Sexta-Feira Santa


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Lembro-me com muita saudade das Semanas Santas de antigamente. Talvez seja a maneira como relembro, mas tudo me parece tão Diferente do que vivo hoje, a ponto de duvidar que tenha sido realmente da forma como conto. Depois do Natal, férias escolares, sol a pino, piscina do sêo Antônio no antigo Clube dos Bagres, segunda época na escola, cineminha nos dias de semana, uma ou outra noite em passeios na Praça da Matriz, domingo ver vitrines. Tinha o footing, mas só para os mais velhos. Quase ninguém tinha carro, andávamos a pé. Em seguida vinha o Carnaval: nos salões seletos da AEC, no Salão da Sociedade Síria, no Luís Gama. Tinha corso, tinha desfile nas ruas. A Rainha do Carnaval era branquinha e geralmente rica: os votos eram comprados. Não sambava, apenas sorria. O Rei Momo era quase sempre o mesmo. Tinha fantasia, tinha prêmio para Fantasia Individual Feminina, Masculina, para Grupos. As fotos, que o sr. Elias Attiê fazia iam para as vitrines de vidro de sua loja na Rua do Comércio e só não acontecia engarrafamento, porque não havia quantidade de carros suficiente para tal aqui na cidade. Tinha a exposição do Jair Fotógrafo, também. Nas duas lojas, mandou tirar a foto, não buscou, semana seguinte lá estavam elas de cabeça pra baixo. Vexame total. No Carnaval a gente se esbaldava cantando a Jardineira, me dá, me dá, oi, me dá um dinheiro aí, tomara que chova três dias sem parar. Depois das farras momescas, vinha a Quaresma. Na casa de muita gente a carne vermelha desaparecia, em outras só na sexta-feira. Não tinha baile, ninguém casava neste período. Não tinha festa de aniversário, não se batizava criança, nascer, nascia que isso também não tinha jeito de interromper. Aí chegava a Semana Santa para todo mundo: católicos, espíritas, protestantes. Caía um manto invisível, porém palpável sobre a cidade. Escurecia tudo. Os bares semicerravam as portas. As escolas suspendiam as aulas. As pessoas paravam de sorrir, ficavam constritas na aparência, nem pareciam as mesmas cobertas de confete, serpentinas que chegaram dos bailes de Carnaval apenas quarenta dias antes. A rádio - era só a B5 - tocava música clássica o dia inteiro, os speakers falavam como se estivessem num velório, baixinho. As moças da vizinhança quase desmaiavam de fome: faziam jejum de carne por quarenta dias e jejum mesmo - só tomavam água, desde o Domingo de Ramos até no Domingo de Páscoa. Era moça desmaiando pra cá, moça desmaiando pra lá. Subiam e desciam a Saldanha Marinho, iam à “reza”. Ou à "vigília`. Levavam um missal e um terço de contas grandes embrulhados num véu, que era preto (para casadas), branco (para as virgens) e tinha uns cinza, que nunca soube o que significava. Os mais chiques eram de renda, os mais simples, de filó. Na Sexta-Feira Santa, tinha gente chorando pelas ruas: a emoção era real. Caía invariavelmente uma chuvona à tarde e, quando estiava, subia todo mundo para a Praça da Matriz, que logo, logo ia sair a Procissão católica mais importante das comemorações. Tinha catracas, Maria Madalena cantando, um silêncio de fazer medo. Velas acesas, uma mulher coberta de panos andando na frente da Cruz onde estava pregado um homem seminu, coberto de feridas. Aquelas velas acesas davam um clima tétrico ao rosto das pessoas que acompanhavam o enterro, funeral de verdade, preparado com antecedência, para tudo sair perfeito, dentro dos conformes. Lembro-me com nitidez destas cenas, mesmo porque eu as acompanhava do lado de fora, nas calçadas: nunca fiz parte do grupo religioso. Causava-me admiração a fé daquelas pessoas, aquela verdade na qual acreditavam. Hoje, sinto falta de presenciar manifestações de respeito, de cumplicidade e conivência naqueles que dizem ser religiosos. Ligo o rádio na Sexta-Feira Santa, toca um funk. Nos rostos, a alegria por mais um feriado. Percebo a ansiedade de todo mundo pelo Sábado, que promete a surra no Judas, e pelo Domingo, quando vai acontecer a farra do chocolate. CARNAVAL Eduardo Dussek (Troque seu cachorro por uma criança pobre) está se apresentando em São Paulo, Teatro Procópio Ferreira, no musical Sassaricando. A plateia tem idade na faixa de 50 a 100 anos e a média cai porque tem muito neto levando seus avós para a sessão nostalgia. São, seguramente, quase todas as marchas dos Carnavais do passado, sem uma ordem cronológica de apresentação: vem Bandeira Branca antes de Zé Corneteiro, por exemplo. Nada comprometedor. Fica só no mês abril e depois, como aconteceu com as marchinhas, é só saudade. BRONCA O comentário sobre a posição de Lula ao lado da Rainha da Inglaterra na foto oficial do G20 que o comentarista inglês atribuiu à baixa estatura do presidente e não ao seu prestígio, fez o leitor L.H.G. me escrever e afirmar que jornalistas são preconceituosos quando se trata de Lula. Bom. Para os ingleses, presidente de país latino não tem a menor importância. Eles perguntam, sim, se a corrupção no Brasil nunca vai ter fim e se o povo brasileiro se vende por esmolas. E a cara da gente cai no chão. INDELICADEZA Articularmente o que me chamou atenção, quando procurei o vídeo no Youtube, da bronca no Berlusconi que saiu gritando por Mr. Obama na mesma ocasião - isso sim publicado e explorado pela imprensa inglesa - foi a indelicadeza do presidente do Brasil atravessando a frente da Rainha imediatamente após o clique do fotógrafo. Ele fica muito bem entre os poderosos, fica não? Se foi pobre, não parece se lembrar. Ou estou sendo preconceituosa? EXPOSIÇÕES Kuniyoshi, o mestre dos prints, está com exposição concorridíssima na Royal Academy of Arts de Londres. Acho a vida um bocado injusta: quem deveria ter essa oportunidade ímpar é o profissional de design gráfico e não eu, que olho, sei avaliar, acho espetacular, mas não consigo desenhar um risco no papel. Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e Membro da Academia Francana de Letras -luciahelena@comerciodafranca.com.br

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