‘Vivemos como se fôssemos eternos’


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AMOR PELA LITERATURA - A escritora Adélia Prado, no Calendas, durante entrevista ao Comércio da Franca; com sua presença altiva e elegante, esbanjou simpatia: “Muita gente ainda pensa que poesia e arte são supérfluas”
AMOR PELA LITERATURA - A escritora Adélia Prado, no Calendas, durante entrevista ao Comércio da Franca; com sua presença altiva e elegante, esbanjou simpatia: “Muita gente ainda pensa que poesia e arte são supérfluas”
<p>O nome Adélia Prado evoca, para quem conhece ao menos um pouco de sua obra de estilo inconfundível, mineirices (daquelas bem estereotipadas, ao pé do fogão a lenha, o cheiro do caldo do feijão, a movelaria rústica, a chaleira, a espiga de milho etc.). Também lembra religiosidade fervorosa, pequenezas cotidianas, epifanias, prosódia e sintaxe peculiares de um ponto desse "Brasil profundo" de que nos falou Joaquim Nabuco (político, diplomata, historiador, jurista e jornalista brasileiro).</p> <p><br />Tudo isso, mas não só isso, é Adélia Prado. No início de março, ela esteve em Franca para promover, por meio de um bate-papo, no Teatro Municipal, a abertura das atividades do Calendas, um centro de divulgação de conhecimento e cultura dirigido por Rosângela Mazzieiro Mourão, Cristina Mestres e Dóris Mourão Sansoni. Antes, porém, concedeu, no Calendas, entrevista ao jornal Comércio de Franca.</p> <p><br />Com sua presença altiva e elegante, em todos os sentidos, despida de quaisquer estereótipos que possamos querer criar, o que se pode dela inferir, como registro fundamental de entrada, é a sofisticação, congruente à sua escrita.  Na negociação do tempo que dispunha para a entrevista - ela não esconde sua apreensão em ser entrevistada - a frase: "Ah, mas eu não tenho tanto assim a dizer...". Mesmo assim, ela disse. E como disse!</p> <p><br />Na entrevista que segue, Adélia Prado falou de arte e religião como instâncias - e balizas - que nos salvaguardam e nos absolvem da barbárie; criticou o imediatismo de nossos tempos marcados pela perda do que chama vida simbólica ou vida interior, na busca da satisfação dos desejos que remetem a questões originais como a morte e a velhice.</p> <p><br />O seu mais recente livro editado intitula-se Quando Eu Era Pequena, de 2006, primeira incursão à literatura infantil, classificada por ela como uma grande experiência. "Escrevi o texto e mostrei aos netos para ver o que acontecia. </p> <p>Quando vi que gostaram da história, percebi que estava no caminho certo e permiti a edição. Publico quando a coisa vem. Não posso me dispor a escrever um livro quando eu quero, de jeito nenhum. Quando os livros naturalmente se apresentam, quando o texto vem, aí então eu envio à editora", explicou.</p> <p><br />A autora sinalizou ainda que vem coisa nova por aí. "Estou com um livro de poesias já em fase de finalização, mas ainda com título indefinido. Deve ser publicado no final deste ano ou no início do próximo". Ao final da conversa disse, aliviada e de forma simpática: "Foi bom".O nome Adélia Prado evoca, para quem conhece ao menos um pouco de sua obra de estilo inconfundível, mineirices (daquelas bem estereotipadas, ao pé do fogão a lenha, o cheiro do caldo do feijão, a movelaria rústica, a chaleira, a espiga de milho etc.). Também lembra religiosidade fervorosa, pequenezas cotidianas, epifanias, prosódia e sintaxe peculiares de um ponto desse "Brasil profundo" de que nos falou Joaquim Nabuco (político, diplomata, historiador, jurista e jornalista brasileiro).</p> <p><br />Tudo isso, mas não só isso, é Adélia Prado. No início de março, ela esteve em Franca para promover, por meio de um bate-papo, no Teatro Municipal, a abertura das atividades do Calendas, um centro de divulgação de conhecimento e cultura dirigido por Rosângela Mazzieiro Mourão, Cristina Mestres e Dóris Mourão Sansoni. Antes, porém, concedeu, no Calendas, entrevista ao jornal Comércio de Franca.</p> <p><br />Com sua presença altiva e elegante, em todos os sentidos, despida de quaisquer estereótipos que possamos querer criar, o que se pode dela inferir, como registro fundamental de entrada, é a sofisticação, congruente à sua escrita.  Na negociação do tempo que dispunha para a entrevista - ela não esconde sua apreensão em ser entrevistada - a frase: "Ah, mas eu não tenho tanto assim a dizer...". Mesmo assim, ela disse. E como disse!</p> <p><br />Na entrevista que segue, Adélia Prado falou de arte e religião como instâncias - e balizas - que nos salvaguardam e nos absolvem da barbárie; criticou o imediatismo de nossos tempos marcados pela perda do que chama vida simbólica ou vida interior, na busca da satisfação dos desejos que remetem a questões originais como a morte e a velhice.</p> <p><br />O seu mais recente livro editado intitula-se Quando Eu Era Pequena, de 2006, primeira incursão à literatura infantil, classificada por ela como uma grande experiência. "Escrevi o texto e mostrei aos netos para ver o que acontecia. </p> <p>Quando vi que gostaram da história, percebi que estava no caminho certo e permiti a edição. Publico quando a coisa vem. Não posso me dispor a escrever um livro quando eu quero, de jeito nenhum. Quando os livros naturalmente se apresentam, quando o texto vem, aí então eu envio à editora", explicou.<br />A autora sinalizou ainda que vem coisa nova por aí. "Estou com um livro de poesias já em fase de finalização, mas ainda com título indefinido. Deve ser publicado no final deste ano ou no início do próximo". Ao final da conversa disse, aliviada e de forma simpática: "Foi bom". </p> <p><strong>Comércio da Franca - Como se dá, com a senhora, o ato de criação? Ou a senhora já conhece os meandros que movem a sua inspiração?<br />Adélia Prado -</strong> Essa pergunta eu mesma faria ao entrevistar um músico, por exemplo. Eu tenho a maior curiosidade de saber como é que sai uma sinfonia, uma ópera, uma partitura musical. Continuo acreditando que qualquer criador, pintor, quem quer que produza um objeto de arte, não é capaz de descrever o ato criador. Eu vejo isso a partir da minha experiência pessoal, como uma pulsão para fazer algo existir e, no caso da literatura, como qualquer criação, é fruto de uma experiência poética. Algo que pede expressão. No meu caso, a palavra em prosa ou a poesia, que tem um ritmo diferente. Já sei quando vai sair poesia ou prosa, porque a coisa vem com uma pulsão própria. </p> <p><strong>Comércio - Então a senhora vê o ato criador como um "fenômeno de transcendência"?<br />Adélia -</strong> Você não é dono daquilo que não vem por desejo próprio nem por uma decisão racional e lógica. É algo que nasce num outro recanto da alma. Então, continua misterioso, graças a Deus. Não dá para explicar. Vem de um incômodo, mas um incômodo muito bom. Gostaria de ficar assim incomodada permanentemente (risos), nessa vontade de dar existência a alguma coisa. Ao mesmo tempo, fica claro que o artista é veículo de algo maior. Você não é o criador da beleza, você cria um quadro, mas a beleza, aquilo que o constitui como uma obra de arte, vem de um outro lugar. Qual? Eu falo que é do Espírito Santo. Acho maravilhoso que não sejamos capazes de explicar a beleza. A minha liturgia, para esse momento de criar, é um lápis de ponta boa, uma caneta que escreve fininho e papel. Só. Não tenho muita disciplina, um lugar para escrever, nada disso. </p> <p><strong>Comércio - Alguém já disse que o escritor está sempre às voltas com um único tema. Num retrospecto da sua obra, eu pergunto: qual é o ser e qual é a circunstância da sua prosa e poesia?<br />Adélia -</strong> Eu acho que a definição perfeita de poesia é a de ser ela a revelação do real. Muita gente ainda pensa que a poesia ou qualquer arte são coisas supérfluas, fantasias, coisas de mulheres e mocinhas, mas é algo muito sério, por nos revelar o real, o que se esconde na aparência das coisas. Quer dizer, essa mesa não é apenas isso, tem algo mais. Esse algo mais é o que é revelado pela arte: a mesice da mesa (risos) se formos fazer filosofia e metafísica. </p> <p><strong>Comércio - Na questão do tema...<br />Adélia -</strong> Sim, a gente fala sempre de uma coisa só, por causa da nossa limitação. Você é o seu euzinho, a sua experiência, a sua pequena ótica da realidade. Então, você mostra de acordo com a sua lente. Por isso é que quando você vê um texto de Clarice Lispector, Drummond, Guimarães Rosa, percebe que nem precisavam ter sido assinados: o estilo está lá, inconfundível. Isso é interessante, mas é, ao mesmo tempo, um limite. Nunca vou além do cotidiano, porque ele é a única coisa que eu tenho. É a experiência cotidiana, dentro da minha história pessoal, que transparece. Vejo que todo autor, ainda que faça ficção científica, deixa a sua marca. A sua escolha já é indicativa do seu ser. </p> <p><strong>Comércio- O espanto e a perplexidade pelo significado da vida parecem ser dois registros singulares em tudo o que você escreve.<br />Adélia -</strong> Sim, a vida é espantosa, é absurdo existir. Essa experiência do absurdo da existência todos nós temos. E ela nasce das perguntas: o que sou? De onde vim? Para onde vou? Mesmo a pessoa mais pobre espiritualmente, intelectualmente, um dia vai se fazer as perguntas originais. Como aquilo que os adolescentes dizem para a mãe, morrendo de raiva: "Eu não pedi pra nascer" (risos). Mas a mãe, coitada, não pediu também, nem o pai, aí você chega em Adão, né? É dessa pergunta fundante acerca do sentido da vida que nascem as filosofias, as religiões e a arte. Existir não tem significado em si mesmo. Queremos um autor para a criação. </p> <p><strong>Comércio - O que tem chamado a sua atenção, ultimamente, em termos de comportamento e na seara da criação?<br />Adélia -</strong> Nosso tempo padece de enorme vulgaridade. Estamos perdendo a vida simbólica, a vida interior, a vida espiritual. Vivemos no aqui e agora buscando o imediato. Queremos resultados, escamoteando na pressa as reais questões de nossa vida. Vivemos como se fôssemos eternos, com valores perecíveis. Você não é permanentemente jovem, nem permanentemente saudável e nem vai viver eternamente assim. Você morre. Até a morte hoje está maquiada, literalmente. Vi, há pouco tempo, uma morta de óculos! Mas, respondendo, aquilo que não nasce do afeto, mas de uma demanda comercial, por exemplo, pode ser artesanato, mas não é arte. É só olhar o vazio da música popular, dos programas de TV. </p> <p><strong>Comércio - E isso afeta todo o nosso redor?<br />Adélia -</strong> Sim, a política, as religiões... As liturgias se empobreceram nas igrejas, a feiúra dos cantos, dos pseudo ritos. Perdemos valores espirituais e não queremos de verdade recuperá-los. Significaria transformação e é ela que nos amedronta porque seríamos obrigados ao compromisso e ao enfrentamento. </p> <p><strong>Comércio - Num dos seus escritos, de 1950, o psicanalista francês Jacques Lacan vaticinou que o "mundo ficaria muito chato", pois acabaria por incorporar, como temos visto, o "discurso da norma". O que a senhora pensa disso?<br />Adélia -</strong> Mas o que é o discurso da norma? O desejo de ter um pai, um paizão para te guiar. Vem justamente dessa fragilização psicológica e espiritual que não quer o enfrentamento de si mesmo. As pessoas querem as soluções prontas sem se responsabilizar por elas. Todos esperam por um grande político, um grande papa, pastor ou guru que cuide de tudo para nós, sem que tenhamos responsabilidade social e pessoal no processo. O nosso verdadeiro guru é o interior, ele já existe. A coragem por nossas decisões pessoais é a coisa mais difícil. </p> <p><strong>Comércio - O que a senhora tem lido?<br />Adélia -</strong> Nesta altura da minha vida descobri uns autores estrangeiros, uns poetas maravilhosos. Não falo uma outra língua, por isso leio traduções. Estou lendo um poeta persa (Rûmî, do século 13) por meio de tradução do Marco Lucchesi (ao lado de Rafi Moussavi). Lucchesi é um grande crítico, um dos nossos maiores intelectuais. Estou lendo poemas de (Giacomo) Leopardi. Também tenho relido muita coisa. Chega um momento na nossa vida em que a gente sente a necessidade de reler. Comércio - Quando a literatura pode, na opinião da senhora, ser "irrupção" de Deus no mundo?<br />Adélia - Se é arte verdadeira, é sempre irrupção divina. Um quadro de Van Gogh é uma intervenção divina no mundo. Uma música de Mozart é intervenção divina. </p> <p><strong>Comércio - A sua poesia traz momentos de êxtase religioso, demiúrgico até, como verificamos em "À soleira"e "Um salmo", entre vários outros. São verdadeiras celebrações. Há que se celebrar?<br />Adélia -</strong> Há que se celebrar o fato de a poesia estar irrompendo até hoje no mundo, porque isso é esperança para nós. Ela está aí sobre esse mundo duro de vulgaridade, de inconsciência. Da não-percepção do que está ao redor. Mas a poesia permanece. A ação divina continua sustentando o mundo, e eu acho que isso é salvador, é algo eterno, com vida em si mesmo.</p>

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