<p>Maria de Lourdes da Silva Panice, 75, arriscou as primeiras costuras ainda menina. Aos sete anos tentou fazer uma roupa com o tecido que o irmão havia ganhado. Apanhou do pai por ter danificado o material. Mas não desistiu. Inspirada na avó e na mãe, que sempre costuraram as roupas da família, quis se tornar costureira. E realizou o sonho. </p>
<p><br />Depois de muitos anos de trabalho na roça, trocou os animais e plantação pela linha, agulha e os brilhantes cristais swarovski - seus preferidos. Matriarca da Lourdes & Dita Noivas, ela se orgulha da profissão que aprendeu sozinha. Costura e borda roupas para noivas há 38 anos. </p>
<p><br />O pai dela era lavrador e a mãe, dona de casa. Não tinham condições de pagar um curso profissionalizante para ela, a quarta de dez filhos. Lourdes é autodidata. Aprendeu sozinha a costurar e bordar os trabalhosos vestidos de noivas e damas, além de ternos. Estudou até a 2ª série. Parou para se dedicar às costuras. Aos 12 anos já fazia roupas para conhecidos. </p>
<p><br />Por sugestão dos amigos que reconheceram seu talento, começou a se dedicar ainda mais. Sem dinheiro, as primeiras peças que alugava eram um vestido e um terno doados a ela por uma parente que havia se casado. Com o que ganhava com as locações, comprava tecidos e confeccionava novas peças. Para costurar, utilizava as máquinas doadas por conhecidos. Os negócios expandiram. Suas três filhas - Maria Aparecida, Maria Madalena e Benedita de Fátima (Dita) - trabalham com ela. </p>
<p>A família tem hoje quatro lojas no ramo de casamento e festas. Dos 15 funcionários, nove são familiares. Para Lourdes, isso é muito positivo. “O amor e comprometimento são maiores quando se trabalha em família”. O segmento é próspero. Já chegaram a vestir 40 noivas num único fim de semana. E a tradição e o capricho são valorizados: a locação de um vestido de noiva pode custar até R$ 3 mil. </p>
<p><br />Lourdes diz que tenta diminuir o ritmo de trabalho, mas ainda costura e borda as peças confeccionadas pela Lourdes & Dita. Dependendo do volume de serviço, trabalha até três horas da madrugada no ateliê, montado em sua casa, na Vila Santa Cruz. E não tem intenção de parar de trabalhar. “Vou continuar até quando Deus me der forças. Não consigo ficar parada”. </p>
<p><br />Ela e as filhas mantêm um trabalho social. Quando as clientes não têm condições de pagar pela roupa, ganham a locação. Por essa iniciativa, Lourdes sempre vive momentos emocionantes em sua profissão. Em 40 anos lidando com noivas, a costureira coleciona muitas histórias e apuros também. O maior deles foi quando foi passar e queimou a frente do vestido da amiga, que estava com o cabelo arrumado, maquiagem feita e só precisava se vestir para seguir para a igreja. </p>
<p>Lourdes manteve um autocontrole e conseguiu “reformar” o vestido a tempo. Só depois ela chorou. E só agora conta essa história para o público, inclusive a própria noiva. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - A senhora trabalha com noivas desde quando?<br />Maria de Lourdes -</strong> Faz muito tempo. Que eu mexo só com noivas faz 38 anos. Eu costurava muito. Já trabalhei muito na roça também, mas depois parei e comecei a costurar. Aí fui fazendo vestido, aprendendo a fazer vestido de dama, mexendo com terno, fazendo blazer para os noivos casarem, para os padrinhos. Depois meus amigos falaram para eu trabalhar com noivas, mas eu falava: “eu não tenho força para isso, não tenho dinheiro para comprar os materiais nem as roupas”. Aí uma sobrinha minha, a Lúcia Panice, casou-se e prometeu me dar o vestido que ela usou e o terno do marido para eu começar a alugar. Ela falou para eu alugar e guardar o dinheiro do aluguel. Eu fiz isso e fui comprando tecido com o dinheiro que recebia e fazendo vestidos. Até chegar na situação que está hoje, graças a Deus. Foi com muito custo mesmo, muito sofrer, mas eu consegui. E agora estão minhas filhas onde estão. Hoje já tenho minhas netas trabalhando conosco e minha bisneta de seis anos já desfila para mim. </p>
<p><strong>Comércio - Na fazenda, trabalhava em que áreas?<br />Lourdes -</strong> Capinava, arrancava tocos, juntava pedra, batia arroz, colhia feijão. Comecei a trabalhar com meu pai, aos sete anos, puxando animal para ele trabalhar. Era uma criança. Trabalhei de doméstica nas casas também. </p>
<p><strong>Comércio - Como surgiu a costura?<br />Lourdes -</strong> Eu sempre gostei de costurar. Quando eu tinha sete anos meu irmão ganhou um tecido e eu peguei e cortei e falei que ia fazer a camisa para ele. Apanhei bastante porque eu cortei o pano. Minha mãe chorou, meu pai me bateu. Mas eu queria costurar. Aí eu comecei. Uma tia minha sugeriu que eu descosturasse uma calça velha e uma camisa e costurasse de novo para aprender. Ela falava que eu tinha dom para isso, mas que minha mãe não tinha condição de me fazer uma pessoa especializada. Aquela camisa e calça eu descosturei e costurei várias vezes. Fazia na “maquininha” velha da minha mãe, que era manual. Eu comecei a pedir para as pessoas comprarem o pano para eu fazer roupas. Com 12 anos eu já peguei roupa dos outros para costurar e hoje, graças a Deus, com muita honra e sofrimento, estou onde eu estou. </p>
<p><strong>Comércio - Quando montou a primeira loja?<br />Lourdes -</strong> Eu costurava em casa. Comecei devagar, costurando para a família. Os vestidos das minhas irmãs eu que fazia. No começo ficava eu, minha sobrinha, minha cunhada e uma mocinha que mora aqui perto. Nós ficávamos até três horas da manhã arrumando vestidos. </p>
<p><strong>Comércio - Quantas lojas a senhora tem hoje?<br />Lourdes -</strong> Minha família tem a loja dos noivos, das noivas, damas e madrinhas, que é da minha filha sozinha. Comércio - A senhora fez algum curso?<br />Lourdes - Não. Aprendi sozinha. Eu tenho certeza que é Deus, Nossa Senhora e minha grande força que ajudaram tudo isso a acontecer na minha vida. Era meu sonho. Quando eu tinha 14 anos fiz um voto para Deus que o primeiro vestido de noiva que aparecesse para eu fazer eu não cobraria nada. </p>
<p><strong>Comércio - Como que é ver as filhas seguindo a mesma profissão?<br />Lourdes -</strong> Plantar eu plantei, agora falta elas colherem e tocarem o barco para frente. Eu tenho muito orgulho delas. Eu não tenho palavras. Só dizer muito obrigado. Elas poderiam ser qualquer outra coisa. Mas eu tenho certeza que as mesmas coisas boas que sinto de ver a pessoa sair bem arrumada por mim elas sentem. Ficam todas felizes também. </p>
<p><strong>Comércio - Quem fez o vestido de casamento da senhora?<br />Lourdes -</strong> Minha mãe. Eu ia fazer 16 anos quando me casei. Meu vestido era de manga fofa, decote redondo e bem franzido, branquinho. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora chega a ficar quatro meses bordando o mesmo vestido. O que esse trabalho exige?<br />Lourdes -</strong> Primeiro tem que cortar, montar e provar na noiva. Aí começamos a bordar o vestido ou as rendas para depois aplicar no vestido. O segredo é a mente, a boa vontade. Tem que ter muita paciência para não ficar nervosa. Antes de começar a trabalhar eu já falo: “Deus na frente, Pai na guia, eu sigo com Deus e a Virgem Maria”. Depois faço o nome do Pai. Isso eu nunca esqueci de fazer. </p>
<p><strong>Comércio - Qual a sensação de ver a noiva pronta?<br />Lourdes -</strong> A sensação é muito boa. Eu não acredito que fui eu que fiz aquilo. Até hoje tenho esse sentimento. Fico muito feliz. Tenho orgulho em ver meu trabalho, em ver as noivas saírem de carro daqui para a igreja (...). </p>
<p><strong>Comércio - Já bordou quantos vestidos?<br />Lourdes -</strong> Nossa, menina, milhares (risos). Eu não sei. </p>
<p><strong>Comércio - Hoje, por mês, a senhora borda quantos?<br />Lourdes -</strong> Uns dez. Quando está apertado, eu deito 2h30, 3 horas. Minhas filhas ficam bravas. Mas eu penso nas noivas. Eu sou muito pontual com as minhas coisas. Eu gosto das coisas muito certas e feitas com paixão. Eu prefiro eu chorar a ver uma noiva chorar. Às vezes eu estou cansada, quero dormir, mas se eu não fizer, fico preocupada, tenho medo de não acabar em tempo. Se a noiva vier buscar e não estiver pronto o vestido, ela vai chorar. Sei que já trabalhei demais. Hoje estou trabalhando menos, mas não vou deixar de trabalhar porque eu não consigo ficar parada. </p>
<p><strong>Comércio - Como é ser uma profissional que lida com os sonhos das noivas?<br />Lourdes -</strong> É emocionante. É uma coisa que não sei explicar. </p>
<p><strong>Comércio - E por que costurar para noivas?<br />Lourdes -</strong> Eu sempre gostei dessa parte. Tinha as minhas bonecas, de sabugo de milho verde, e eu sempre fazia vestidinhos de noiva para elas usando pedaço de pano velho. É uma história muito bonita. </p>
<p><strong>Comércio - Tem alguma história que mais marcou essa profissão?<br />Lourdes -</strong> Tem muitas meninas que o pai está com derrame ou a mãe está doente e elas querem se vestir de noiva. Elas veem e olham os vestidos, acham lindo mas falam que não têm como usar. Eu deixo experimentar e empresto para usarem sem cobrar. Eu empresto o vestido, sapato e outros acessórios. Vai tudo. Dependendo até ganhamos o cabeleireiro para arrumar as meninas. Aí é uma emoção. Chora a mãe, chora o pai, choramos nós todas. Pode ser vestido novo, que está na caixa, que emprestamos. Não é porquê é doado que tem de ser usado. Elas escolhem o que elas gostaram. Fazemos doações nos cursos de noivos nas igrejas também. Falo nas igrejas e nos cartórios para quem precisar de um vestido, um terno, uma roupa de madrinha ou de dama e não puder pagar, procurar a gente. Vão ser vestidos da mesma forma daquele que está pagando R$ 3 mil. Eu gosto assim. Em troca eu só quero que a pessoa reze por mim. Enquanto eu tiver vida, eu quero fazer isso e quero que minhas filhas façam o mesmo. </p>
<p><strong>Comércio - Quanto custam os aluguéis?<br />Lourdes -</strong> Vão de R$ 300 a R$ 3 mil, dependendo do tecido, do bordado, do modelo e se é primeiro aluguel ou não. </p>
<p><strong>Comércio - Já passou algum apuro?<br />Lourdes -</strong> (risos) O maior apuro do mundo que eu passei foi com uma amiga minha. Nem me lembro do nome dela. Ela trouxe o vestido dela de São Paulo para eu passar. Na hora eu fui com o ferro, mas esquentou demais e quando eu fui passar a parte da frente um pedaço do vestido saiu grudado no ferro. Eu falei para Deus e Nossa Senhora me ajudarem porque eu não tinha aquele pano. Ela estava maquiada, quase pronta. Só faltava o vestido. O vestido tinha aquelas mangas grandes e eu resolvi tirar o pedaço de uma e da outra e costurei rapidinho e apliquei com cola uns bordados. E arrumei a tempo. Depois eu chorei bastante. Eu fiquei muito nervosa. Até hoje ela não sabe da história. </p>
<p><strong>Comércio - Qual a noiva mais linda que a senhora arrumou?<br />Lourdes -</strong> A minha neta, a Nizilane. O vestido dela foi a coisa mais linda, marfim, com uma cauda muito bonita. Eu fiz. Fui madrinha. </p>
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