Gosto bom de infância


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As festas juninas de tempos passados eram mais festas e menos comércio; as de hoje são mais comércio e menos festas.
As festas juninas de tempos passados eram mais festas e menos comércio; as de hoje são mais comércio e menos festas.
Junho no calendário. O palco está montado. Logo mais se apresentam os grandes santos que mesclam milagres com festas. Claro, a alegria das pessoas em agradecimento às graças alcançadas. Também, por tradição, decidiu-se que o tom é caipira, com músicas e trajes que evocam a vida no campo, a vida dos que labutam de sol a sol na faina de plantar e colher, de criar animais e produzir. A época é de forte censura. Carne vermelha é nefasta, ovos aumentam o colesterol, cigarro é nocivo, açúcar engorda, sal aumenta a pressão arterial. Os arautos da boa saúde, do mesmo modo que os anjos do apocalipse, vão bradar contra todos os tipos de praga. Para eles o ideal seria viver em escuras cavernas, voltar à pré-história, conviver com os dinossauros. Mas, junho está aí. Época de dançar e cantar, rever a velha fogueira numa noite de luar intenso, sonhar e viver. E dar uma banana solene para os que praguejam contra a alegria. Mastros erguidos, no alto Santo Antônio, São João e São Pedro. Fogueiras ao redor, comidas típicas, canjica, cocada, arroz-doce, pipoca, batata-doce assada, bolos de milho e broas de fubá... Gosto bom de infância, brincadeiras de pular sobre as brasas e danças inocentes, quadrilha. Algumas coisas ficaram para trás por imposição do politicamente correto, caso dos balões que enfeitavam os céus. Mudaram-se costumes, vieram outras atrações e um pouco do pecado da perdição. Mas sempre é possível se divertir e também orar, que os tempos são marotos, a vida difícil, muitas crises. E os santos abrem os braços para receber as súplicas e atender aos anseios humanos, desde que sejam justos. Recordo das festas juninas de outrora, e como é inevitável, comparo com as de agora. As festas juninas de tempos passados eram mais festas e menos comércio; as de hoje são mais comércio e menos festas. Lembro que meus tios tinham um sítio em Ribeirão Corrente e para lá eu ia todos os anos, para a festa de São João. E em festa junina que se preze não pode faltar a quadrilha. Ela representa um casamento da roça. Certa vez, em uma dessas festas, fui convocado para ser o `padre`. Solenemente realizei o casamento, tudo brincadeira. Tempos depois um amigo confidenciou-me: `aqueles jovens que se conheceram naquela festa em que você fez o papel de padre, casaram-se, de verdade`. Coisas do destino... Mas, retomando o assunto, nas festas juninas no sítio de meus tios, no fim do dia, uma enorme fogueira já estava armada na frente da casa. Ao redor, bandeirolas e balões de papel colorido enfeitavam tudo. Meus primos acendiam bombas e vulcões e eu ficava observando o brilho sair do chão para riscar o céu como estrelas que vão beijar o solo depois. Os cachorros latiam com medo do pipoco dos fogos, meu pai acendia os rojões para os meninos não queimarem os dedos e eu brincava com chuvas de prata, que acompanhavam meus movimentos circulares, como vaga-lumes prateados cruzando o ar. A fogueira consumia-se. Fogo alto, vermelho, um espetáculo bonito de se ver em meio a todo aquele breu. No dia seguinte, a manhã acordava com cheiro de pólvora dormida e cascas de amendoim espalhadas pelo chão. A fogueira ficava no ponto para assar milho e não faltava quem levasse sua espiga mais bonita, para vê-la avermelhar-se na brasa quente. Brasa vermelha, lembrança viva, é isso que sinto quando vejo as bandeirolas se erguerem novamente, riscando o céu nestas manhãs e noites de junho. Como a vida corre depressa na minha idade. Antigamente era uma eternidade. Ingênuo, eu rezava para que o tempo passasse rápido. Quem me dera soubesse o que sei hoje. Não teria tanta pressa... <b>PRIMEIROS 90 ANOS</b> Uma das grandes bênçãos da vida é a experiência que os anos vividos concedem. Meu pai, Arlindo Mariano de Souza, completou 90 anos no último domingo. Semanas antes traçou planos com os filhos. Com o dedo em riste decretou: `quero uma grande festa, afinal, esses são os meus primeiros 90 anos`. Seu pedido foi atendido. Fizemos uma grande festa, com muito som e churrasco o dia todo. Cercado pelo carinho dos filhos, netos, noras, amigos e amigas, papai apagou as velinhas dos seus primeiros 90 anos, como queria. <b>FIM DOS CIRCOS?</b> As crianças já estavam perdendo o interesse nos circos pela falta dos shows com animais, seus preferidos ao lado dos palhaços. Com o projeto de lei aprovado na Câmara Federal que proíbe em definitivo animais nos espetáculos circenses no Brasil, é provável que abandonem de vez as arquibancadas. Por que não adotam séria fiscalização e liberam os que dão tratamento correto aos animais? Para o público infantil, os circos estão perdendo o encanto. Quanto aos palhaços, parte deles deixou os picadeiros. Ingressaram na política... <b>Edward de Souza</b> <I>Jornalista e radialista</i> edward@comerciodafranca.com.br

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