A Chave da Taquara, pequeno vilarejo perto de Cristais Paulista, que latejava vida durante a abastada era do café, tinha casinhas, uma igreja, uma escola, um campo de futebol, uma venda.
O nome foi tomado de uma moita de taquaras e de uma chave, tipo alavanca, que permitia acesso a um desvio por onde se recarregava, de lenha, os depósitos e as caldeiras das velhas Marias Fumaças da época. Ali, os comboios de vagões da Mogiana eram carregados com o melhor café do mundo, seguindo para Cristais, Franca e em frente, na direção do porto de Santos.
O lugar ainda existe mas perdeu todo o viço. Foi-se a estrada de ferro, engolida pela modernidade das rodovias onde rodam caminhões que fazem o papel dos vagões de outrora, de forma mais rápida. E bem mais cara. Foram-se os antigos moradores. Apenas alguns Pelizaro e Guarnieri resistem, e são depositários das histórias interessantes do lugar.
A igrejinha, dedicada ao Bom Jesus de Lapa, também ainda está lá. Pelo menos uma vez por ano famílias piedosas não deixam morrer a festa do Bom Jesus e se reúnem em quermesse e em rezas tradicionais, que mantêm viva a memória local.
Há muito para contar sobre a Chave e certamente voltarei ao assunto dia destes. Para hoje, foco na velha escola do lugar. Ouvi, de meus pais, muitas histórias sobre as crianças que aprenderam lá as primeiras letras e "sofreram" inesquecíveis puxões de orelha capazes de recolocar no rumo do estudo sério os mais renitentes.
Escrevi "sofreram" porque puxões de orelha, apesar de dolorosos, não significavam violência e sim, carinho.
A gente só se preocupa com quem a gente gosta, lembram-se?
Pode ser que os que "pensam" a fabulosa educação de hoje se sintam tentados a me dizer "alto lá", agora mesmo. Peço paciência. Se você, que é um ás das técnicas do ensino moderno se sentir constrangido, sinta-se à vontade para parar de ler. Quem acha que a solução capaz de salvar a educação ainda passa por aquele "Caminho Suave", que continue.
À escola da Chave iam os filhos dos residentes e a criançada que, literalmente, "brotava" dos "matos" da região. Existia um acordo tácito entre pais e professores: "se fosse necessário, era para corrigir, sim!". Coisa de confiança absoluta, compartilhada. Os jovenzinhos traziam de casa educação, "respeito aos mais velhos e aos companheirinhos", espiritualização e valores do tipo.
Tinham medo de "pecar" e os dez mandamentos da Lei de Deus, aprendidos nas aulas de catecismo, eram recitados de cor e salteado.
A somatória desses atributos definia a massa de moldagem que se oferecia aos mestres de outras épocas, e essa massa era, sem dúvida, mais receptiva à cidadania, capaz de formar homens e mulheres de bem. Só para resumir: "educação em casa e instrução na escola", como disse dia destes a Secretária da Educação do município, Leila Haddad, certamente nostálgica, já que no presente em que vivemos, isso soa utopia.
Pois bem. Falei de uma escolinha de outro tempo e fiz questão de retratar a mais simples dentre todas as de minha lembrança.
A receita da educação adequada se apoia em alunos que tenham recebido "banho de família". Não compete à escola ensinar valores de berço. Acho que deixei isso claro nas entrelinhas deste texto.
Então, por que a Chave da Taquara? Porque penso que cada um de nós tenha também uma "Chave" guardada na memória, capaz de recordar, nos momentos de tristeza, os tempos idos em que respeito e educação faziam diferença. Quem se mete a dizer que Caminho Suave – regado a puxões de orelhas comprometidos com o ser melhor que cada criança precisa ser – não está com nada, também não está com nada. Nunca vai compreender que apenas "banho de família" é para sempre.
TALENTOS ESCONDIDOS
A página A-2 do Comércio, dedicada a debates à livre expressão de pontos de vistas, é a cara visível da Editoria de Opinião deste GCN. Nela, leitores e articulistas discutem, todos os dias, pontos de vistas sobre o cotidiano desta grande cidade. Esta tribuna de rigorosa democracia ganhou, esta semana, mais um colaborador que certamente fará diferença: Alexandre Fischer, que sempre apresento como meu interino. E não em textos, em que já o sabia muito bom. Em charges! Talento escondido pelo moço durante muito tempo, ele estreou esta semana e deu às charges tradicionais da A-2, foco local. Se você ainda não viu, não deixe de conferir. Bem vindo, meu caro.
DESPEDIDA
Lembro-me ainda das missas em latim, celebradas por Frei José Pinto Ribeiro na Matriz de Franca. Era ainda muito jovem mas a pompa e a circunstância daqueles tempos se tornaram inesquecíveis. Vim a conviver com Frei José mais tarde, ocasião em que dediquei tempo e crença a grupos de jovens, ocasiões dos famosos TLC`s, treinamentos de lideranças religiosas dos anos 70. Fizemos amizade. Era um padre à antiga mas tinha o dom de falar com gente de todas as idades com sabedoria e bom humor. Fiz, com tristeza, o necrológio dele e publiquei neste Comércio, na quinta-feira. Frei José não resistiu a um AVC, registrado ao início da semana. Gente de todas as religiões que aprenderam a gostar dele, ficaram mais pobres.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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