O perigo é dominado


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<B>IDEIA CENTRAL</B> - Cristo foi capaz de morrer por todos. O seu gesto, ensina Paulo, deve impelir a todos para segui-lo pelo mesmo caminho da generosidade total em favor dos irmãos.
<B>IDEIA CENTRAL</B> - Cristo foi capaz de morrer por todos. O seu gesto, ensina Paulo, deve impelir a todos para segui-lo pelo mesmo caminho da generosidade total em favor dos irmãos.
A liturgia da Igreja nos faz viver o décimo segundo domingo do tempo comum com as leituras colhidas dos seguintes textos bíblicos: Jó 38; II Coríntios 5 e o Evangelho segundo Marcos 4. No Livro de Jó encontramos dois memoráveis e sublimes capítulos nos quais Deus descreve a sua criação. Neles ele conta como venceu o mar: colocou-o no seu lugar, fixou seus limites, fechou as portas de modo que não pudesse mais sair para provocar desordem, privou-o de toda a sua força negativa, imobilizou-o, cobrindo-o de nuvens como se fossem uma roupagem, envolveu-o como se fosse uma criança, com faixas de névoas espessas, e em seguida lhe ordenou: "Chegarás até aqui e não irás mais longe. Aqui se deterá o orgulho das tuas ondas". Transmitem uma ideia do total e absoluto domínio de Deus sobre tudo aquilo que possa ameaçar a ordem da criação e a vida dos homens. Se analisarmos tudo o que acontece no mundo, na nossa pátria, na nossa família, temos, às vezes, a impressão de estarmos diante de uma grande desordem, de um caos assustador. Os poderosos, os espertos, os malvados dominam; por todos os lados praticam-se injustiças, acontecem desgraças, as doenças se alastram, pessoas inocentes são vítimas de sofrimentos. Parece que "as ondas impetuosas do mar" estão novamente invadindo a terra e que o caos que existia antes da criação está de volta. Diante dessa realidade nós também, como Jó, sentimos a necessidade de dirigir nossas queixas a Deus e de pedir-lhe explicações sobre o modo como ele governa o mundo. Ele não responde às nossas perguntas. Em vez de explicar e justificar o seu modo de agir, ele simplesmente nos pede confiança plena no seu amor. Quer que, não obstante as aparências contrárias, acreditemos que ele está conduzindo os acontecimentos da história e da vida de todos os homens. A ideia central contida na segunda leitura, capítulo 5 de Paulo aos Coríntios, é que Cristo foi capaz de morrer por todos. O seu gesto, ensina Paulo, deve impelir a todos para segui-lo pelo mesmo caminho da generosidade total em favor dos irmãos. Muito linda também é a última frase: "Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. Passou o que era velho, eis que tudo se fez novo". É um apelo ao otimismo, a não olharmos para trás, para os nossos pecados, para os nossos fracassos, para o nosso passado. O trecho do evangelho de hoje foi escrito por São Marcos. Narra a tempestade acalmada por Jesus; pertence, portanto, à categoria de milagres. Ao atravessar o mar na direção da região dos gerasenos, o território dos pagãos, o barco enfrenta uma terrível tempestade. Os perigos existem, é noite escura e Jesus está dormindo tranquilamente. Ir até os gerasenos, os pagãos, quer dizer os discípulos de Jesus devem ir atrás de todos para que façam parte da sua barca que simboliza a vida das comunidades cristãs. O sono de Jesus tem um outro sentido simbólico: a sua morte. Nós também temos, às vezes, a sensação de estar sendo tragados pelos acontecimentos e pelas dificuldades. Há momentos durante os quais nos sentimos sós e incapazes de reagir diante da maldade e dos dramas da vida. Isto acontece, por exemplo, quando surgem graves problemas na família (infidelidade do marido e da mulher, mau comportamento dos filhos, doenças, dificuldades econômicas...) ou então quando nos desentendemos com os irmãos da comunidade cristã, quando se espalham maledicências, calúnias, quando surgem incompreensões. Nessas horas nos perguntamos: onde está Deus? Onde está Cristo? Por que não intervém? Por que não mostra o seu poder? Por que não faz justiça? Parece, em verdade, que esteja dormindo. Sentimos que está longe ou mesmo completamente ausente. O seu silêncio nos desconcerta e nos incute medo. O que fazer então? O evangelho nos ensina que, acima de tudo, não devemos nos surpreender com essas coisas. Fazem parte da vida e cedo ou tarde todos passam por alguma experiência dramática. Lembra-nos ainda que não devemos fazer como os Apóstolos, pois estes se esqueceram que o Mestre estava com eles. Ao encerrar a narrativa, Marcos observa que os discípulos ficaram penetrados de grande temor e se perguntavam um ao outro: "quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?". Eles têm bons motivos para se dirigirem essa pergunta, porque aprenderam da Bíblia que só Deus tem o poder de dominar as ondas do mar. Se Jesus mostra que tem esta força, esta autoridade divina, quer dizer que ele é o Senhor. Eis o motivo pelo qual, como Moisés e todos os que um dia se encontraram com Javé , os discípulos são penetrados pelo "temor". Não se trata do medo, do susto, que toma posse de quem se defronta com uma ameaça, com um perigo, mas do assombro de quem identificou em Jesus o Senhor, dotado do poder de dominar todas as potências que ameaçam a vida. Esse trecho é, portanto, acima de tudo, profissão de fé de Marcos na divindade de Cristo.

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