<p align="justify">No início de 2006, aos 45 anos, Miguel Sábio de Mello Neto assumiu a presidência da Samello com o desafio de devolver à família a gestão da empresa, à época sob o comando do executivo Renato Furtado. Não teve tempo. No segundo semestre do mesmo ano, em 16 de outubro, a Samello fechou suas portas. Nos seis meses seguintes, demitiu paulatinamente 1,6 mil funcionários. A dívida da empresa ultrapassou R$ 90 milhões. Apenas em salários atrasados e direitos trabalhistas eram R$ 11 milhões. </p><div align="justify">
</div><p align="justify">Naquele momento, em meados de 2007, teve início uma infinidade de reuniões, que se arrastaram pelos últimos três anos. Sentado à cabeceira da mesa de negociações, Miguel lutou para aprovar junto aos credores da Samello um Plano de Recuperação Judicial que lhe desse a chance de respirar e tentar se reerguer. "Foram reuniões semanais com os sindicatos dos sapateiros de Franca e da Paraíba, além dos fornecedores e do fisco. Recebemos todos, sem distinção, e não prometemos nada que não pudéssemos cumprir", disse o empresário.</p><div align="justify">
</div><p align="justify"><br />A produção da Samello foi retomada em fevereiro de 2008, de forma tímida, com apenas 35 funcionários finalizando 250 pares de calçados por dia. Na época, o Comércio noticiou que a retomada discreta era o início de planos bem mais ambiciosos da diretoria, que incluíam a ampliação das lojas franqueadas, de 13 para 21, a produção de 2 mil pares por dia e a retomada das exportações. Nada se concretizou.</p><div align="justify">
</div><p align="justify"><br />Foi apenas no fim de 2008, quando a crise na economia internacional foi deflagrada, atrapalhando diretamente o planejamento para o retorno da "gigante" calçadista ao mercado, que o otimismo de Miguel ameaçou ceder. "Nosso plano de recuperação judicial era baseado na venda dos imóveis da família. A crise deixou tudo mais lento e só agora, em maio deste ano, conseguimos vender a fazenda de Uberaba. Com o dinheiro quitaremos as dívidas trabalhistas até o fim do ano. Estamos encerrando uma etapa", garantiu.</p><div align="justify">
</div><p align="justify"><br />Na última terça-feira, um Miguel diferente recebeu a reportagem do Comércio. Três anos após sua última entrevista ocorrida no início da crise. O empresário tem os cabelos mais grisalhos e a fisionomia desconfiada. A mudança no discurso também pôde ser notada. Apesar de manter o otimismo de outrora, Miguel tem planos mais modestos. "Sinto falta do barulho das máquinas, do cheiro do couro.(...) A volta da produção interna está prevista para acontecer em julho. Serão mais 60 contratações e a terceirização será mantida para algumas linhas, mas os produtos que fazem parte da cultura e da história da Samello a gente gostaria de fazer internamente. (...) Tudo deve acontecer na sequência da Francal", afirmou. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio da Franca - Qual é a situação da empresa depois da crise e do processo de recuperação judicial iniciado há dois anos? <br />Miguel Sábio de Mello Neto -</strong> É muito boa se levarmos em consideração o pagamento de credores, principalmente os trabalhistas. Ainda restam R$ 4,8 milhões que serão pagos de julho a dezembro deste ano. Quando começamos a dívida era de R$ 11 milhões. Encerraremos uma importante etapa. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - E os fornecedores?<br />Miguel -</strong> Fazendo o pagamento das dívidas trabalhistas, eles serão os próximos em nossa escala de prioridades. A maioria sempre foi parceira. Alguns deles mesmo agora nesse período de recuperação continuaram a nos fornecer normalmente. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - No geral, ainda restam muitas dívidas?<br />Miguel -</strong> Aproximadamente R$ 50 milhões, a maioria com impostos. E alguns compromissos ainda são passíveis de discussão. Uma das possibilidades é a liberação do crédito do IPI, hoje retido pelo governo, para quitar essas dívidas com o fisco. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Como foram esses últimos três anos?<br />Miguel -</strong> Foram bastante dolorosos, de muita luta. Mas nós nunca nos furtamos a atender ninguém. O segredo do cumprimento desta primeira etapa foi ter atendido com muita objetividade e clareza todos credores, de qualquer natureza. No caso dos trabalhadores, por exemplo, chegamos a ter até quatro reuniões mensais de março de 2008 até maio deste ano. Quase toda semana a gente tinha um encontro. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - O que você quer dizer com atender aos credores?<br />Miguel -</strong> Quero dizer dar atenção, não pagar. A gente também só prometeu o que tinha certeza que poderia cumprir. Isso gerou uma confiança mútua e amizade. Pessoalmente foi uma "bagagem" muito grande. Eu fiz questão de participar de todas as reuniões com funcionários, advogados e diretores dos sindicatos de sapateiros tanto de Franca como da Paraíba. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - O que foi vendido até agora?<br />Miguel -</strong> Vendemos a fazenda em Cristais Paulista, aquela que foi invadida pelo MST. Aliás, até isso a gente teve que enfrentar e no momento mais crítico. Quando uma empresa passa por uma crise como a que passamos e há um processo de recuperação judicial, acontece também uma crise de confiança. E naquele momento eu não podia oferecer nada além do meu próprio entusiasmo, minha disposição e vontade de trabalhar. Depois, vendemos o terreno em frente ao Castelinho para o Makro, um terreno no fundo da Samello e, por último, a fazenda de Uberaba. De maior volume foram esses. Porém, temos também uma lista de imóveis menores, alguns terrenos, escritórios e imóveis residenciais na cidade e fora de Franca. Mas não acabou. Continuo trabalhando na venda de imóveis. Chegamos a ter duas listas de bens que constavam do plano de recuperação, no entanto, em um determinado momento eu reuni o pessoal da família e da diretoria e falei: "olha, vamos colocar todos os imóveis à venda, não só estes que estão na lista. Vamos vender tudo! E o que vender primeiro nós vamos pegar e começar a pagar credor". E assim tem sido... </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Em quanto estava avaliado o patrimônio da Samello quando vocês decidiram pôr tudo à venda?<br />Miguel -</strong> Não temos uma ideia exata por causa da variação do preço de mercado. Imagine que você quer vender determinado imóvel à vista. Mas os meses vão passando e começam então a aparecer propostas com valores menores e com prazos para pagamento cada vez maiores... Nós tivemos propostas indecorosas e de supostos amigos de Franca. A verdade é que o valor dos imóveis superaria consideravelmente a dívida de R$ 90 milhões (referindo-se ao valor do início da recuperação judicial). </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - E em relação à família? Houve uma mudança na realidade de vocês?<br />Miguel -</strong> Na família fomos forçados a chegar à conclusão, alguns mais rapidamente do que outros, de que teríamos que mudar radicalmente nosso estilo de vida. Tanto na esfera social e pessoal, quanto na esfera gerencial na própria fábrica. Foi um período de muita economia. Cortes de despesas. A gente teve que aprender a viver com o mínimo, o estritamente necessário. Isso nem sempre é bem recebido, principalmente pela diretoria, onde também tivemos que fazer cortes. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Como é que vocês conseguiram passar esses três anos?<br />Miguel -</strong> Com muito trabalho e mostrando a cara, por mais difícil e doloroso que tenha sido. Chegaram a apontar para a gente na rua e gritar: "Vocês estão devendo!". E quando eu argumentava dizendo que a Samello tem tradição, tem 83 anos, eles diziam: "Isso faz parte do passado. Hoje você não estão pagando!". E é verdade, discurso não paga a conta. Mas tudo o que temos feito tem sido voltado apenas para isso: quitar nossos compromissos. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Muita gente fala que a Samello "quebrou" porque a família esbanjava dinheiro. Você tem conseguido conter esses gastos?<br />Miguel -</strong> Tem sido difícil. Há um constrangimento. A gente acabou se reprimindo um pouco. Não tínhamos vontade nem de sair de casa. Mas eu posso dizer da humildade e da modéstia que meu avô e meus tios mais velhos sempre pregaram. E tem outra coisa, hoje, nem se a gente quisesse teria recursos para viajar para o exterior, por exemplo. Por outro lado, a experiência foi de um aprendizado imenso, que me fortaleceu. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Do que você sente mais falta?<br />Miguel -</strong> Para te falar a verdade - sem falsa modéstia - não tenho trauma de nada, nem sofrimento por muita coisa material. O que eu mais sinto falta mesmo é da produção, do barulho das máquinas, do cheiro do couro. Nós chegamos a fazer 10 mil pares por dia em todas as unidades. Espero voltar a produzir logo nossos 300, 400, 500 pares... Você viu que já estou aumentando por minha conta não é (risos)?</p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - O que é feito hoje dentro da Samello?<br />Miguel -</strong> Há uma equipe envolvida no processo contábil, financeiro e jurídico, por causa da recuperação. E na produção há cerca de 10 pessoas trabalhando, fazendo a manutenção das máquinas, o transporte, o plancheamento e o acabamento. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - E as máquinas?<br />Miguel -</strong> Mantivemos. Temos um grupo bem selecionado de máquinas que pode produzir, da recepção de materiais até o acabamento, até 2,5 mil pares por dia. Está tudo montadinho, arrumadinho. Mexemos em tudo, mas aquilo lá é nossa joia rara. Temos que manter, fazer manutenção. Porque os pedidos estão aumentando, assim como as consultas. Logo, logo, teremos uma boa carteira de clientes. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Falando em produção...<br />Miguel -</strong> A maior parte da produção da Samello, tanto para atendimento das lojas franqueadas como das multimarcas, é feita por quatro empresas terceirizadas. A ideia é gradativamente iniciar uma produção interna a partir da Francal. Temos uma modelagem e um mostruário bastante reduzidos e ao mesmo tempo seletos, que vão nos proporcionar uma visão real de mercado. Hoje fazemos em torno de 250 pares por dia, temos 35 funcionários diretos e geramos cerca de 70 empregos indiretos nas empresas que prestam serviço para a gente. A volta da produção interna está prevista para acontecer em julho e seria mais ou menos na mesma proporção: mais 60 contratações aproximadamente. A terceirização será mantida ainda para algumas linhas, mas aqueles produtos que fazem parte da cultura e da história da Samello a gente gostaria de fazer internamente. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - E você tem um prazo previsto para que tudo o que é planejado se torne realidade?<br />Miguel -</strong> Provavelmente tudo deve acontecer na sequência da Francal, que para nós este ano é um marco muito importante. Primeiro porque a Samello participou de todas as edições - perdemos apenas as duas últimas por causa da recuperação judicial - e vamos voltar devido a um convite especial do Abdalla, que nos tratou com muito carinho. Estaremos lá também em atenção a pedidos de representantes da Samello - hoje em número reduzido - e de alguns clientes da empresa. Então, se nossas expectativas quanto à Francal se realizarem, teremos a chance de voltar à nossa posição no mercado. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Você visitou as últimas edições da feira, mesmo sem participar? Como foi?<br />Miguel -</strong> Ah... É triste... Porque nós participamos desde a inicial, desde a primeira. A gente ficou dois anos fora, mas guarda aquele cheirinho de couro na mente. É a cultura que corre no sangue... (emocionado). Isso nos causa um pouco de sofrimento, desilusão. Mas nada melhor que um dia após o outro. Toda guerra tem de ser vencida aos poucos. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Como vocês têm sentido a crise econômica mundial?<br />Miguel -</strong> Eu já sabia que a nossa batalha seria dolorosa, mas que a gente tinha condições de enfrentá-la. Como nosso plano de recuperação foi fundamentado na venda de imóveis, a crise prejudicou na medida em que esses imóveis não foram vendidos na velocidade que a gente imaginava. </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Como é o seu dia-a-dia?<br />Miguel -</strong> Acordo todo dia cedo. Geralmente, às 7 horas já estou na fábrica. Tomo café no refeitório e fico lá até as 17 horas. Tenho um intervalo de uma hora para almoçar e, às vezes, almoço na fábrica mesmo, com a turminha lá. Somos em cerca de 15 funcionários. A gente se junta e pede para as senhoras do refeitório e da faxina fazerem um "almocinho" pra gente. Comemos todos juntos. Geralmente é uma comida simples, mas gostosa. Elas têm um tempero maravilhoso... Isso fica em R$ 3, mais ou menos (por pessoa). Quando fica caro fica em R$ 5. E cada um paga sua parcela. No fim de semana, eu me dedico às minhas filhas, minha noiva, minha mãe e aos meus irmãos. Pratico esporte (pólo sobre cavalo) na quarta-feira, no sábado e no domingo. Mas tive que abrir mão de participar de campeonatos. Estou há praticamente três ou quatro anos sem participar de torneios. Esse é o meu lazer. Jogar futebol, tomar uma cerveja com os amigos e jogar um "polinho". </p><div align="justify">
</div><p align="justify"><strong>Comércio - Restaram muitos amigos?<br />Miguel -</strong> Poucos. Colegas eu tinha muitos... Amigos eu devo ter no máximo "uma mão".</p>
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