Conforto e saúde dos pés


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Há grande progresso no conforto oferecido pelos calçados, principalmente nos calçados para homens. Grande mérito cabe aos esportivos que, com formas mais adequadas à prática dos esportes mostraram que não precisam ser instrumentos de tortura. Calçados femininos são uma história à parte porque, por mais desconfortável que a forma do calçado possa ser, estando na última moda, conforto é que menos conta. E os infantis merecem apreciação especial – como, aliás, já escrevi aqui – porque a forma adequada decide sobre o pé saudável da criança em crescimento. O que até há poucos anos era domínio de raras marcas, ou seja um calçado confortável para calçar, hoje se tornou obrigatório para qualquer marca que quer permanecer no mercado. O aspecto da saúde está assumindo o lugar que pertencia ao conforto ou aos que o ofereciam. E há um longo caminho a ser percorrido, inclusive e talvez, com alguns retornos. É que na escassez do material natural – o couro –, os sucedâneos estão ocupando lugar cada vez maior. No calçado feminino, por exemplo, pela última estatística da Abicalçados, pela primeira vez o calçado de materiais sintéticos superou a exportação do calçado brasileiro em couro! Quem diria que donos do maior rebanho bovino do mundo serão exportadores de calçados sintéticos! Mas os fatos estão aqui e não há o que desmentir. O problema, porém, é que o calçado feito de materiais sintéticos de modo algum pode ser comparado em termos de saúde com os feitos integralmente de couro, como os produzidos antigamente. As partes como sola, palmilha, contraforte e couraça eram elaborados exclusivamente de couro. E qual é a diferença? O couro absorve a umidade exsudada pelo pé e o sintético não. Só isso? Não. À noite, quando se descalça o calçado usado durante o dia, nossos pés dizem tudo. Muitos produtores usam o couro bovino, equino, ovino ou caprino como forro. Muito bem, desde que seja curtido pelo método tradicional e não esteja coberto nas últimas camadas com algum polímero – sem dúvida, aumenta a beleza do produto – que elimina a característica essencial de absorção da umidade. Com a camada superior de sintético o couro ganha a qualidade do sintético sem qualquer poder de absorção. O comprador que acredita comprar o calçado de couro, na realidade compra o cabedal de couro, impermeabilizado (como no caso de verniz) com camadas de tinta na base de polímeros (quando não compra o calçado de raspa de couro tratada para oferecer o aspecto do couro genuíno), com palmilha de celulose, com contraforte e couraça feitos de resinas sintéticas e com sola de borracha ou de materiais sintéticos como poli-vinyl-clorida ou poliuretano. Calçado de couro? Será? Na década de sessenta, Wilson Sábio de Mello, na época diretor-presidente da Saméllo, contratou quatro sapateiros manuais de Belo Horizonte, artesãos consumados, para introduzir em sua empresa a produção de uma linha especial de calçados de couro – que chamou de Gold Line – e que obedecia a todos os requisitos de produção artesanal do legítimo calçado de couro. Tudo era feito de couro. O contra-forte e couraça de couro foram passados com `grude` de polvilho cozido, que depois de colocados no calçado endureciam como se fossem um pedaço de madeira. Secava na forma durante alguns dias, naturalmente, e só depois era concluído com sola de couro na linha de montagem. Os veteranos da Saméllo (notem que estou usando o acento agudo no `e` como o era usado naquela época) devem estar lembrados deste grupinho sentado às suas bancadas, preparando e montando os cabedais como artesãos dos séculos passados. Não quero dizer, absolutamente, que deveríamos fazer calçados assim, novamente. Nada disso. Entendo que o processo de produção em grande escala e a pressão sobre o custo do calçado está pressionando, no mau sentido, o aspecto da saúde e causa, em boa parte, o desconforto decorrente de uso de materiais inadequados na confecção. Os materiais que hoje substituem o couro, são mais baratos, mais convenientes para manipular, são apresentáveis mas, simplesmente, não podem substituir o couro, material orgânico com características insubstituíveis. Está aqui uma grande oportunidade para fornecer ao mercado calçado legítimo de couro com todas as características de um produto saudável e ao mesmo tempo, de conforto indiscutível. A atenção dever-se-ia concentrar principalmente nos materiais que entram em contato direto com o pé do cliente, ou sejam, forro e palmilha. O forro deveria ter um poder de absorção imediata e total e o mesmo deveria ser a finalidade da palmilha. Antigamente as palmilhas eram feitas de partes de couro de sola inferiores, de espessura mais fina. Com os avanços da Química, palmilha feita de fibras de couro aglomeradas, com baixo ou nenhum teor de celulose, poderia cumprir este papel com sucesso. Como aferir a diferença entre um calçado e outro? É simples. Fiz esta experiência com um grande produtor francano há uns trinta anos , só com a palmilha. Fazer um pé com materiais atuais e outro pé do calçado com materiais sugeridos. À noite, depois de um dia de calor os pés oferecem a resposta. Na época de luta pelos nichos de mercado, esta pode ser estratégia a ser testada, com apoio de marketing bem feito, com garantia de sucesso. NÚMEROS No País de maior rebanho bovino do mundo, em 2008 as exportações do calçado sintético superou a exportação de calçados de couro com 99,9 milhões contra 54,5 milhões, respectivamente. Até 2006 o couro liderou com 89 milhões de pares exportados. E MAIS Nas exportações de 2009 o primeiro lugar pertence ao Ceará, líder dos Estados nordestinos. Gaúchos estão em segundo mas perdendo terreno do mesmo modo com São Paulo e Minas com redução de volume em 32,3% e 24,5% sobre 2007. Zdenek Pracuch Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br

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