O confinamento de ratos para fins experimentais trouxe, através dos tempos, importantes avanços à humanidade. Incontáveis vidas humanas foram salvas devidos a estudos do tipo.
A coisa fez escola também dentre os humanos. Hoje é possível ver bípedes que se deixam confinar num determinado ambiente permitindo a seus “confinadores” explorarem ao máximo possível situações inerentes à capacidade sentimental e emocional que possam suportar.
Ao contrário dos ratos, que são irracionais, os indivíduos participantes de “realities shows”, ao que parece, são dotados de média-inteligência, já que se submetem ao jogo consciente da coisa toda.
E os testes – experimentos – se sucedem do ambiente laboratorial que os encerram. São provados e provocados incessantemente a fim de estimularem seus lados sombrios, comportamentos dissimulados, deslealdades e egoísmo.
Embora esse tipo de programação televisiva nem de longe se equipare à importância dos verdadeiros laboratórios e de suas cobaias, sacrificadas para o bem da humanidade, os participantes desses "shows de realidade(!) não conseguem ter a noção do sacrifício que fazem de suas imagens; das consequências que os acompanharão pelos restos de seus dias a partir da exposição pública à qual se entregaram. Não vislumbram o processo de estigmatização de suas dignidades que, depois de feridas, raramente haverão de se curar.
É bem verdade que nesses programas ninguém é obrigado a aceitar o confinamento. Chegam andando com as próprias pernas, sorrindo. Imaginam perseguir um sonho mas de preço alto: perda da privacidade e das liberdade individuais.
A impressão que se tem é que as obras fictícias (novelas, minisséries, etc.) não conseguem mais satisfazer a ânsia espectadora. É preciso ir mais fundo, confinando pessoas reais e estimulando a que se degladiem para estimular o telespectador ao “poder” de "eliminar” alguém. É o preenchimento do desejo mais recôndito: eliminar, na vida real, o próprio algoz ou alguém que atravesse o nosso caminho.
A capacidade do homem em adequar as coisas segundo a realidade atual é surpreendente. Abandonou-se há muito o Coliseu romano; os sangrentos gladiadores; as espadas afiadas que levavam à morte. Isso, substitui-se pelo “circo” moderno, mais refinado e quase hipnótico. Escolhe-se pessoas de perfis conflitantes; explora-se a sensualidade dos corpos; eletrificam-se os jogos interpessoais até a exaustão, confinam-se em câmaras de hospitais psiquiátricas. E se revela pela televisão, ao gozo de milhões.
As milhões e milhões de ligações tributadas, disparadas por todo Brasil diz que a fórmula vale.Como diria Júlio Camargo, “não se deve tachar a televisão de anticultura: cada povo tem o programa que merece”.
Ricardo Gallo Veríssimo
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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