A cena tornou-se das mais rotineiras. Em praticamente todos os lugares de atendimento ao público, sempre há um microcomputador. O monitor do aparelho assemelha-se a um oráculo. Na maioria das vezes, diante dele, está uma pessoa em compenetração profunda. Normalmente com uma cara de gente inteligente, que não quer ser interrompida de maneira nenhuma.
Ninguém ousa fazer o menor ruído. Nem aquele característico limpar de garganta, para chamar a atenção, anunciando a chegada. Computador inspira respeito e silêncio. Do outro lado, quem opera a máquina insinua que precisa de total concentração. Não se digna a olhar para lado algum, que não seja a tela. Afinal, encontra-se numa conexão direta com tudo que há de melhor.
A situação fica difícil para quem chega. Por educação, aguarda o atendimento. O internauta continua firme na navegação. Na sua frente somente existe aquele oásis de informação. Até percebe a pessoa esperando. Mas finge que não vê e continua firme diante do monitor. De vez em quando digita numa tecla, para demonstrar toda sua sabedoria informatizada.
Nada escapa da informatização. Antigamente, o médico pelo menos olhava no paciente para perguntar o que sentia. Só depois anotava na ficha. Agora, não. Abre a página no monitor e passa a indagar sobre os sintomas. De olho na tela, simplesmente vai digitando. Por fim, prescreve o pedido de um exame. Imprime e entrega ao doente, com a recomendação de voltar quando estiver pronto.
Por sua vez, o laboratório ou clínica radiológica grava o resultado em um disquete. De volta ao consultório, o paciente novamente nem olhado é. O médico apenas insere a mídia no micro. Examina pelo monitor, por longos dois segundos. Exclama então: “Perfeito! Você não tem nada. Seus ossos estão sólidos. Sua urina, suas fezes e seu sangue estão no mais puro estado. Passar bem!”
Outra praga moderna também é o celular. Em qualquer parte, pode-se encontrar alguém em plena ação comunicativa. Quando não está numa interminável digitação, aparentemente das mais urgentes e produtivas, haja vista para as caras e bocas do usuário, sobra então uma fala importantíssima. Sim, por aquilo que se ouve de uma pessoa falando no aparelhinho, pode-se imaginar o rico diálogo.
A pergunta inicial nunca falha. Quem atende uma chamada pelo celular, começa seu monólogo sempre do mesmo jeito. Muda somente o espaço: “Estou na fila do banco, no caixa do supermercado, no ônibus, no médico, no varejão, na aula, na missa, no terreiro, no culto, na roça, na piscina, no banheiro, no bar, na rua, na esquina, na praça, no...”.
O engraçado e paradoxal disso tudo é que mesmo vivendo em uma época de pura e ágil informação, o desconhecimento campeia solto por todo lado. Parece que o excesso de informação, sempre ao alcance de um simples clique, torna as pessoas desinteressadas em armazenar conhecimento. Conta-se somente o desempenho para operar a parafernália eletrônica. Bagagem cultural está em baixa.
Pouca gente se dá ao trabalho de ler e anotar o entendimento. Ação por si só das mais geradoras de conhecimento. A maioria usa as mãos somente para digitar. Pegar um lápis ou uma caneta ficou fora de moda. Até mesmo os alunos já estão usando laptop em sala de aula, em algumas escolas!
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.