Brutalidades e educação


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A mídia nacional repercutiu, nesses últimos dias, dois acontecimentos trágicos. Um, internacional, o acidente com o Airbus da Air France, causando o desaparecimento de 228 pessoas e outro, nacional, o estúpido atropelamento e morte de um jovem, provocado por outro jovem, na cidade de São Paulo. O primeiro repercute nas sociedades nacional e mundial, de forma proporcional aos detalhes da divulgação que a mídia apresenta. Além dos mistérios (medos, inseguranças e desafios) que cercam o ato de viajar de avião, os detalhes esmiuçados das vidas de cada um dos desaparecidos ajudam a criar o clima de comoção geral. É lógico que sempre haverá esses detalhes das pessoas envolvidas. É o casal em lua-de-mel, é o trabalhador em viagem premiada, é o filho que veio visitar os pais, o casal que viaja separado, o sortudo que perdeu o voo, etc. São fatos presentes na realidade de todos nós. Assim, toda essa comoção é resultado da possível perda brutal dessas vidas, mas é produzida, também, pela ação e dramatização da mídia. Assim, o que eu quero realmente comentar é o segundo episódio: o do atropelamento e morte em São Paulo. Ele exemplifica o que acontece com a juventude brasileira todos os dias. Dezenas de jovens são mortos diariamente por atos de brutalidade e de depreciação da vida. As tragédias coletivas mobilizam a ação e os sentimentos da sociedade, mas as tragédias individuais (que são maiores na sua totalização) pouca atenção despertam e causam insignificante mobilização social e pública. Esse episódio me fez pensar sobre as diferenças entre as juventudes de hoje e a da minha época. Sem saudosismos. Apenas, refleti sobre o que havia na época e que falta hoje ou, pelo menos, não é mais valorizado. De tudo pensado e refletido, cheguei à escola. Lembrei-me de professores como o Prof. Godinho (Música e sensibilidade), o Prof. Nicanor (Inglês e caráter), a Profa. Sidnei (Matemática e amizade), o Prof. Moge (Física e responsabilidade), a Profa. Rita de Cássia (Desenho e disciplina), o Prof. Angelinho (Biologia e organização), a Profa. (que não lembro, infelizmente, o seu nome) de OSPB (Organização Social e Política Brasileira e patriotismo) e tantos outros que não eram, simplesmente, professores de determinadas disciplinas, mas eram, na verdade, professores de valores humanos e sociais. Senti saudades deles. Deixaram bons ensinamentos. É lógico que os `tempos são outros`, que a tecnologia e os interesses são outros e que a pedagogia deve acompanhar essas mudanças; mas, eu pergunto, os valores que devemos dar à vida, à amizade, à decência, ao respeito com o diferente, à solidariedade e a tantos outros aspectos da vida em sociedade, mudaram? O ser humano vale, hoje, menos do que ontem? Os papéis na escola estão muitas vezes invertidos. Na minha época, tínhamos medo da Caderneta do Professor. Lá estava nossa vida, nossa avaliação e, de certa forma, como éramos vistos e respeitados na escola. Hoje, em muitos lugares, são os professores quem têm medo da mochila do aluno. Lá, entre outras coisas pode até ter uma arma. É tempo de pararmos com discursos e proselitismos que falsamente defendem os interesses das crianças e jovens e, definitivamente, discutirmos o modelo de escola que precisamos. O que falta nas nossas escolas e nos nossos professores? Como a escola pode contribuir para a formação de pessoas livres, felizes e responsáveis pela construção de uma sociedade melhor? Cassiano Pimentel Agente de Exportação e Professor Universitário.

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