Ausência


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Falar em ausência traz logo à mente a falta de pessoas queridas, que remete à saudade, que, se é provisória, dá para suportar; se é para sempre, precisa ser superada. Uma das piores sensações é a de estar presente e ser dado como ausente, sentir que nossa presença é indesejada, principalmente quando quem nos quer longe é quem queremos agradar, ter por perto. Também ocorre de estarmos num lugar a contragosto. A presença não é nada sem o sentimento apropriado. A presença física, mas com o pensamento e os sentimentos ausentes, é ausência. Carro com o motorista falando ao celular, por exemplo, pode virar carro sem motorista. Da ausência nasce o vazio, o vão, o vácuo. Ausência é carência, falta, necessidade. Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, ao mesmo tempo. Lembro que alguém disse: “Mas se se enfia um prego numa tábua, por exemplo, são dois corpos no mesmo espaço”, ao que o professor esclareceu: “Não, onde o prego está não tem tábua, e vice-versa; a tábua circunda o prego, mas não está misturada a ele”. Acho que a mesma lei se aplica aos sentimentos. Não cabem dois no mesmo lugar e a um só tempo, salvo se forem da mesma natureza: amor e carinho, frustração e tristeza, etc. O silêncio é a ausência da palavra, e às vezes é bom. Se o que se vai falar não é mais precioso do que o silêncio: boca fechada. A presença precisa ser plena, pois do contrário vira ausência. É nos vãos das meias-verdades que se infiltra a mentira. O resultado indesejado, imprevisto, pode apresentar-se no espaço deixado pela falta de cuidado, de prevenção. É preciso dar sentido à nossa vida preenchendo-a com aquilo que é mais valioso, cuidando para não haver engano nessa valoração. Sempre que surge algum vazio que traz vulnerabilidade, é salutar ocupá-lo com bom conteúdo. Viver é cultivar, é cuidar. Rezamos e pedimos a Deus que não nos deixe cair em tentação e que nos livre do mal, mas isso depende muito mais de nós do que d’Ele. Muitos casamentos terminam porque, nalguma brecha fácil de ser fechada, entra a tentação de pular o muro. Deus não incentiva ninguém a isso, mas também não impede, e assim não é culpado se depois, arrependida diante das consequências, a pessoa sofre por descobrir que jogou fora o que tinha de mais precioso. O vácuo deixado pela falta de qualidades acaba tomado por defeitos. Mente vazia... já sabem. O que é que pode haver onde não tem bondade, escrúpulos, sensibilidade, decência, etc.? A desnutrição revela a ausência do alimento. O frio é a ausência do calor; a escuridão, ausência de luz; a insipidez é a falta do sabor. A doença instala-se no organismo desprotegido e expulsa a saúde, que pode nunca mais voltar. Falta de comando leva à falta de rumo. Na ausência do cônjuge entra o adultério. A falta de prudência do motorista abre-lhe as portas do cemitério. A presença do crime organizado ocupa a ausência do Estado. Prontos-socorros e postos de saúde nada são sem médicos e outros profissionais da área. Mas a ausência de algo nem sempre é a presença do seu oposto. Se não é herói, não precisa ser vilão. A ausência da saúde perfeita não precisa significar a morte. Muitos males podem ser controlados. Pode acontecer de nem tudo estar a gosto, mas, nem por isso, ser completamente ruim. A vida é mesmo assim. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida – paulopereiracosta@uol.com.br

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