Flanelinhas


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Flanelinhas são aqueles seres que surgem sabe-se lá de onde no exato momento em que você para seu carro em qualquer lugar da cidade. O nome deriva da flanelinha que carregavam no ombro, quando a "categoria surgiu", destinada a "dar uma limpadinha no vidro do carro do doutor". Fenômeno social genuinamente brasileiro – aqui se admite que cidadãos comuns usem o espaço público sem autorização legal, para ganhar "algum" com base em uma pseudo-profissão – os flanelinhas também grassam por todos os cantos francanos. Cheiram eventos e amanhecem nos locais, para "botar respeito" em "concorrentes". Exercitam poder sem limites. Se contestados, ou cobrados, xingam, esperneiam, pressionam seus "clientes". E ai de quem ousar contestá-los. Tenho ouvido muitos que amargaram prejuízos patrimoniais. E muitas – senhoras, senhoritas – que têm ouvido, além de impropérios, chulezas que fariam corar Adelaide Carraro, Henry Miller ou Carlos Zéfiro, acostumados às estranhezas sutis da alma humana. Um dos casos, vi pessoalmente e conto. A moça parou o carro e foi abordada pelo "guardador" – sinônimo para flanelinha –, ao lado de uma empresa considerada "ponto de referência da cidade": "cobro R$ 10 para olhar os carros". A "cliente" não pestanejou: "o que é isso?!". E ele: "se não quiser que eu olhe, não posso garantir que estará inteiro quando `ocê` voltar". Ela: "se houver qualquer problema com meu carro garanto que faço uma denúncia contra o senhor". E ele: "ocê que sabe". À porta do comércio, o "segurança" contratado também seguia o diálogo. A moça do carro, ressabiada, entrou. O segurança cumprimentou e ofereceu seu "apoio": "esses caras são assim mesmo". A consumidora arriscou meio olho à balconista e fez seu pedido. O outro olho estava na rua. Não dá para arriscar, não é? Segurança e flanelinha continuam "trabalhando" lá... Mais outro caso. Esse, ouvi da própria vítima. "Parei o carro e o homem, mal trajado, cheirando a álcool, se aproximou: `vai parar aqui? Tem que pagar`. Fiquei apavorada. Disse-lhe que lhe daria uma gorjeta, se olhasse de verdade o veículo. `Gorjeta? Não estou pedindo esmola. Estou trabalhando, a senhora não está vendo?". Ao lado, uma viatura da Polícia Militar, parada em fila dupla, quase no meio da rua, como diria o matuto, "nem fedia". A motorista resolveu "não encarar". Voltou ao carro, entrou e deu partida. O "trabalhador" reagiu: chutou um suporte de sacos de lixo que estava em sua frente e "brindou" a cliente perdida com palavrões e resmungos. A viatura policial, tranquilamente, tomou seu rumo, prosseguindo em sua "ronda". Não são os casos, centenas, milhares de diuturnos casos – você viveu ou presenciou um, não foi? – que quero continuar retratando aqui; muitos menos os problemas sociais que remetem tantos às ruas, em busca desses míseros dinheiros conquistados a fórceps de cidadãos assustados, que pagam para não serem apenados pela miséria desesperada que este País produz. Quero falar, isto sim, da institucionalização desta República de Miseráveis, que toma forma sob as barbas do poder, um em cada esquina, incentivando a outros em mais esquinas. Quero falar, isto sim, da impotência que cidadãos de bem revelam na defesa de suas próprias vidas e de seus próprias bens. Quero falar dos ouvidos moucos com que aqueles que podem fazer diferença ouvem problemas e dizem que "não é problema deles". Quero falar, isto sim, dos remédios diferentes para casos iguais de uso desadequado do espaço público. Dia destes, publiquei na seção de Cartas deste Comércio, interessante debate sobre o caso dos bolotas, das mesas nas calçadas e até da presença dos flanelinhas nas ruas. Um dos leitores, Ademir da Rosa, escreveu: "(Autoridades) dizem que não podem fazer nada a não ser (que seja) desrespeitada a lei. Afirmo que leis estão sendo desrespeitadas. Quais? As previstas no Código de Postura do Município quanto a questões de uso do espaço público. Assim como não podem ser usadas as calçadas por donos de bares e restaurantes com suas mesas e cadeiras, o leito da rua também não pode ser usado para exploração econômica pois trata-se de espaço que é coletivo e transmite a compreensão de que não pode haver cobrança de qualquer tipo para nele ficar, a não ser que exista lei em contrário, como a que dá legalidade à área azul. (Também não se pode) entender que os flanelinhas não desrespeitam a lei porque não cobram e sim, pedem contribuição. Ainda assim, temos clara situação de uso do espaço público... para mendicância". Está errado, o Ademir? Penso que não. Se não houver base "legal" para o pensamento deste leitor, penso que seu grito deva ser ouvido para que a situação não permaneça "imoral". Não dá mais para fingir que o assunto é de somenos importância. Não é. Dia destes, o confronto entre flanelinhas e "clientes" pode se tornar tragédia. Aí, a culpa será de quem? EXTORSÃO DIRETA Da Objetiva "O mundo sem lei dos flanelinhas" deste Comércio, em 3 de abril: "O cidadão está à mercê das ameaças, até físicas, quando responde a um destes `trabalhadores` que não precisa que seu carro seja vigiado. (...) A gorjeta virou obrigação. (...) A cobrança habitual para vigiar veículos praticada por `flanelinhas` deveria ser enquadrada como crime de extorsão direta, cuja pena prevista no Código Penal é detenção de um a três anos e multa. (...) O constrangimento é imenso, atenta contra a liberdade das pessoas de irem e virem e até de usarem locais públicos para estacionar". POR ÚLTIMO Adolfo Domingos Júnior, delegado de Polícia, disse ao Comércio que "se houver alguma ameaça, a vítima deve de pronto acionar a polícia através dos telefones 190 (Polícia Militar) e 197 (Polícia Civil). Ninguém é obrigado a pagar e se o flanelinha coagir a vítima, poderá responder por extorsão". Adianta? Há como pegar em flagrante? Já foram pegos aqueles que riscaram dezenas de carros nos estacionamentos da Expoagro? Também afirmou ele que a Delegacia de Investigações Gerais tem um cadastro com fotos de dezenas de "guardadores de carro". Então, as autoridades sabem que o problema existe e é sério. Não é o caso do Ministério Público, a Prefeitura e os órgãos de segurança pública voltarem a agir em conjunto, como aconteceu na ocasião da retirada dos que invadiram o espaço público com negócios comerciais? Se é, proponho a bandeira da causa: branca, com os três famosos macaquinhos "não vejo, não ouço, não falo" ao centro e um grande "X", de "aqui, não", em cima. Quem sabe, não é? Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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