Retomar a doce rotina...


| Tempo de leitura: 5 min
Hoje saí de casa, peguei o W14 - ônibus que me deixa do lado da estação South Woodford, da Central Line. Observei se pegara a direção correta, iria até a Picadilly Road, no Centro de Londres, ver novamente na Royal Academy of Arts a exposição do Kuniyoshi, por cuja obra me apaixonei. Troquei de linha em Holborn, estação do British Museum. Desci na praça da estátua de Eros, naquele cruzamento que aparece em todas as fotos que mostram esta capital. Quando subia as imensas e compridas escadas rolantes, segundo lance, dei com um senhor fazendo busking, tocando no violão a doce melodia de Sons de Carrilhões, uma música brasileira que não ouvia aí no Brasil há muito tempo e que nunca imaginei que pudesse ouvir um dia em terras londrinas. Comprovei mais uma vez que tudo é possível nesse mundo. Fui lentamente subindo, o som se distanciando. Subitamente entendi: estava dizendo good bye, so long ou farewell... A cena toda me cheirava despedida. Era fim de filme, era hora de começar a chorar. Há anos tenho vivido parecendo um elástico, um ioiô maluco, sem lugar fixo no mundo. Estando aqui, sinto falta daí. Estando aí, sinto saudade daqui... Ao vir, deixo. Ao voltar, deixo. Vindo, deixo para trás amores, casa, amigos, trabalho, cotidiano. Voltando, deixo amores, coisas, amigos, trabalheira e até uma certa rotina... (Mas era exatamente o que sempre sonhei, pensei. Desapegar-me, ficar livre, inventar espaços, administrar o imponderável, o inusitado, o não esperado. Não contava, nessas abstrações, do envolvimento com pessoas as quais me recuso inutilmente deixar. Essa é a parte dura da situação). Fui sendo transportada pela escada rolante morro acima, a música desaparecendo e as cenas do que vou deixar passando numa velocidade incrível na minha memória. Deixo amigos aqui e suas incríveis histórias de vida, alguns que dividiram casa comigo; a vizinha da Guiana Inglesa, que me convida para um chá toda vez que me encontra; minha amiga muçulmana, amorosa e doce; senhoras e senhores que habitualmente pegam o W14 para irem ao Asda, imenso supermercado, mais barato que o Tesco, o Waitrose, o Sansbury’s (“Try something new today!”) e o Mark & Spencer cuja comida não é “Just a food, is a M&S food”. (Programa de pessoas mais velhas, no terceiro ou no primeiro mundo é fazer pesquisa de mercado, analisar o que é mais barato e sair comprando uma coisinha aqui, outra ali, para passar o tempo...). Sentirei falta do I’m sorry! Toda vez que alguém me esbarrar. Do please! terminando qualquer frase. Estranharei quando for pagar alguma coisa. Aqui, a transação - cents ou milhões, na Harrod’s ou na feirinha de verduras do caminhãozinho - segue um ritual: depois da maquininha acusar o total, o caixa lhe apresenta o montante a ser pago, dizendo “são tantos pounds, please!”; você conta notas e moedas, entrega nas mãos do caixa. Ele confere e lhe devolve o troco também nas mãos, invariavelmente dizendo “Your change and your receipt”. “Have a nice day!”. Você responde “Thank you!” e vai embora. Voltarei à rotina da maquininha dar o total, o caixa perguntar: “Vai dar um chequinho pré?” ou então, prestando atenção sei lá onde ou conversando com alguém ao lado como se você não existisse, ficar esperando que você largue o dinheiro sobre o balcão. Sentirei falta da sensação de segurança dia ou noite; dos portões baixos em muitas das casas; dos piqueniques aos domingos ensolarados nos parques; de me sentir na Torre de Babel; da delicadeza das pessoas quando, ao descer dos ônibus, dizem “Thank you!” aos motoristas; do preço acessível das roupas; da possibilidade de qualidade na alimentação - comida (e da boa!) aqui tem preço baixo -, caro e moradia. Vou perder a oportunidade de cruzar nas ruas com Jeremy Irons, os Fiennes, Colin Firth e até com Paul McCartney... Não vou contribuir com a nova campanha do “Let’s put trees back on our streets”. Não mais flores tão variadas, inimagináveis. Não mais colorido da Primavera. Não mais bizarrices... Em compensação, retomar a doce rotina de marido, filhos, netas, amigos, comadres, compadres, casa, terapia, natação, passeios, jantar aqui, jantar ali, um convite para um rancho no final de semana, na Serra da Canastra, de repente, São Paulo, Rio de Janeiro, meus filmes, meus discos, meus livros... Quem disse que o previsível não tem seu lado agradável? BELEZA A poesia diz “que não há, ó gente, ó não!, Luar como aquele do sertão”. Pois não há, “ó gente”, céu mais bonito que o de Franca quando começa ou quando termina o dia, nesta época do ano, quando o outono e o inverno se aproximam e se reencontram. Dá saudade, mesmo estando em frente ao Castelo de Buckingham, no St. James Park... SOMBRINHAS Perguntaram-me se as mulheres nobres inglesas usam para enfrentar o sol aquela sombrinha pequena que Camilla Parker usou no Brasil recentemente, motivo de chacota por parte de jornalista brasileiro. Não respondi, porque não sabia. Hoje vi numa revista a foto de uma inglesa usando uma peça semelhante num casamento chiquérrimo, nobre, of course! A pobreza brasileira não conhece essas finezas, motivo pelo qual se ri delas. ASPAS “Todas as pessoas são capazes de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado seus êxitos exige muita magnitude”.(Oscar Wilde) FILMES Para rever: Elizabeth I e Elizabeth: The Golden Age (ambos com Cate Blanchett) para saber mais sobre a Rainha Virgem. Mrs. Brown, com Dame Judi Dench, para saber da Rainha Victoria. E The Queen, com Dame Helen Mirren, para mais uma vez admirar a coragem, a fleugma, a inteligência, a delicadeza da Rainha Elizabeth II. Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários