Cinquenta


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Certa vez sonhei que morreria aos 38 anos. Não fiquei muito preocupado, mas confesso que ao fazer 39 senti algo aliviado. Isso faz tempo: acabo de chegar aos cinquenta. Por coincidência, gosto muito da música “A mis cuarenta y diez`, do argentino Joaquin Sabina, que começa assim: `A mis cuarenta y diez / cuarenta y nueve dicen que aparento / más antes que después / he de enfrentarme al delicado momento...”. A diferença é que não encaro isso com pesar. Qualquer idade é para comemorarmos, ficarmos exultantes. Afinal, só não chega a ela quem morre antes. Para mim, é nova idade sem muita novidade. Os cabelos estão branqueando, é verdade, mas eu não vou pintar. Converso sozinho, mas faço isso desde sempre (puxei ao meu pai). Continuo gostando de música, leitura, cinema e outras coisas de que gostava antes. Ainda me arrepio ao ouvir as obras-primas de rock dos anos 70 e aprecio também muita coisa que veio depois. No meu meio século de existência muita coisa aconteceu. A ciência avançou, Brasília nasceu (que lástima!), em certos lugares o tempo parece que parou, noutros a terra tremeu. Satélites orbitam a Terra e o homem chegou à Lua. Em 1992 os caras-pintadas saíram à rua, mas agora está cada um na sua. O vidro cedeu espaço às garrafas pet, pessoas se encontram e se perdem na internet. O CD tomou o lugar do disco de vinil e da fita cassete. A guerra fria teve fim, acabou-se a União Soviética, caiu o muro de Berlim. Pagamos mais tributos do que nunca e, assim, deveríamos ter instituições e serviços públicos dignos, mas neste aspecto vivemos numa espelunca. Acabaram com a escola, ninguém se reprova, nem carece mais de cola na prova; com a progressão continuada não precisa saber ler, nem escrever, nem tabuada; jogaram o ensino público na privada. A TV ficou colorida, mas tem muito pouco que interesse. O SUS é o antigo INPS, mas o serviço é igualmente lento: para ser atendido tem de dormir na fila, ao relento, e fazer uma boa prece. O País foi fundo e tornou-se autossuficiente em petróleo, só que a nossa gasolina é das mais caras do mundo. A política chegou às profundezas do poço: lama até o pescoço. O mundo anda esquisito, tem gente morrendo por causa de um mosquito, aumentam as zonas de conflito. Uns sujeitos provocam a desgraça alheia lançando mísseis, outros causam a própria, jogando em maquininhas caça-níqueis. Nossa nação é refúgio de forasteiros; bandidos que nos países de origem seriam prisioneiros, aqui são protegidos, tratados com mais consideração do que os próprios brasileiros. Cheguei aos cinquenta. Nasci pela 51.ª vez. Isso mesmo. Cada aniversário é um novo nascimento. Parar? Não, salvo para um brinde, pois de celebrar não se prescinde. Vida é movimento. No avanço da idade, perde-se a mocidade, porém aumenta a responsabilidade. Busco sempre um alento. Não consigo tudo que quero, mas tento. Cada fase deve ser enfrentada como se apresenta, com ou sem sofrimento. Quando passei dos 38, disse ao mundo: agora me aguenta. Aprendi que para melhorar é preciso reclamar menos e agir mais. Muito se queixa, mas certas indecências só acontecem porque a gente deixa. Vão-se os anos, mas não se pode parar de fazer planos. Tendo chegado aos cinquenta, é ajeitar as velas, observar o vento e seguir rumo aos sessenta. Um brinde à vida! Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro `Pensando na Vida` – paulopereiracosta@uol.com.br

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