<p>Aos 48 anos, Sueli Maria Pereira Silva é uma mulher realizada. Empresária do setor de lingeries, ela construiu uma história de vida que une o desafio ao sucesso. Mineira de Claraval, Sueli descobriu que aquilo que era necessário fazer quando jovem para ajudar a mãe poderia se transformar na principal fonte de renda da família: a costura.</p>
<p><br />Primogênita de uma família com 11 irmãos, Sueli morava em um sítio de Claraval. Em busca de uma vida melhor, a família mudou-se para Franca há 30 anos. Não diferente da maioria dos migrantes que chegam à cidade, ela arrumou emprego em uma fábrica de calçados. A rotina da fábrica e a falta de possibilidade de crescer como desejava profissionalmente fizeram a empresária mudar de planos. Passou a costurar roupa infantil e a vender lingerie com catálogos. Aos poucos, conseguiu formar uma grande clientela.</p>
<p><br />Há exatos 20 anos percebeu que era o momento de montar seu próprio negócio. Em uma sala, no fundo de casa, passou a costurar lingerie. A mão de obra e maquinário eram precários. Mas, ainda assim, ela insistiu. Não demorou muito para conquistar uma clientela fiel e aumentar a produção. Em menos de dois anos, já confeccionava 50 peças por dia. O negócio cresceu. A empresa uniu a família e se tornou um sonho realizado para Sueli.</p>
<p><br />Seu marido, Onofre, e os filhos Thales, 20, e Thaís, 24, trabalham com ela na empresa. Onofre ajuda na administração do negócio e chegou a fazer curso de estilismo para acompanhar o setor de criação. A filha formou-se estilista e é a responsável pelos modelos. Já seu filho estuda publicidade e atua no setor de marketing da empresa.</p>
<p><br />Atualmente com 40 funcionários e produção mensal de 25 mil peças, a Frelith atende a praticamente todo o País. Tem franquia em Uberlândia e está prestes a abrir duas novas lojas: uma em São Paulo, capital, e outra em Campinas.<br />Se a vida na fábrica de calçados era rotina, na costura Sueli descobriu o que é trabalhar com prazer. Hoje ela não vira mais as madrugadas costurando - como fazia há 20 anos - mas faz questão de acompanhar de perto a fábrica e a loja da marca. “Em 20 anos, não deixei de me dedicar a esse trabalho”, disse, orgulhosa.</p>
<p><br />A idealizadora da Frelith recebeu a reportagem do Comércio e contou um pouco da história dos seus sonhos, sobre os desafios e os planos da empresa para 2010. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - A senhora nasceu em Claraval. Como e por que veio para Franca?<br />Sueli Maria Pereira -</strong> Sou de uma família grande. Somos em 11 irmãos. Nove homens e duas mulheres. Sou a mais velha. Com 18 anos precisava procurar alguma coisa diferente, pois na roça é difícil o trabalho, queria estudar e tudo mais. Decidi vir para Franca. Não tinha conhecimento e estava em busca de trabalho em fábrica de sapatos, onde comecei. Fiz serviços manuais e cheguei a ser pespontadeira. Fui até esse ponto. Saí da fábrica como pespontadeira seis anos depois. </p>
<p><strong>Comércio - O serviço de pespontadeira não a realizava?<br />Sueli -</strong> Eu sempre gostei muito de costurar. Quando mudei para a cidade e fui trabalhar em fábrica de calçados não me realizou trabalhar na mesma coisa. É muita rotina. Não gosto. Gosto de criar. Então continuei fazendo isso. Fui para o Centro Comunitário, aprendi uma coisa aqui, outra ali. Onde havia uma oportunidade eu estava aprendendo, colocando em prática. </p>
<p><strong>Comércio - Sua empresa é uma das mais antigas do setor de lingerie em Franca. Como tudo começou?<br />Sueli -</strong> Comecei a costurar aos sete anos de idade. Costurava roupas dos meus irmãos. Chegando em Franca continuei a fazer pequenas costuras. Depois de casada, quando minha filha nasceu, eu mesma fazia as roupas dela. Fui mostrando as peças e recebendo encomendas. Depois passei a vender lingerie de catálogo e achei que dava certo fazer e vender. Em Franca tinha uma pessoa que fazia lingerie em uma máquina doméstica, que é a mesma que eu tinha na época. Comecei a revender essas peças para essa pessoa, mas ela não continuou no negócio. Achou que não dava mais certo. Eu pensei: preciso vender. Não posso parar. Vou fazer. Essa iniciativa de começar fez 20 anos em março. </p>
<p><strong>Comércio - Como foi esse começo? Quais as dificuldades encontradas?<br />Sueli -</strong> Quando resolvi fazer lingerie não existia nem malha de algodão em Franca. Não achava nada. Máquina não existia. Faz só 20 anos, mas se você for pesquisar a realidade daquela época não era para eu fazer lingerie. Cheguei a cortar minhas próprias camisolas para fazer as primeiras peças. Depois meu marido foi em Ribeirão Preto buscar tecido e trouxe elanca. Quando ele chegou eu disse que aquele material não era para lingerie. Mesmo assim eu usei. Fiz peças maiores e, depois de muito tempo, as pessoas passaram a procurar peças com aquele material. A gente errou, acertou e foi aprendendo. </p>
<p><strong>Comércio - O nome Frelith. Como surgiu?<br />Sueli -</strong> Surgiu depois de dois anos, quando já fazíamos cerca de 50 peças por dia. Decidimos colocar a marca. Sem experiência, sem ajuda, optamos por colocar letras dos nomes da nossa família. Onofre, meu marido, eu, Sueli, e o “th”, que são as iniciais dos nomes dos meus filhos. Quis idealizar que é um trabalho nosso que eles darão sequência. Deu certo. A gente se acostumou com o nome. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora falou muito sobre as dificuldades do início. Nesses momentos chegou a pensar em voltar para a fábrica de calçados e desistir da lingerie?<br />Sueli -</strong> Nunca. A partir do dia que fiz a primeira peça, nunca mais parei. E em nenhum dia eu fiz menos que no outro. Sempre cresceu. Dois meses depois (do início) já tinha mudado nossa realidade. Não pensava em mais nada. Era só fazer lingerie. Foquei mesmo. Meu marido sempre me ajudava no período da noite. O resto eu fazia sozinha. </p>
<p><strong>Comércio - A empresa, pelo que a senhora nos conta, é bem administrada. A senhora tem algum curso superior na área?<br />Sueli -</strong> Não. Muito tempo depois eu fiz treinamento. Mas na verdade é dom. Está dentro de mim. Comércio - Como está o setor neste momento de crise?<br />Sueli - A gente que está no mercado há um bom tempo e tem uma clientela fiel, sempre batalhando, não percebe muito a crise. Está passando. Com muita luta e trabalho não teve um impacto forte para a gente. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora já pensou em exportar as peças que fabrica?<br />Sueli -</strong> Já exportei moda praia, mas esse não é o nosso foco. No momento, com o mercado incerto, preferi me dedicar ao mercado interno. </p>
<p><strong>Comércio - No ano passado a Frelith participou da Francal. Como foi estar em uma feira calçadista expondo lingerie?<br />Sueli -</strong> Achei diferente. Até para o pessoal que visita a feira de calçados foi bem diferente. O estande foi muito bem visitado. A gente conseguiu vários contatos. Achei positivo, gostei muito. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora acha que o setor ainda tem espaço para crescer em Franca?<br />Sueli -</strong> Acredito que tem. Em 20 anos olha só quantas fábricas surgiram. E hoje é muito mais fácil a pessoa montar uma empresa de lingerie e conseguir acesso a tudo. A informação hoje é para todos. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora se considera uma incentivadora para os outros empresários que foram surgindo ao longo dos anos?<br />Sueli -</strong> Sim. Acho que em todo segmento as pessoas se espelham em alguém para montar (um negócio). Eu me espelhei e acho que os outros também. Se for (incentivadora) fico muito feliz.. </p>
<p><strong>Comércio - Os empresários do setor mantêm contatos, trocam experiências, ou o clima é de concorrência acintosa?<br />Sueli -</strong> Tem trocas sim. Não é tão grande e poderia ser melhor, mas o contato existe. Várias pessoas a gente conhece. Eram clientes e são amigos. (...) Penso que a união é sempre positiva. Não precisa ter rivalidade. Cada pessoa tem que fazer bem seu trabalho e a consequência virá. Tem público para todos. Há quantos anos estamos no mercado? Várias indústrias surgiram e a Frelith sempre cresceu. Nenhuma nos atrapalhou. </p>
<p><strong>Comércio - Onde a senhora busca inspiração para criar os modelos?<br />Sueli -</strong> Temos uma equipe que faz esse trabalho. Eu faço de alma e coração porque gosto muito. A minha filha, que era bebê quando eu comecei, hoje é estilista da Frelith. Temos outras pessoas que trabalham em busca de novidades, de montar as coleções. </p>
<p><strong>Comércio - Como é para a senhora ver seu marido e filhos envolvidos num trabalho que surgiu de um sonho que era apenas seu?<br />Sueli -</strong> Sou muito feliz por eles estarem envolvidos e se interessarem no trabalho. E não tenho apenas meu marido e filhos. Tenho irmãos, sobrinhos. Todos gostam muito e trazem uma força muito grande para a gente. Fora os familiares, nossa equipe é maravilhosa. Tem pessoas que estão aqui há dez, 12 anos. São pessoas que se tornaram da família. </p>
<p><strong>Comércio - Quais os planos da empresa para o futuro?<br />Sueli -</strong> Estamos construindo a fábrica da Frelith na Avenida Doutor Ismael Alonso y Alonso. Acredito que em 2010 estaremos nesta nova fábrica, que é um pouco maior. Temos planos de aumentar a produção e, consequentemente, contratar mais pessoas. </p>
<p><strong>Comércio - Qual o segredo do sucesso?<br />Sueli -</strong> Acho que o segredo é fazer aquilo que a gente gosta. Ter muita dedicação e respeito naquilo que faz. Sempre trabalhei dessa forma. E sempre digo, acho que está dentro de mim, gosto muito e, em 20 anos, não deixei de me dedicar a esse trabalho.</p>
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