Apresento-me. Sou Lionel Lamy, nascido norte-americano, hoje com 87 anos, naturalizado brasileiro e morando no Brasil há mais de 64 anos. Felizmente aposentado como professor desde 1990, mas ainda ativo em atividades de educador. Durante os últimos 52 anos tenho voltado numerosas vezes aos Estados Unidos em visitas a familiares, parentes e amigos. Numa dessas viagens de volta ao Brasil, mais ou menos nesta mesma época do ano mas sem poder citar o ano com precisão, voava em um lindo avião Super Constelation, da Varig, à altura (da linha) do equador, quando o voo que até então se mantivera tranquilo, lá pela uma ou duas da manhã, todos nós, passageiros, fomos acordados e surpreendidos com a voz forte e firme do comandante: "apertem os cintos!". Não demorou mais quinze minutos e nosso avião entrou numa área de turbulência mais forte do que em qualquer outra viagem anterior. De repente, o avião caiu – não deslizou, mas caiu como se (despencasse) com o peso total da aeronave – no chão. Sentado nas últimas poltronas, pude ver que tudo o que estava livre no avião (poeira, papéis, travesseiros e até cobertores) voou para o forro. Num barulho estrondoso e gritos dos passageiros, podia-se imaginar o medo apossar-se de toda a tripulação. Logo em seguida o avião teve uma inclinação brusca de 45 graus para a direita criando a sensação de que havíamos perdido uma das asas (...); mas ainda não havia chegado a nossa hora. O nosso barco era um de Noé, com certeza! Alguém de Cima – cada um pensou na sorte ou no deus que quis – mas o comandante foi certamente um anjo de guarda que sossegou todo mundo. Ele conseguiu conduzir a sua e a nossa nave para um patamar celeste mais tranquilo. Então, veio ele, o heroi, saindo da cabine de comando, saudando todo mundo e cada um levantando para ele um dedão de louvor e ele respondendo com um sorriso e o mesmo conhecido gesto de aprovação. Veio até o fundo do avião onde eu estava, sozinho, sentado numa espécie de sofá semicircular formado por cinco poltronas sem braços. Sentou-se comigo e eu logo fui perguntando: "caímos uns bons 10 metros, não é, comandante?". E ele: "10 metros? Caímos 100 metros!". Imagino até hoje que ele não me teria enganado naquela circunstância. Voltei a perguntar: "como lhe fora possível segurar o peso total do avião gigante naquela queda?". Ele, simplesmente estendeu as duas mãos abertas à minha frente. Nunca vi mãos com tantos calos. Felicitei-o e, com ele, também repeti "Thanks God!". (Tenho tentado) dormir rezando pelos passageiros do A330 e seus (...) familiares. Quem sabe, o A330 teria perdido uma de suas asas...
Lionel Lamy
Por carta - Franca - SP
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