Palpite infeliz


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A história de nossa República vem registrando em pleno século 21 a enxurrada de logorréia a desafiar nosso bom senso e cultura. Como os exemplos, erráticos ou não, sempre encontram seguidores dispostos a reeditá-los ou mesmo revelar sua criatividade inventando novos, nos fartamos deles. Lula tem conseguido adeptos para sua fanfarrice linguística. De minha parte, o palpite infeliz – vários em profusão – circulante pelo País é absolutamente detestável, havendo exceção para um, criado em 1935 por Noel Rosa com acerto, brilho e sucesso: “Quem é você que não sabe o que diz?”. Recentemente o secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo Costa, resvalou pela ribanceira do desequilíbrio ao declarar “pouco” os 94 anos e seis meses da condenação pela justiça sofrida por Eliana Tranchesi, comerciante do luxo brasileiro. Nunca frequentei sua loja Daslu – estou mais para Daspu –, até por falta de poder aquisitivo. Não tenho procuração para defendê-la e, se procurado, não aceitaria sua defesa por formação e questões de foro íntimo, no entanto, julgar “pouco”, e pior, chegar à extrema maldade e desrespeito de afirmar que: quem sonega “deveria ser pregado na cruz”, espantado me deixa, apesar dos repetidos espantos a que se obriga o mundo novo. Mauro Ricardo faz suscitar algumas questões que somente ele poderia responder: por que a lembrança da crucificação? Sua pretensão é assumir o comportamento de escribas e fariseus? Em momentos distantes da história foi a mais triste, impiedosa e humilhante punição. “Como dizeis: ‘Somos sábios e a Lei do Senhor está conosco? Verdadeiramente, o ponteiro mentiroso dos escribas gravou a mentira’” (Jer. VIII, 8). Costa parece com gosto envergar a roupagem dos escribas, com a brutalidade de tiranos aptos e sequiosos pelo deicídio. Embora não cultuando o prazer dos excessos, a prática de torturas, oportuno seria indicar-lhe um bom prato para alimentar sua sanha: aí estão os “endeusados” componentes do Congresso Nacional por onde se vê perpassar um mar de lama. O famoso trem da alegria – a meu ver trem da vergonha –, embarcando a cada dia mais corrupção, bancando passagens aéreas para amantes (hoje namoradas) e familiares, amigos, correligionários e cercanias – R$ 84 milhões em 2008. A instituição de salários para domésticas dos parlamentares por conta do Senado, aluguel de jatinhos ainda que alguns tenham suas próprias aeronaves; os mensalões e seus caminhões de documentos indicando sua veracidade, os envolvimentos de magistrados em venda de sentenças, R$ 1,4 milhão pulando fogueira de São João, na Bahia, sem queimar os pés de ninguém, a campanha eleitoral deflagrada antes da hora, em conflito com a lei. Distribuição pródiga de recursos da viúva com vista a 2010, Mendes soltando e Dantas palmilhando feliz e bonito nos caminhos da fortuna! Ilustre secretário, a verdade é que tem faltado penalização no País, o que me levou a apontar itens de interesse do povo, para alvo dos seus anseios: pregar na cruz. De minha parte seguirei fazendo coro com Noel Rosa: “para que ligar a quem não sabe aonde tem o nariz? Quem é você, que não sabe o que diz?” Garcia Netto Jornalista

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