Uma escravidão diferente


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A escravidão foi abolida oficialmente no Brasil com a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Ainda assim, o trabalho compulsório e mesmo o tráfico de pessoas continuam existindo até hoje no País. Claro que não está da maneira como ocorreu por mais de 350 anos nesta terra tupiniquim. Durante a época colonial e imperial, o Brasil usou abertamente a mão-de-obra escrava. A condenável atitude foi concebida pela metrópole portuguesa e contava com apoio da igreja católica. O comércio de pessoas dependia da vontade do governo e o clero era o quase cérebro da administração pública, nesse tempo. Agora, nesta era republicana, o trabalho escravo também não deixa de estar atrelado à vontade política. Ou alguém imagina que por trás da migração, em busca de serviço na lavoura, não esteja a mão da pouca instrução escolar? Mesmo a garota esguia, que queria ser modelo e acabou na prostituição, muitas vezes foi levada a isso pela falta de melhor preparo intelectual. A técnica é antiga. O recrutador vai a uma região pobre, geralmente nordestina. Oferece serviço rural. Transporta o trabalhador. Chegando à fazenda, este é obrigado a comprar ferramentas do próprio patrão. Já começa a dever, antes de ganhar. A alimentação também vai sendo anotada. O preço pode chegar ao triplo do valor de mercado. Em pouco tempo, o salário não cobre a dívida. Sem saída, o escravo moderno vai ficando. O alojamento tem alto custo e as condições de higiene são as piores possíveis. Se pensa em partir, o patrão não deixa. Faz até ameaças. A dívida cresce sem parar. Por qualquer tentativa de fuga, recebe represálias. Agressões e castigos são comuns. O trabalho só aumenta. O ciclo para a exploração da mão-de-obra escrava funciona nesses moldes. Uma escravidão diferente também se faz presente neste tempo de ganância e glamour. O golpe é dos mais manjados. O aliciador promove um concurso de beleza. Geralmente no Interior. As garotas mais belas são convidadas para seguir a carreira de modelo. Muitas mães até acompanham as beldades à Capital e as incentivam no preparo da documentação de viagem ao exterior. Depois, sozinhas, já em outros países, as desarvoradas e magras meninas recebem a notícia de que estão devendo passagens, alimentação e alojamento. Para piorar a situação, o desfile vai demorar algum tempo. Em sendo assim, antes devem atender alguns donos de redes de loja de forma bem íntima. Na maioria das vezes, o processo de escravidão sexual começa assim. A falta de liberdade para se fazer o que se quer, principalmente profissionalmente e ter um salário digno, depende muito do preparo educacional. Se até nas regiões mais ricas, o modelo educativo visa tão somente formar pessoas pouco voltadas para a reflexão, o que esperar então de locais onde a renda maior dos moradores acaba sendo a Bolsa Família? Apesar de a vontade oficial demonstrar sempre preferência por um povo propenso à escravidão, só resta a este mesmo povo buscar dentro de si a força capaz de mudar isso tudo. Nunca será tarde. A própria história africana demonstra que os descendentes de escravos espalhados por toda a América estão hoje em melhores condições de vida, que os atuais habitantes da África. Quem sabe, possa então florir, deste semiescravo atual, um trabalhador com mais dignidade! Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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