<p>Aos 66 anos de idade, João Carlos Franchini comanda desde 1992 a Desejo & Sabor, empresa que hoje é a maior fabricante de produtos artesanais de chocolate de Franca. Trabalhando ao lado da mulher, Cleusa, com quem é casado há 41 anos, dos filhos Marcelo e Márcio e das noras Angélica e Leandra, o empresário começou a fabricar doces em 1992, após separar uma sociedade que possuía em uma loja de produtos para calçados. Sem emprego, João Carlos passou a vender de porta em porta os doces fabricados por sua mulher, a qual considera “uma doceira de mão- cheia”. Também oferecia seus produtos regularmente em lojas e bancos. Começava, ali, um negócio que prosperaria muito rapidamente. </p>
<p><br />Em pouco tempo, a fábrica passou a funcionar na garagem de sua casa. <br />Atualmente, a fábrica da Desejo & Sabor, que emprega 120 funcionários, ocupa todo o espaço da antiga residência da família, localizada na esquina das Ruas do Comércio e Voluntário José Rufino, no Centro da cidade. O negócio, literalmente, tomou espaço na vida particular de João, que deixou a casa para a fábrica e se mudou com a família para outro bairro. </p>
<p><br />Entre as suas diversões prediletas estão passeios de motocicleta e também as pescarias. Agora, com os negócios engrenados, Franchini afirmou estar diminuindo o ritmo de trabalho e delegando as funções a seus filhos. “Já estou diminuindo o meu ritmo e os meninos já provaram que têm capacidade para administrar a empresa”, disse. Em seguida, emendou. “Mas vou passar por aqui de vez em quando para dar uma olhada nas coisas”. </p>
<p><br />João Franchini concedeu a entrevista em seu escritório, na Desejo & Sabor. Bem-humorado e brincando com todos os funcionários que passavam pelo local, o empresário - e torcedor do Palmeiras - disse que mesmo após 17 anos trabalhando com chocolate ainda não enjoou e, para quem tem medo das calorias do alimento, garantiu que o produto não engorda. Ainda afirmou que a crise mundial não afetou seus negócios e fez questão de apresentar à reportagem do <strong>Comércio</strong> todas as instalações da fábrica, que nas últimas semanas funcionou de dia e de noite para atender a todos os pedidos firmados para a Páscoa. Confira, nesta Entrevista de Domingo, os melhores trechos da conversa com João Carlos Franchini. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - O senhor atuava no setor calçadista, onde vendia componentes, e migrou para uma área totalmente distinta. Fabrica, desde 1992, chocolates. Como surgiu a Desejo & Sabor?<br />João Carlos Franchini</strong> Eu possuía uma loja de materiais para calçados. Durante a crise de 1992 acabei desmanchando a sociedade e optei por deixar o ramo. Aí começamos a fazer doces na cozinha da minha casa. Com o tempo a empresa começou a crescer e passamos para a garagem, depois para a sala e hoje a fábrica ocupa a residência inteira, ou seja, acabei sendo despejado (risos). A Cleusa (mulher do empresário) sempre fez doces muito bem e desde o começo os produtos tiveram muita aceitação. Graças a Deus e também ao nosso trabalho a firma cresceu muito, permitindo que hoje toda a família trabalhe junto, o que me faz muito feliz. </p>
<p><strong>Comércio - Atualmente quantas pessoas são empregadas diretamente pela empresa?<br />Franchini</strong> - Da minha família são seis pessoas, mas temos outros 120 funcionários neste período que antecede a Páscoa. Isso sem contar os representantes e distribuidores que temos instalados em outras cidades. Acredito que o universo de pessoas que trabalham conosco seja superior a 150 pessoas. Para quem começou vendendo doces de porta em porta, isso é uma satisfação imensa. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor, como bem disse, começou vendendo doces de porta em porta e agora somente administra uma empresa que é referência em chocolates. Em que pese a evolução, o contato com o público lhe faz falta?<br />Franchini</strong> - Eu sempre gostei de vendas. Quando saio na rua as pessoas dizem que se recordam de me ver vendendo doces e chocolates. Com esse contato, sempre fiz muitas amizades. Sinto falta de andar pelas ruas porque a pessoa que tem o dom de vender, quando para, parece que a todo tempo falta alguma coisa. É mais ou menos igual à profissão de repórter. Se ele não busca novidades todos os dias está faltando alguma coisa para ele. Agora estou passando a empresa para os meus filhos, são eles quem têm que acelerar. Acompanho o funcionamento da empresa, às vezes vou para Ribeirão Preto ver como está a loja, mas não trabalho mais como antes.</p>
<p><strong>Comércio - O senhor considera a Páscoa como uma espécie de “Natal” para as indústrias de chocolate?<br />Franchini</strong> - Com certeza a Páscoa é o nosso Natal. Nas últimas semanas tivemos que montar um turno extra e a fábrica passou a funcionar por 24 horas. Nos dias que antecedem a Semana Santa o movimento cresce ainda mais porque infelizmente o brasileiro deixa para fazer tudo na última semana. Para a Páscoa de 2009, nossa expectativa é produzir 60 mil ovos de chocolate e diante dos pedidos que já recebemos acredito que esta meta será atingida, certamente com muito trabalho de todos nós. </p>
<p><strong>Comércio - Após 17 anos de contato diário com o produto, o senhor ainda come chocolate? De que tipo o senhor mais gosta?<br />Franchini</strong> - Como bastante (risos). Minha preferência e meu paladar são direcionados para o chocolate branco, principalmente com os recheios de castanhas e nozes que produzimos aqui . Não sou muito de comer o chocolate preto original, mas recentemente importamos um produto belga que desmancha na boca e tem um gosto que eu nunca havia experimentado na vida. Sempre que viajo experimento novos produtos para conhecer as novidades do setor. Quando provei este chocolate belga coloquei na cabeça que iria vender este produto na minha loja e finalmente este ano consegui achar o fornecedor. </p>
<p><strong>Comércio - A Desejo & Sabor promove algum tipo de ação social?<br />Franchini</strong> - Mesmo antes de trabalhar com doces eu e meus filhos íamos até as casas de pessoas necessitadas para ver o que podia ser feito. Aprendi isso com a maçonaria. Ajudar quem precisa não é dar uma cesta básica e ir embora. Você também tem que dar continuidade nisso, ensinar a pessoa a fazer sua higiene, tomar banho. A primeira ação social da empresa foi em parceria com a Apae (Associação de Pais e Amigos do Excepcional). Eles organizaram um jantar e pediram a doação de doces e chocolates. Nos reunimos na empresa, achamos que era viável e ajudamos. Também já ajudamos o pessoal do Hospital do Câncer por diversas ocasiões.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Há algum tempo, em um caso de grande repercussão, a Promotoria proibiu um garoto que sustentava sua família vendendo chocolates de trabalhar. O senhor, que trabalha desde muito cedo, concorda com isso?<br />Franchini</strong> - Eu tenho uma opinião divergente do promotor. Desde que se o garoto estivesse estudando, acho que não teria nenhum problema em continuar trabalhando, pois era um serviço totalmente honesto. Se a Justiça tivesse condições de tirar ele das ruas e sustentar a família tudo bem. Mas a gente sabe que as coisas não são bem assim. Algumas das pessoas que hoje trabalham comigo eu encontrei na rua vendendo doces e chocolates e convidei para vir para minha empresa. Eu tive a oportunidade de conhecer este garoto, que tem um bom papo e certamente será um excelente vendedor. </p>
<p><strong>Comércio - Com exceção do período de Páscoa, existe crise para quem fabrica e vende doces e chocolates?<br />Franchini</strong> - Não, até porque sempre existem casamentos e aniversários. As pessoas podem não ter muito dinheiro, mas fazem questão das festas, de comprar doces. Crise no setor não existe. O que pode acontecer são reduções nos volumes de venda. Para vencer as dificuldades a receita é simples. Se você comercializa produtos em 15 cidades e as vendas caem, o certo é ampliar o número de localidades atendidas. Tem que correr atrás, o que não pode é ficar sentado esperando os pedidos caírem no colo. </p>
<p><strong>Comércio - Como o senhor aproveita suas horas de lazer?<br />Franchini</strong> - Sempre gostei de pescaria e por diversas vezes viajei para pescar. Agora fico mais por aqui, mas sempre que posso dou uma escapada para os pesque-pagues da região para matar as saudades. Eu também gosto muito de andar de moto, mas diminuí o ritmo. Uma vez ou outra pego a moto da empresa e vou ao centro da cidade para fazer algum serviço de banco. Até um ano atrás, eu pegava minha mulher, colocava na garupa da moto e ia para São Paulo fazer compras. A idade vai chegando e o ritmo diminui. Se antes andava em uma moto de 1000 cilindradas, hoje ando em uma com 750 (risos). Mas o importante é não deixar de andar. </p>
<p><strong>Comércio - Em uma época em que a estética rege o comportamento das pessoas, que querem ser cada vez mais magras, é difícil vender chocolate?<br />Franchini</strong> - Não, porque o chocolate não engorda desde que consumido em quantidades moderadas, como todos os produtos que utilizamos para nos alimentar. Com exceção dos chocólatras, nunca vi uma pessoa que comesse compulsivamente um quilo de chocolate. Ultimamente tenho lido diversas reportagens sobre estudos que comprovam os benefícios que o chocolate faz para o coração e também para outros órgãos. </p>
<p><strong>Comércio - Qual a mensagem que o senhor deixa para as pessoas nesta Páscoa?<br />Franchini</strong> - Temos que ter uma crença, não importa qual, pois Deus é universal e verdadeiro desde que você acredite. A Páscoa é tempo de reflexão, quando devemos pedir que Ele nos dê bastante luz e pare com esta violência e desigualdade social, onde poucos têm muito e inúmeros não possuem nada. Uma pessoa que doa dez reais por mês para qualquer obra ou entidade pode achar que não está fazendo muita coisa. Mas imagine onde poderemos chegar se este exemplo for seguido por cem, mil ou milhões de outras pessoas. Somos capazes de mudar vidas com gestos de caridade. Outro pedido meu vai para os nossos políticos, que parem de roubar e canalizem o dinheiro para quem realmente precisa de ajuda.</p>
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