Londres é feminina


| Tempo de leitura: 5 min
Sem faraônicas e distantes pretensões, determinamos como objetivos básicos na educação dos filhos: aprender a nadar + saber datilografia + falar inglês fluente e perfeito + possuir diploma de (qualquer) curso superior. Fomos vitoriosos. Possuem os requisitos fundamentais que lhes garantem (pelo menos) a inscrição para a travessia do Canal da Mancha. Quando venho, os que ficam correspondem-se comigo através da Internet; quando volto, os daqui conseguem mandar cartas eletrônicas carregadas de saudades. Fizeram faculdade. E, como queríamos, falam inglês. Nos anos 90 a filha foi para o Canadá, ficou um ano. Não queria voltar mais. Tempos depois, o segundo escolheu Londres, acho que por causa dos Beatles. O terceiro escolheu Londres, por causa do segundo. O quarto, que lutava para ser aceito e se tornar um de nós, influenciado pelos outros três, também veio para a Ilha. Meu namoro com Londres começou no século passado. Já a “conhecera” naquelas viagens que a gente fazia, um mês visitando trinta e dois países. Quando vim para ficar, surpreendi-me com meus sentimentos e minha relação com a cidade. Hoje quando digo que gosto e que Londres é cidade feminina, causo surpresa. Londres é cinza, contra-argumentam. Só chove, dizem outros. É fria, afirmam. É fechada e sisuda, avaliam, talvez entendendo que ser feminina significa ser colorida, seca, calorosa e explícita... Não. Não é isso. Isso é São Paulo, uma cidade jovem, sem personalidade definida. Talvez Rio de Janeiro, cidade inconsequente, embora cheia de charme. Também não é Paris porque Paris, bem... Paris é Paris! Londres é cidade mulher. Feminina. Sem idade definida, mulher completa. Misteriosa: sem intenção e competência não se pode desvendá-la facilmente. Londres é Judi Dench. Emma Thompson. Kate Winslet. Keira Knightley. Vanessa Redgrave. Amy Winehouse. Lady Di. Rainha Victoria. Ana Bolena. Kate Moss. Rachel Weisz. Rainha Elizabeth II, Jean Shrimpton. Helena Bonham Carter. E Twiggy, of course! Individualmente ou todas misturadas: Londres tem mil faces. Londres não é cidade para visita. É cidade para viver. Quem vem apenas visitar, se decepciona. Quem vem só completar currículo turístico se frustra. Quem vem para viver - por dois, três dias, dois anos, três décadas - compreenderá que cinzenta, chuvosa, fria e inexpressiva são clichês de não-iniciados. Sentirá na pele o avesso do oposto. Sairá daqui surpreso e saudoso das súbitas e frequentes manifestações de circunspeção, discrição, acolhimento e maturidade vividas na estadia. Porém (tem sempre um porém quando o assunto é feminilidade...) como cidade mulher, feminina e madura, não adianta esperar receber tudo isso, gratuitamente. Como chegar? Mansamente, pedindo para entrar, observando tudo e sempre demonstrando bom humor. Fazer, inicialmente, um teste de reciprocidade. Aconselho ir conhecer um dos milhares de parques existentes. Olhar a grama - por esta época coberta de minúsculas flores brancas ou amarelas. Depois, tirar os sapatos, sentar-se. Deitar-se e olhar o céu: nesse instante se ele se abrir e deixar aparecer um sol maravilhoso... sorria: Londres te aceitou. Se você se deitou e imediatamente sentiu uma gota de chuva no seu nariz... sorria: Londres está brincando com você. Se cair um toró? Cuidado: Londres está testando você! Nesse caso tenha humor e continue a jornada, senão volte ao hotel, feche as malas e vá embora. (No relacionamento com mulheres, não é prudente forçar a barra.) Em termos de cultura e arte, aqui estão os mais importantes museus do mundo, onde permanentemente acontecem as mais interessantes exposições, exibições e apresentações imagináveis: Victoria & Albert; História Natural; Royal Academy of Arts; British Museum; National Gallery; as Tate; Royal Albert Hall; Royal Festival Hall. No caso de não identificação imediata entre você e a cidade, ainda assim há opções. Daqui se pode sair para roteiros incríveis de ir e voltar: Bath, Stonehenge, Brighton, Oxford, Cambridge; de ir e ficar: Glastonbury, Liverpool, Ilha de Wight, Lake District (na fronteira com a Escócia - paisagens de perder o fôlego); País de Gales. Ir ao centro. Visitar bairros e lugares históricos. Fazer amigos. Andar sem destino. Ônibus e metrôs. Ficar anônimo. Receber convites. Morar num quarto de 2,42m por 2,10m. Comidas: fish and chips. Compras e falta de dinheiro. Volto a falar sobre isso. Bye bye! CORRIGINDO Quem cantava na Procissão de Sexta-feira Santa era Verônica e não Madalena. Hermes Falleiros mandou avisar. Obrigada! ASPAS Guia prático da Ciência Moderna: “Se mexer, é pertinente à Biologia. Se cheirar mal, à Química. Se não funcionar, à Física. Se ninguém entender é Matemática. Se não fizer sentido é Economia - ou Psicologia. Se mexer, cheirar mal, não funcionar, ninguém entender e não fizer sentido... é Informática”. LIXEIRAS No quesito limpeza, Franca é cidade limpa. E só não é mais porque renitentes jogam lixo de forma inadequada. Londres está muito suja, depois da abertura de imigração para os países africanos, asiáticos e do leste europeu. E lugar para jogar todo e qualquer tipo de porcaria, tem. Vi um painel cheio de chicletes mascados e um cartaz grudado (com cola normal): “Pregue o seu aqui, se você não o quer mais”. Coisinha chata é ter o resto de alguém grudado na sola do seu sapato. Ou no pneu do carro. TRÂNSITO ... inglês é coisa séria. Marcado o exame (intervalo de dois, três meses entre eles) os examinadores recebem instruções superiores para aprovarem um número ridiculamente baixo de pretendentes a motorista. O mínimo erro os desqualifica. O processo de habilitação é caríssimo. Acidentes são indesculpáveis e têm punição garantida. Pedestres existem, são reconhecidos e que ninguém sonhe em andar com “carro fórmula zero” ou com impostos atrasados: cana, na certa. Estacionar em lugar proibido? Papel colado com superbonder no vidro dianteiro e rodas presas com uma engenhoca. Tem que pagar salgada multa (na hora!) e ainda penar para retirar o papel... Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e Membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários