Na última quarta-feira este Comércio trouxe manchete sobre o resultado do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) do ano de 2008. A importância do tema Educação e o destaque dado pelo jornal em sua primeira página devem ter incentivado a leitura da matéria completa, exposta de maneira lúdica nas páginas A-10 e A-11.
Contudo, no texto assinado pela repórter Patrícia Paim o último parágrafo incomoda e incomoda muito. Diz: “Por determinação da Diretoria Regional de Ensino, os diretores de escolas foram impedidos de comentar o resultado do Saresp. Até mesmo aqueles que conseguiram um bom desempenho não foram autorizados a conceder entrevistas ou explicar os motivos e os programas adotados que contribuíram para o bom desempenho”.
Como assim “por determinação da diretoria regional de ensino, as diretoras foram impedidas”? O fato – que não é novidade para muitos – chamou a atenção dos desavisados. Porque a Direção Regional de Ensino não permite que seus profissionais deem voz aos seus feitos? O que há de errado em se conceder uma entrevista sobre a importância de se obter uma boa nota numa avaliação criada pela própria diretoria?
A “lei da mordaça” aplicada de forma tão nítida parece contrariar os princípios básicos não só dos profissionais de educação ligados à Secretaria mas, principalmente, o direito do cidadão que paga seus impostos e tem o direito de ser informado com clareza sobre “porquês” do sucesso ou do fracasso das políticas públicas.
Não é possível que em pleno século XXI uma cidade como Franca não mereça um mínimo de respeito e consideração. Não posso acreditar que alguém, investido de cargo de direção em escola estadual e em sã consciência, seja incapaz de conceder uma entrevista sobre um tema de tamanha importância.
Há algo de errado. Por que tolher? Por que impedir? O que se teme? Essa não é a primeira vez que esse tipo de comportamento é registrado nas páginas do Comércio. Em outras ocasiões, menos louváveis, é verdade, professores e diretores simplesmente não puderam se manifestar publicamente através de veículo de comunicação legítimo e legal.
Educação é coisa séria e gestão pública se faz com transparência. Portanto, não há como admitir coisas do tipo “foram impedidas de comentar”. Isso é típico de certa época do século passado. É, portanto, comportamento retrógrado, mesquinho e hipócrita.
O sucesso ou o fracasso das políticas públicas deve ser visto como conquista ou responsabilidade de todos, sejam eles gestores ou executores. Impedir um agente público de dar uma entrevista não torna o sistema nem melhor nem pior do que ele realmente é, apenas dá transparência e permite à sociedade reconhecer os verdadeiros personagens das ações do Estado. Amordaçar é gerar dúvida, é abrir precedente para o boato, consignar leva e traz e fofoca, práticas que nada tem a ver com um Estado moderno e forte que pensamos ou pretendemos ser.
Não precisamos mais disso. Podemos e devemos romper com práticas que muitas vezes menosprezam a importância daqueles que realmente estão “com as mãos na massa”. Não se pode mais concordar com usos exclusivamente políticos de máquinas públicas, principalmente quando o tema é Educação.
Alexandre Henrique Leonel
Farmacêutico, ex-conselheiro deste jornal
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