Choro, sim: alguma coisa boa hei de ter feito para eles - pelo menos - lamentarem a perda. Risos: o espólio de qualquer um perde a privacidade e olha lá todo mundo desvendando segredos, descobrindo manias, idiossincrasias, peculiaridades do, no meu caso, da falecida. E raiva. Sim eles vão chiar porque levei muito a sério, durante a vida toda, um ensinamento de vovó: quem guarda o que não presta, tem o que precisa.
Volta e meia faço minhas arrumações. Para finalizar o semestre decidi organizar minha biblioteca e seus tesouros. Retirei todos os livros das estantes, fui colocando sem ordem dentro daquelas caixas de plástico de supermercado, sabe? Chamei o Tonhão, ele desmontou as prateleiras, pedi para trocar o papel de parede.
Enquanto os profissionais executam suas tarefas, eu realizo a minha. Estou organizando os livros e a tranqueira. Uma bibliotecária ficaria de cabelo em pé, mas aqui quem manda sou eu e eu gosto de separar de forma a achar o que quero em pouco tempo. Mesmo em tempos rápidos de Internet não dispenso o cheiro dos livros e o prazer de pesquisar usando memória e a ponta do indicador como se fosse um objeto perscrutador.
No meio dos guardados, já achei fotografias do tempo em que a Praça N. Sra. da Conceição tinha coqueiros plantados em frente à Casa Barbosa, mas a Viação Cometa ainda não fazia Franca-São Paulo. Achei outra do prefeito Sidnei Franco da Rocha, de bigodão, entrevistando um figurão durante a realização da Francal aqui na cidade. Achei uma foto do meu avô Nicola menino sentado no chão do páteo do Colégio Champagnat: 1915, pode? Abri um envelope lacrado e lá estava minha foto com cintura de pilão, cabelos pelo meio das costas.
Por essa época tomava batida de leite de coco no gargalo e tinha a cabeça cheia de minhocas e problemas. Livros preciosos: lidos, relidos, virgens, nenhum pela metade que morro, mas não interrompo leitura no meio. Atualmente ando voltada para literatura infantil. Assim, seguindo o atual critério de interesse, redescubro três obras-primas. O Frio Pode ser Quente, de Jandira Mansur: "As coisas têm muitos jeitos de ser, depende do jeito que a gente as vê". Assim ela começa o texto sobre a relatividade que permeia (e embasa) nossas vidas.
Achei O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha, a história da majestade chatinha que inventava leis malucas e mandava todo mundo calar a boca, até que todo mundo esqueceu como é que se falava. O terceiro, A Roupa Nova do Rei, de Hans Christian Andersen, que sempre me causou particular emoção. Claro, tem outros, mais densos, desses cujas citações dignificam o discurso ou valorizam o currículo de qualquer pessoa.
Quando visitei a Dinamarca procurei resgatar a história de Hans Christian Andersen conhecida do cinema, da matinê das duas, no Cine São Luís. Achei a casa dele, vi a estátua da bailarina de sapatinhos vermelhos, tenho foto ao lado da Sereiazinha, essas coisas de turista, porém minha curiosidade já estava voltada para a história do rei vaidoso e exigente, insatisfeito e insaciável, que queira usar uma roupa nova a cada desfile. Aí lhe fizeram uma que não existia e ele saiu pelado, crente que trajava especialíssimo traje confeccionado com tecido da novela das oito. Enganou todo mundo, que tem sempre alguém pra bajular o rei.
Durante o desfile na rua, um meninozinho se escangalhou de rir e apontou para ele gritando: "O rei está nu! O rei está nu!". Aí todo mundo saiu do torpor e viu que o rei estava mesmo peladaço. Fiquei uma tarde inteira sentada na escada mexendo nos guardados e o pensamento - que parece uma coisa à toa me levando pra lá e pra cá. Vai daí que reli a história todinha. Ao me levantar, bati os olhos num jornal recente que trouxe a foto do presidente Lula fantasiado com a roupa azul do Casaquistão. Imediatamente pensei que seria muito melhor que o rei do Brasil estivesse nu. Porém, concluí, quer indumentária mais apropriada para defender publicamente o Sarney?
Escândalos
O orçamento do Senado é superior ao de cidades como Curitiba e Manaus. O número de funcionários em cargos de comissão e de outros, terceirizados, é absurdamente grande. Salários e benefícios concedidos a funcionários estáveis ou não são rotina ali dentro. Tem motorista ganhando no Senado mais de R$ 7 mil mensais. Há funcionários fantasmas que ganham sem trabalhar e são muitos os funcionários a serviço dos senadores em seus respectivos Estados.
Sabedoria
"Ora, se houve alguém no Senado que cometeu um erro de contratar uma pessoa indevidamente, essa pessoa é dispensada, pede-se desculpas à sociedade, muda as normas de contratação e está resolvido. O que não pode é estabelecer processo de paralisia da atuação do Legislativo por conta de uma coisa que acontece há 40, 50 anos”. Vestido de cazaquistanês, andando de avião pra lá e pra cá, Lula assim orienta.
Piscinão
No final da Rua Jerônimo Rodrigues Pinto a Prefeitura está construindo o que a vizinhança já batizou de Piscinão. Impressionante a movimentação de terra, a velocidade das transformações do espaço que, há pouco tempo, era apenas terreno baldio cheio de sucatas de construções. Quem gosta de engenharia e entende de obras bem-feitas deve visitar o local rapidinho, antes que os operários terminem a obra.
Livros e Filmes
É bom ler o livro e ver o filme. Há mais de cem, basta procurar no Google "livros que viraram filmes". Destaques para Reparação, de Ian McEwan, que virou Desejo e Reparação nas telas. Ou O Buraco da Agulha, de Ken Follet, que conservou o título e ganhou o magistral Donald Sutherland no papel do espião. Ainda tem Ligações Perigosas, obra de Choderlos Laclos, já com duas versões nas telas, uma com John Malcovich e outra com Colin Firth no papel do famigerado Visconde Sébastien de Valmont. Curiosamente em ambas, mantém-se o título do livro. Sorry, esqueci: Franca não tem mais livrarias.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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