assume no dia 20 e recontrata 100% do quadro. Temos 170 funcionários. Os que quiserem permanecer com a nova rede terão essa oportunidade. Enquanto isso, as lojas permanecem abertas, sem prejuízo para os clientes.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> A recontratação dos funcionários era uma preocupação nossa. Quando o Ricoy aceitou ficar com o mesmo quadro, nós fechamos o negócio. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Houve também uma preocupação com os fornecedores regionais?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> Os nossos fornecedores regionais serão todos mantidos. Já estamos em contato para que eles continuem com a nova rede. Acredito que aqui na região a gente deve ter em torno de 150 fornecedores. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - E os clientes? Quantos são cadastrados e como eles receberam a notícia da venda?</strong></p><p align="justify"><strong><br />Geraldo -</strong> Nós temos hoje algo em torno de dez mil clientes cadastrados.<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Paulo -</strong> Vamos passá-los integralmente para a outra rede e eles continuarão com atendimento preferencial. Porque a preocupação dos nossos clientes agora é como vai ser o futuro. Eles chegavam aqui com o cheque do dia 20 e pediam mais cinco dias. Era um atendimento mais próximo. Como todo o nosso pessoal vai continuar trabalhando, esperamos que continue tudo igual. É bom para evitar uma fuga de clientes porque não interessa para a gente também. Vamos continuar parceiros. Somos tão próximos que teve até cliente que chorou. Uma senhora chorou ao saber que vamos sair. Mas quero tranquilizar a todos. Tudo continuará igual e talvez até melhor por causa do poder deles (Grupo Ricoy).<br /><strong></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> O poder de compra deles é bem maior, então os preços serão mais agressivos. É uma rede grande que terá agora quase 80 lojas. Eles pretendem abrir 20 lojas na região. Até perguntaram se a gente não tinha mais terrenos para construir para eles. </p><div align="justify"> </div><p align="justify"><strong>Comércio - Como será acordar no dia 20 e não ir mais para o supermercado depois de 45 anos?<br /></strong></p><p align="justify"><strong>Geraldo -</strong> É um costume que nós fomos adquirindo e teremos agora que desfazer aos poucos. É uma mudança muito grande. Somente nessa loja são 36 anos. Estamos aqui desde o primeiro dia. Nossos filhos nasceram e cresceram aqui. Vai mudar bastante coisa. A gente tinha planos de crescer. A gente não levanta para ficar na mesma, a gente sempre procura melhorar, mas, infelizmente, chegamos a um ponto que não dava mais e nós resolvemos parar.</p>

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