Um senhor de 61 anos e sua mulher, de 51, se tornaram reféns dos próprios filhos. Nelson Lopes e Maria Aparecida Lopes moram numa casa simples no Leporace e têm vivido com medo de dois dos quatro filhos. Os jovens, de 29 e 21 anos, são usuários de drogas e, desempregados, passaram a furtar os próprios pais para sustentar o vício em crack e cocaína. O sofrimento na família já dura anos, mas se agravou nos últimos seis meses. “Eles estão acabando com tudo dentro de casa. Não gosto nem de olhar na cara deles. Tenho dó e medo. Eu não desejo o que estou passando nem para um cachorro sarnento”, disse a mãe, aos prantos.
Depois de ver os filhos levando dinheiro, roupas, celular, rádio, bicicleta e até facas da casa, Maria decidiu acorrentar os móveis e manter seu quarto trancado para evitar que eles tenham acesso aos seus pertences. Ainda assim, já arrombaram os cadeados e furtaram objetos enquanto os pais estavam ausentes, trabalhando.
Os armários da cozinha estão vazios. No guarda-roupas, pratos, talheres, louças, produtos de limpeza e até o microondas com um ano de uso se misturam aos lençóis e travesseiros. Embaixo da cama ou dentro de malas e caixas, estão panelas e outros utensílios de dona Maria. Este quarto permanece com a porta trancada o dia inteiro. Até garrafas de refrigerante retornáveis ficam fechadas dentro da casa. “Meu marido tinha guardado o dinheirinho dele, cerca de R$ 400, para fazer a compra. Quando foi ver, não estava mais lá”.
No quarto do outro filho do casal, que não é drogado, uma corrente fechada com cadeado protege duas portas do armário onde estão as roupas que sobraram. “Eles levaram muitas coisas dele. Ele vai se casar e tinha um cofrinho cheio de moedas, mas eles pegaram também. Agora meu filho levou metade das coisas dele para a casa da noiva, com medo dos irmãos”.
O rapaz de 21 anos dormia num dos dois quartos da residência dos pais, mas, insegura, Maria o obriga a passar as noites no cômodo dos fundos. Ela teme que a casa seja depenada enquanto dorme. “Eu não tenho confiança de deixar ele dormindo aqui dentro”. Até alguns meses atrás, o local era a moradia do outro filho do casal, que é casado. Mas como também foi vítima dos furtos dos irmãos, mudou de casa. “Não fiz nenhum boletim. Ontem chamei a polícia, mas falaram que eles não podem fazer nada porque estão roubando coisas na casa deles”. Maria se sente impotente. “Minha vida é chorar. Não sei o que fazer”.
Ontem, ela e o caçula viajariam para Ribeirão Preto para tentar internação numa clínica para dependentes químicos. Essa é a segunda vez que o jovem irá se tratar. Não há perspectiva de resolver a situação do mais velho. “Ele está chegando ao fundo do poço. Tem hora que quer ajuda, tem hora que não”.
O coordenador do Narev (Núcleo de Apoio e Recuperação da Vida), Jorge Martins, disse que a entidade conseguiria vagas para atender os jovens, mas o primeiro passo é aceitarem o tratamento. “A pessoa tem que querer. A alternativa seria uma clínica de contenção, com permanência obrigatória, mas na região não existe esse tipo de trabalho e, onde há, o custo é elevado”.
<b>Ouça aqui o desabafo da mãe em entrevista à Nelise Luques, apresentado por Fernanda Bufoni:</b>
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<b>MEDIDA PALIATIVA</b>
Michelle Pinheiro, psicóloga especialista em dependências, abusos e compulsões, disse que não há como convencer os dependentes a se tratarem. Mas a própria família pode procurar ajuda. As fazendas de recuperação existentes na cidade fazem reuniões com familiares de dependentes.
Os encontros promovidos pelo Narev com esse público acontecem às quartas-feiras, às 20 horas, na sede da entidade (em frente ao Póli). Por semana, cerca de 40 pessoas têm acompanhado as reuniões. Os parentes ainda podem procurar tratamento sem internação na rede pública.
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