Dentadura cariada


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Pouco antes de morrer o deputado federal Clodovil Hernandes concedeu entrevista a um programa de televisão e, quando perguntado sobre sua impressão a respeito da capital nacional, não hesitou: disse que Brasília se parecia com uma “dentadura cariada”. A resposta não poderia ter sido mais apropriada. Artificial na sua essência, a capital de JK foi cravada no centro do País como marco histórico, político, arquitetônico e porque não dizer, econômico, de uma época em que o Brasil pretendia tornar-se grande e desenvolvido. A História encarregou-se de registrar as razões e os subterfúgios que levaram para o planalto central toda a máquina gestora deste País de política nem sempre coisa para ser feita às claras. Fugindo das barbas do povo, a mudança da capital federal para tão distante do que se podia chamar de Brasil civilizado parece ter favorecido ainda mais as práticas pouco ortodoxas de muitos dos nossos homens públicos. Durante sua construção Brasília era notícia todos os dias. De lá vinham as mensagens de que se caminhava a passos largos em busca de desenvolvimento. Nos nossos dias as notícias que de lá chegam trazem consigo um mau cheiro característico, coisa de País medíocre, com gente ignorante, governado por seres humanos desprezíveis por conta de seu modus operandi. Um conhecido me disse que quando as notícias de política se confundem com as de polícia é porque o País vai de mal a pior. Talvez ele tenha razão, mas Brasília não é só política. Por lá também há brasileiros que trabalham, pagam impostos, geram empregos e riqueza. Não é apenas corrupção, uso indevido de dinheiro público, tráfico de influências. Brasília também é Brasil, e, portanto, tem belezas, sotaques, crenças e superstições. Muitos dos que se dizem naturais de lá garantem que o que de ruim lá existe é culpa nossa. Também isso não deixa de ser verdade. Funcionando de terça a quinta, parte de Brasília já foi chamada de “casa da mãe Joana”, mas na verdade parece muito mais um grande cassino, no qual o dinheiro das apostas é o público. Na semana em que comemora seus 49 anos, Brasília parece estar longe de ser o símbolo e a sede de um País que, de fato, conseguir evoluir, desenvolver-se, progredir, mas passado quase meio século a cidade ainda parece ser a capital de um país pobre, movido por gente simples, omissa e ignorante. Depois de tanto tempo, Brasília ainda é a capital de um país governado por gente pequena na essência e grande na ambição. De fato, Brasília parece mesmo uma dentadura. E cariada, já que está cheia de gente nociva ao bem comum e aos interesses desta nação. Alexandre Henrique Leonel Farmacêutico, ex-conselheiro deste jornal

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