Como disse Robert Musil, em O Homem sem Qualidades, “Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem”.
Sempre. Principalmente para os brasileiros. Dia desses o preço do álcool estava quase bom, acessível e, repentinamente, num átimo, foi às alturas.
Quero transcrever aqui, algumas frases de nossos ilustres representantes, aqueles senhores que são eleitos pelo voto de toda a população. Mas, antes de transcrevê-las, faço uma ressalva: eleger político é igual a casamento. Você não se casa só com seu cônjuge, casa-se com a sogra, com o sogro, com o cunhado, com a família toda.
Aliás, é preciso lembrar sempre que nesse “casamento” espúrio entre os políticos e o que é de todo o povo brasileiro, as eleições se prestam a outorgar ao mandatário o direito de oferecer um cargo de altíssima confiança (diga-se, muito dinheiro) – como é o caso da estatal do petróleo –, a quem vai fazer exatamente o que ele e a cúpula quiserem que faça; ainda que em público as declarações sejam contrárias a isso.
Mas vamos às frases de efeito – ou de defeito, como queiram.
“Estamos em um processo de recuperação de perdas. Esta recuperação será demorada, mantidos os atuais parâmetros”, José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás. “Não há esse posicionamento da Petrobrás”, Dilma Roussef, no dia seguinte, desmentindo o presidente da estatal.
Dilma, que também é presidente do Conselho da Petrobrás, negou que a empresa esteja mantendo os preços elevados com o objetivo de recuperar perdas.
“A diferença de preços no Brasil está na casa dos 59% para a gasolina e 40% para o diesel acima da média mundial”, Nelson Rodrigues de Mattos, do Banco do Brasil Investimentos (BBI). “Não vendemos combustíveis para caminhoneiros, mas sim para as distribuidoras”, José Sérgio Gabrielli, já citado. “Se alguém quiser gasolina por um preço melhor, vá comprar lá fora!”, de novo, José Sérgio Gabrielli.
“Não dá pra baixar os preços dos combustíveis porque a Petrobrás contribui muito com o superávit primário do governo”, presidente Lula. “A Petrobrás deixa de contribuir para o superávit primário do governo federal a partir de hoje”, Paulo Bernardo, Ministro do Planejamento.
“A Petrobrás não sofre pressão alguma”, de novo, José Sérgio Gabrielli, sobre a pressão dos caminhoneiros para baixar o preço do diesel, em 15 de abril. “Os interesses dos acionistas da Petrobrás estão sempre em primeiro lugar”, ele, de novo, em 17/04/2009.
Tem muito mais. Acesse http://petrobras-petrobras.blogspot.com/.
Veja essa: “Lula mandou o Banco Central dar uma queimada nas reservas cambiais para baixar a cotação do dólar, de forma consistente, injetando moeda norte-americana no mercado interno”. Por que será?
Encerro com Elisa Lucinda e um trecho de seu poema Só de sacanagem: “Só de sacanagem, dirão: / ‘Deixa de ser boba, / desde Cabral que aqui todo mundo rouba’ / e vou dizer: ‘Não importa, / será esse o meu carnaval, / vou confiar mais e outra vez. / Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, / vamos pagar limpo a quem a gente deve / e receber limpo do nosso freguês. / Com o tempo a gente consegue / ser livre, ético e o escambau. (...) / Sei que não dá para mudar o começo / mas, se a gente quiser, / vai dar para mudar o final’”.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Advogada formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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