Isso aqui me faz falta!


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Pronto. Virei francana outra vez. Pés no chão, coração carregadinho de saudade que vou matando aos poucos. Reencontro familiares, amigos, a própria casa - palco de particular, exclusivo e singular espetáculo no qual sou atriz, autora, espectadora e crítica. Voltei. De início a sensação de estranheza, em seguida a curiosidade sobre os acontecimentos da ausência. Embora acompanhe as notícias online nestes tempos modernos de internet, há ocorrências e episódios que a família esconde, alegando poupar quem está longe e sem condição de ajudar. Ou palpitar. Ou, no meu caso, de me intrometer. Fico emocionada ao ver a cidade lá de cima do morro, ao chegar. É como voltar ao berço. É como reentrar no mundo real, depois de longo sono. É acordar, sem noção ainda do que é palpável e qual a extensão da fantasia vivida. Lembro de uma particular passagem bíblica na qual o viajante, ao voltar, encontra sua circunstância e pessoas totalmente mudadas, irreconhecíveis, enquanto ele permanece o mesmo, sem alterações físicas. Lembro, para comparar com meus sentimentos do momento. Se tudo está praticamente igual, eu estou absolutamente diferente. E, nesse processo de comparar o que deixei com o que encontro, vou compreendendo o privilégio de sair do particular e entrar em contato com o geral, prerrogativa e benefício facultados por viagens - pequenas ou longas. É uma cadeia, uma série, uma sucessão de ações (com infinitas variáveis): você sai, entra em contato com coisas diferentes, percebe, compara, avalia, modifica seu comportamento anterior, submete-se às críticas e avaliações, transforma-se. Quando a gente sai - sai mesmo, fecha a porta e guarda a chave - quando volta, não volta o mesmo. Ocorre em nós alguma alteração, por pequena que seja, que nos modifica interiormente. Visível aos olhos alheios, ou não... Volto e reencontro pendengas antigas na cidade: permissão ou impedimento para colocação de cadeiras e mesas dos bares nas calçadas; poluição do espaço aéreo urbano; excesso de velocidade nas ruas e avenidas; multas de trânsito; crise no setor calçadista. Volto e encontro no País, no plano federal, aquelas mesmas indecências - houvesse controle eficiente de nível de pornografia nas notícias de jornais e revistas envolvendo políticos e política, pouca coisa seria publicada. Por exemplo, uma foto do Sarney ao lado de Lula e Collor: uma criança, um jovem pode ver isso? Como um adulto consegue explicar tal libidinagem, sem afetar a integridade daqueles seres em formação? (Volto e, no retorno, já começo implicar.) No Hemisfério Norte (localização dos países ricos) está começando a Primavera. Isso significa flores, sol (que eles não têm todos os dias do resto do ano), mesas nas calçadas, pessoas sentadas nas mesas dos bares, parques com grama limpa e sem vestígios dos cachorros que passaram por lá, claridade que prolonga o dia até mais tarde. Uma festa! No Hemisfério Sul (metade onde, tirando o Chile e até a Argentina, todos os outros são pobres ou remediados) o Verão continua, embora o calendário marque Outono. Fico pensando: não dá para aprender a utilizar espaço público - aéreo ou térreo - com quem é rico? Fazer uma conta de chegar, sem truculência, sem constrangimento, sem uso da insegurança alheia como meio para um determinado fim, mesmo considerado coletivo? Determinar espaços para pedestres, determinar extensão para clientes dos bares, salvaguardar integridade física de uns e outros e cada parte cumprir fielmente as determinações, não dá? Isso lá fora se chama conciliação, vida comunitária, respeito. (Tá vendo? Volto e já começo a implicar.) Sinto falta de um monte de coisas. Inclusão social, acolhimento das minorias, por exemplo; não ver jogar resíduos nas ruas; preocupação com a separação doméstica de lixo; reciclagem; respeito - filas, altura do som nos carros, sinais de trânsito; a lista é extensa. Mas já desfruto do canto dos sabiás na minha janela, do cheiro das minhas flores, do som das risadas das minhas netas e do calor do abraço dos amigos... e concluo que, sim, isso sim me faz falta. Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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