Acompanhar a seção `Há 50 anos` deste Comércio é um convite para se voltar no tempo. Com imaginação, pode-se reconstituir uma Franca que ficou bem lá atrás. Melhor ou pior? Difícil saber! Cada época tem suas características peculiares. Mesmo para quem não viveu aquele período, fica uma aura de nostalgia.
Recentemente este jornal reproduziu esta nota: `Moradores do Distrito da Estação reclamam contra as vergonhosas cenas promovidas por cães que andam soltos nas imediações da Praça Sabino Loureiro. Segundo nossos reclamantes, moças não podem passar por aquele logradouro sem se sentirem envergonhadas com as cenas degradantes. Solicitam providências imediatas da Prefeitura Municipal para pôr fim a tais inconveniências`.
Como será que o prefeito de 1959 resolveu as inconveniências caninas na Praça da Estação? Se não fez ouvidos moucos, por certo mandou a carrocinha passar por lá para recolher os apaixonados cães. Com isso, as moças que chegavam de viagem, as prestes a pegar o trem ou as simples passantes puderam cruzar a praça sem se deparar com as duradouras cenas de sexo entre os cachorros.
O tempo passa. Os fatos mudam. Os costumes, mais ainda. Cinco décadas depois, já não há tantos cães soltos, pelo menos no entorno da antiga Estação, se bem que o espaço hoje seja bem menor já que edificação preservada não passa de uns 200 e poucos metros de comprimento, com localização compreendida entre o começo da Rua Francisco Marques e um pouco antes do início da Rua General Osório.
Antigamente, a linha de ferro impunha respeito. Além da Estação propriamente dita, havia um muro. Este tinha início na Rua Simpliciano Pombo e se estendia até a metade da Praça 1º de Maio. Ninguém cruzava a linha nesse espaço. A Vila Nova contava somente com duas passagens para o centro. Ou vice-versa.
Da Rua Simpliciano Pombo até a saída para Restinga existia uma cerca de arame. Na outra extremidade, a cerca iniciava-se na Praça 1º de Maio e ia até o Parque “Fernando Costa”. Abria uma passagem e prosseguia até a Sabesp. Na sequência, cruzar a linha era possível somente em Miramontes.
Onde antes havia cerca de arame protegendo a linha (ou seria os transeuntes?), hoje até que há possibilidade de se encontrar cães. Mas, por perto da antiga Estação, a área está limpa de cachorros. Não há perigo de aparecer uma cadela no cio. No entanto, as moças desavergonhadas de agora se deparam com cenas ainda mais degradantes nas proximidades da Praça Sabino Loureiro.
Vários moradores de rua adotaram a Estação e as praças próximas como vivenda. Normalmente, as moças que por lá passam se defrontam com andarilho urinando em algum vão de parede ou em tronco de árvore. Dia desses, até uma mulher se agachou e defecava tranquilamente atrás de uma estátua, em plena luz do dia.
Numa outra ocasião, já no começo da noite, horário em que várias estudantes cruzavam a Praça Ana Nicácio, no início da Rua Francisco Marques, um casal de andarilhos mantinha relação sexual entre os arbustos. As moças não se sentiram envergonhadas. Pelo contrário. Até fizeram piadinhas. Só faltou alguma delas sacar o celular e registrar a cena erótica.
Bons tempos aqueles! As moças se envergonhavam de sexo entre cães. Triste momento este em que praça vira banheiro ou mesmo quarto...
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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