O pito do padre


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Na última missa dominical de que participei, fui surpreendido por um comentário do padre ministrador, após ler comunicado conjunto dos padres da paróquia. Demonstrava sua decepção com o fato de que, em virtude da abertura do comércio por acordo trabalhista, até as 15 horas do dia 11 de junho, não haveria a possibilidade da realização da tradicional procissão de `Corpus Christi`, nem da missa na praça principal, cujas ruas não poderiam ser enfeitadas. Verberou duramente contra tal situação condenando a ação das autoridades, dos empresários/comerciantes e pediu o apoio dos membros da igreja, do deputado presente e dos católicos que participavam da celebração, no sentido de, em bloco, demonstrarmos nossa repulsa ao ocorrido por todos os meios possíveis e à disposição e, é óbvio, sem violência. Achei que dali nasceria uma grande queda de braços digna dos tempos romanos, com direito a um duelo final entre a Igreja e o Estado, mais o comércio no geral. Mas tudo acabou em pizza, como sempre acontece no Brasil. O prefeito correu a dizer que nada fez nem proibiu. Ao contrário, expediu os alvarás. O comércio se defendeu dizendo que não atrapalharia em nada e antecipou o final da jornada. A Igreja se adaptou ao acerto. Enfim, cada um cedeu um pouquinho e pronto. Ganhou aquele grande magazine que inteligentemente publicou que respeitaria as convicções religiosas do povo e não abriria suas portas. O que mais me chamou a atenção no episódio foi quando o padre, em sua argumentação, grandemente decepcionado, disse que nas terças-feiras de Carnaval, que nem é feriado nacional, dia comum, portanto, o comércio em geral cerra completamente suas portas, assim permanecendo até quarta-feira (de Cinzas), às 13 horas. Ou seja, para a festa do capeta, tudo liberado e por um dia e meio, mas para as cerimônias de comemoração da ascensão de Cristo ressuscitado ao céu, tudo lacrado, como se este fato não existisse. O tal do Dia dos Namorados, meramente comercial, sobrepondo-se a um fato religioso dos mais importantes da Igreja Católica. Na balança do final dos tempos sentiremos o que pesa mais. Talvez aí esteja a origem e a causa de todos os males que afligem a humanidade. Para o mal não é preciso mandar nem pagar; e todos largam tudo e vão de peito aberto e cheios de cachaça, sacudir a pança. Fazem tudo o que for preciso e organizam-se direitinho, sem nada deixar faltar para que o embalo seja total. Para o bem, desculpas mil, doenças arranjadas, mau tempo, falta de recursos, excesso de serviço, a firma vai trabalhar em horário extra, etc... Seria de bom alvitre que todos nós, nos dias de `Corpus Christi` e nos outros feriados religiosos, seja trabalhando ou descansando, ou ainda, participando de solenidades religiosas, por alguns momentos pensemos bem no significado da vida e, com clareza, saibamos distinguir o bem do mal e possamos nos livrar do pito do padre porque, como diz o ditado popular, `praga de padre e de mulher barriguda pega mesmo`... Odorico Antônio Silva Advogado

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