<p>Aos 61 anos, completados no dia 1º de abril, Bárbara Porfírio dos Santos José dá os primeiros passos para recomeçar sua vida. A senhora foi atacada por um pitbull há três meses ao tentar salvar uma mulher grávida da fúria do animal. O ataque ocorreu no dia 26 de janeiro deste ano, por volta das 7 horas, na Vila Aparecida. Minutos após o acidente, Bárbara enfrentou seis horas de cirurgia no rosto e no braço, pois os tendões se romperam com as mordidas do cachorro. </p>
<p>Ela recebeu alta três dias depois. Traumatizada, permaneceu praticamente uma semana sem conversar. Em casa, ficou um mês e meio presa a uma cama, à base de remédios, alimentando-se apenas com sopa e dependendo de ajuda até para ir ao banheiro.</p>
<p><br />No dia do ataque, ela seguia para o trabalho na Escola “Capitão Lacerda”, a pé, num caminho diferente do que estava acostumada a fazer. No meio do trajeto, ouviu pedidos de socorro e viu a vítima (dona do animal) sendo atacada. Agiu no impulso. Pegou a sombrinha de uma mulher que estava na rua e partiu para cima da fera. Levou uma mordida na mão. Ao correr do cachorro, tropeçou no bueiro e caiu no chão. Virou alvo fácil para o animal. “Não me lembro do que aconteceu depois que caí”. O cão já havia atacado uma jovem de 22 anos e depois partira para cima da dona, que estava grávida de oito meses. Com Bárbara, foram três vítimas no mesmo dia.</p>
<p><br />Familiares foram avisados pela Santa Casa que Bárbara havia sido atacada. A princípio, as filhas pensaram que havia sido apenas uma mordida na perna e a mãe logo seria liberada. No hospital, o susto e o desespero. Foram informadas pelo médico que a senhora estava passando por cirurgia e que era melhor não vê-la, pois estava muito ferida, com o rosto desfigurado. A filha caçula Raquel Veronez, 30, não se esquece dos ferimentos na face de sua mãe e os braços enfaixados quando a encontrou no quarto do hospital. Ela diz que nunca havia se sentido tão impotente.</p>
<p><br />Bárbara foi gravemente ferida no rosto e nos braços. Ela chegou a pedir aos filhos para retirar os espelhos da casa porque passou mal quando viu as marcas das mordidas do pitbull em sua face. Diz que teve medo de morrer e convive agora com as sequelas, como a perda dos movimentos do dedo anelar da mão direita e problemas de visão. A vida dela e da família se transformou após o acidente. A filha caçula Raquel, seu marido e o casal de filhos se mudaram para a casa de Bárbara, na Vila Imperador, para ajudar nos cuidados com sua saúde.</p>
<p><br />Agora, aos poucos, está conseguindo reorganizar sua vida. No dia 5 de abril, voltou a trabalhar como auxiliar de limpeza na escola. Também já consegue cuidar dos afazeres domésticos. A mulher diz que tem trauma de encontrar com cachorros e que, se deparasse com outro ataque, não socorreria a vítima novamente. A senhora disse também que se o animal não estivesse morto, ela faria justiça com as próprias mãos e daria veneno para o pitbull para matá-lo. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como foi o tratamento desde que a senhora foi atacada?<br />Bárbara Porfírio -</strong> O tratamento foi ótimo. As enfermeiras e médicos foram muito bons. Minhas filhas me ajudaram muito também. Elas davam comida na minha boca porque eu estava toda enfaixada. Durante quase dois meses eu só comia sopa e pelo lado esquerdo da boca porque no outro lado, onde fui mordida, não consigo. Minhas filhas que me levavam no banheiro. Eu só sei que passei uma vida muito difícil. Ficava deitada o tempo todo. Quando não era na minha cama, era no sofá. Um tanto de gente veio me visitar. Minhas ex-patroas ficaram assustadas e nem acreditavam que era eu que tinha passado por tudo isso. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora foi ferida em que partes do corpo?<br />Bárbara -</strong> O lado direto, perto da boca, os braços direito e esquerdo e as mãos. Um dos meus dedos não recupera mais o movimento porque afetou o tendão. </p>
<p><strong>Comércio - Quanto tempo ficou acamada?<br />Bárbara -</strong> Na Santa Casa eu fiquei três dias desacordada. Os outros conversavam comigo e eu respondia com a cabeça, mas não estava vendo nada. Depois de uma semana aqui em casa é que fui me controlando e voltando a ficar normal, mas tudo muito devagar. Eu conversava muito pouco porque eu não tinha vontade de falar. Não era porque eu estava sentindo dor. O médico até falou que iam doer muito os machucados, mas não doeu tanto. Acho que foi porque o povo rezou muito por mim. </p>
<p><strong>Comércio - Como fica o tratamento da senhora daqui em diante?<br />Bárbara -</strong> Agora eu terei de fazer outra operação na boca porque no dia eu cheguei toda rasgada ao hospital e o médico apavorou e costurou o nervo junto. Não podia. Até agosto eu ficarei assim e se não melhorar, a médica vai me dar uma guia para eu ir para Ribeirão Preto fazer uma plástica. A visão do olho direito também ficou ruim. Talvez terei de operar também. </p>
<p><strong>Comércio - Como era a vida da senhora antes de ser atacada pelo pitbull?<br />Bárbara -</strong> A minha vida era muito agitada. Eu levantava às 5 horas da manhã, arrumava minha casa e depois ia para meu serviço. Trabalho na Escola “Capitão Lacerda”. Lavo banheiro e limpo as classes lá. Eu ficava até três e meia da tarde na escola e depois cuidava da minha casa. Antes desse emprego eu fazia faxinas e depois consegui vaga na escola na parte da limpeza e parei. Eu trabalhei minha vida toda, nunca fiquei parada. </p>
<p><strong>Comércio - De repente, a senhora se viu presa a uma cama, dependendo de ajuda até para ir ao banheiro. Como foi essa mudança?<br />Bárbara -</strong> Fazer o quê? Depois que aconteceu eu não tinha o que mudar. Pedia para Deus me ajudar. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora pediu para seus filhos retirarem todos os espelhos da casa depois do acidente. Por quê?<br />Bárbara -</strong> Eu não queria me ver nos espelhos porque meu rosto estava muito feio, inchado demais. Eu cheguei a me olhar e me sentir mal ao me ver daquele jeito. Ficou muito inchado. Eu me assustei. Aí eles tiraram os espelhos do guarda-roupas e do banheiro. Agora desinchou bem e eu já me olho. Fico aliviada por ter melhorado. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora teve medo de morrer?<br />Bárbara -</strong> Tive e muito. Assustei muito com o cachorro e fiquei muito machucada. Se o pitbull mordesse um pouco mais abaixo, no pescoço, teria pego uma veia e eu já era, teria morrido. Não me lembro de como foram as mordidas, mas ele deve ter me atacado e chacoalhado a cabeça. Deus permitiu que eu superasse tudo. </p>
<p><strong>Comércio - Ainda sente dores?<br />Bárbara -</strong> Quando eu voltei a trabalhar, no dia 5 de abril, eu achei que não iria aguentar de tanta dor nas pernas e no braço. Uso muito as mãos e o braço durante a faxina e sinto muita dor. Quando não dou conta de fazer com a mão direita, vou com a esquerda. </p>
<p><strong>Comércio - Do que a senhora se lembra do acidente?<br />Bárbara -</strong> O acidente aconteceu perto da Prefeitura. Quando estava indo para o serviço eu escutei os gritos da mulher falando “socorro, me acode”. Aí olhei a rua e vi o cachorro atacando ela (era a dona do animal, Cristiane Aparecida Rocha, 24, que estava grávida de oito meses). Peguei a sombrinha de uma mulher e fui para bater no cachorro. Para mim, era um vira-lata. Nem enxerguei que era pitbull. Quando sentei a sombrinha nele, ele mordeu minha mão esquerda. Aí eu corri e acho que tropecei no bueiro e caí no chão e não vi mais nada. Não sei o que aconteceu depois. Aí veio um tanto de gente para tentar salvar, mas não adiantou. Fiquei desacordada o tempo inteiro. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora sabia que tinha cachorro naquela casa?<br />Bárbara -</strong> Não sabia. Eu não fazia aquele trajeto. Neste dia fui de carona com meu filho, como sempre fazia, mas desci mais para cima que o normal. Era para acontecer tudo aquilo comigo. </p>
<p><strong>Comércio - O dono do cachorro deu algum tipo de amparo à senhora?<br />Bárbara -</strong> Nas duas primeiras receitas, ele me ajudou. Depois ele disse que não tinha dinheiro. Diz que ele foi lá na Santa Casa e disse que o cachorro me atacou porque eu bati nele, que a culpa era minha. Se ele viesse aqui e falasse isso a gente ia dar um “couro” nele. Eu gostaria que ele tivesse me ajudado mais, mas dizem que ele é mais pobre do que eu, paga aluguel e é separado da mulher. A delegada perguntou se eu queria fazer uma representação contra ele, mas eu não quis. Agora já passou. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora gastou muito com medicamentos?<br />Bárbara -</strong> Sim porque tinha de tomar remédio direto (antibiótico, analgésico e pomadas). E eu não consegui o afastamento do serviço do INSS, então estava sem receber. Fiquei sem ganhar dinheiro por dois meses e mais uns dias. Só tinha a aposentadoria. Agora volto a ter meu salário na escola, que é de mais ou menos R$ 400, e a ajudar meu marido e meu filho nas despesas da casa. </p>
<p><strong>Comércio - De onde veio a coragem para a senhora, que já tem 61 anos, partir para cima do animal enfurecido?<br />Bárbara -</strong> Não sei. Parece que é uma coisa dentro da gente. Não consigo entender. Na hora nem tive tempo de pensar, agi de imediato. Não enxerguei que ela estava grávida. Fui para socorrer mesmo. </p>
<p><strong>Comércio - O cachorro foi morto. Isso alivia a senhora?<br />Bárbara -</strong> Sim. Eu queria esse fim para ele. Tinha é que matar ele. Desde que aconteceu isso comigo, falei que era para matar. Pelo menos esse cachorro não morde nunca mais. Ele atacou uma moça, aí a dona foi socorrer e ele partiu para cima dela e depois para meu lado. Foram três vítimas. Comércio - Se ele não tivesse sido morto, a senhora faria justiça com as próprias mãos?<br />Bárbara - Faria. Eu ia matar ele. Uma hora eu colocaria uma bolinha de carne com veneno e, escondido dos outros, jogaria para ele comer. </p>
<p><strong>Comércio - A senhora acha que a raça deveria ser exterminada?<br />Bárbara -</strong> Acho que esse cachorro não podia existir dentro de casa. As pessoas que têm esse cachorro tinham de dar fim neles. </p>
<p><strong>Comércio - E o que os donos podem fazer para evitar ataques?<br />Bárbara -</strong> Esses cachorros não podem ficar soltos. É preciso ter mais cuidado com eles. </p>
<p><strong>Comércio - Qual a reação da senhora quando encontra algum cachorro?<br />Bárbara -</strong> Agora eu tenho medo de cachorro. Um homem veio com um cachorro na minha porta e na hora eu falei para darem um fim nele. Contei minha história para o dono, mas ele disse que estava com a coleira e se o cachorro avançasse ele puxaria e enforcaria ele para parar. Ele disse que morava perto da Sabesp. Eu dei graças a Deus que é longe da minha casa. Tenho medo de todos. </p>
<p><strong>Comércio - Como era o contato da senhora com animais antes do ataque?<br />Bárbara -</strong> Nunca gostei muito. Meu menino caçula já teve um cachorro, mas a gente deu para outra pessoa. </p>
<p><strong>Comércio - O que faria hoje se visse outra pessoa sendo atacada por cachorro?<br />Bárbara -</strong> Acho que eu não teria coragem de acudir. Vou lembrar do que o pitbull fez comigo e não vou de jeito nenhum.</p>
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