Esta é uma pergunta ouvida com frequência sempre maior, já que poucos prestam atenção ou sabem interpretar os ícones dentro do calçado ou porque muitas indústrias até hoje não carimbam nos produtos estas informações.
Com a evolução da tecnologia dos materiais sintéticos torna-se difícil identificar simplesmente pelo visual o material de que o calçado foi confeccionado. Com todos os anos de experiência que tenho no trato com couro e calçado, hoje me sinto inibido de avaliar o material se não tenho como ver o carnal do couro ou o verso do material laminado.
A imitação, principalmente dos couros finos, é tão perfeita que até consegue uma “flor solta” que só o couro poderia apresentar. Pois hoje até alguns laminados feitos na Ásia já apresentam esta característica.
Por outro lado estou assistindo nas fábricas a verdadeiro contrassenso quando se trata de controle de qualidade com respeito ao material. Recentemente olhei a classificação das peças cortadas por parte das inspetoras de qualidade do corte em uma empresa. Tratava-se de material caro, de primeira qualidade.
Não obstante, o montinho de peças rejeitadas crescia incessantemente. Perguntei à inspetora por que estava rejeitando as peças. Me mostrou defeitos minúsculos. Concordo, era defeito, mas era tão minúsculo, que só o olho treinado podia identificá-lo. Ademais, se for colocado no sapato, era absolutamente invisível e em nada comprometeria a qualidade do produto.
Discuti o assunto com o gerente da fábrica. Concordou plenamente, mas ressalvou que os lojistas não aceitam nem estes defeitos minúsculos. Discutimos o assunto e chegamos à conclusão de que se tratava, em primeiro lugar, de desinformação e, em segundo, de malícia. Por que desinformação? Os defeitos minúsculos, nos tempos atuais de sucedâneos e imitações, são a prova do couro genuíno aplicado no produto.
Podemos ter pelicas sem absolutamente nenhum defeito oriundas de Bangladesh, Índia ou Paquistão onde as cabras vivem dentro dos casebres dos pobres junto com a família. Mas e as cabras do Nordeste, que vivem no meio dos espinhos da caatinga? Como vamos evitar que se espetem, que firam a pele nos espinhos?
E por que malícia? Muitos comerciantes gostam de negociar de um ponto vantajoso para eles. E pode haver um ponto mais vantajoso do que depreciar a mercadoria oferecida? Para esta finalidade qualquer titica de mosca no material serve de pretexto para colocar o vendedor no degrau mais baixo e fazê-lo negociar a partir do ponto de desvantagem.
Concordo que uma cicatriz profunda ou mal fechada é proibida de aparecer no produto. Mas uma cicatriz mal visível a meio metro da distância dos olhos, quem é que a verá no calçado no pé?
Trabalhei bastante tempo com lojas para afirmar que nunca encontrei um comprador que tivesse objetado algum defeito do couro. E entre importadores já prevalece a opinião que uma marca de carrapato é selo de autenticidade de couro genuíno!
Nunca vou esquecer a cara do coronel que comandava a segurança do Banco Central de Trinidad & Tobago, que insistia na compra do calçado de couro de verniz preto para os seus comandados, quando mostrei (cortando um pé) que comprava sintético coberto de verniz, pagando preço de couro!
Para um leigo é quase impossível fazer distinção entre couro legítimo e um laminado. A diferença principal está no conforto que um ou outro proporciona, mas, se a compra já foi efetivada, aí é tarde demais. Será que não estamos sendo rigorosos demais, tanto na classificação das peles como no controle dos cortes?
Quanto custa o perfeccionismo que aumenta o custo do produto em muito e está fora do lugar nesta época em que se proclama a volta para a natureza e se faz da bandeira ecológica o modo de viver?
Quem visitou um curtume faz uma idéia exata do volume d’água necessário para processamento de peles, do montante de produtos químicos para o acabamento das mesmas e o volume da poluição que isso representa, embora tenhamos sistemas de tratamento de todos os tipos possíveis e imagináveis.
E se depois de todo este tratamento, a peça é simplesmente rejeitada por causa de uma minúscula cicatriz, invisível a trinta centímetros de distância? Há um contrassenso em tudo isso. De um lado promovemos a natureza e do outro lado não aceitamos os fatos decorrentes justamente da vida dentro da natureza?
Talvez diferenciando o preço e cobrando bem mais caro pelo calçado com couros tão lisos que seriam indistinguíveis dos laminados, poderíamos acabar com essas exigências descabidas no terceiro milênio, em que a consciência sobre o ambiente está cada vez mais presente na nossa vida diária.
POLIURETANO ECOLÓGICO
A ecologia chegou aos poliuretanos. A Merquinsa Mercados Químicos S.L. submeteu à aprovação dos órgãos competentes o novo material testado sob a norma ASTM-D6866, onde a biomassa representa 75% do conteúdo do poliuretano com somente 25% de conteúdo com base nos fósseis. A maior fábrica de brinquedos do mundo – Mattel – já adota este material seguida pela Lego e Ikea. No ramos dos calçados, pela Nike. O próximo passo é atingir 100% da biomassa renovável proveniente da cana ou oleaginosas.
AMPLIANDO BASE
Gore-Tex ampliou a sua base chinesa assinando contrato com a Simple Footwear de Dongguan. Com isso a Simple Footwear espera atrair novos compradores para seus produtos, podendo usar a legítima tecnologia da WL Gore.
NÚMEROS ESPANHÓIS
A Espanha publicou dados sobre as exportações do primeiro semestre de 2008 provenientes das Ilhas Baleares. Os números demonstram que a exportação do calçado de couro caiu 8,6%. As marcas Camper e Jaime Mascaro, não obstante, tiveram crescimento de 8,9% e 6,5% respectivamente, nos mercados francês e alemão.
Zdenek Pracuch
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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